quinta-feira, 24 de junho de 2021

NASCER-DO-SOL É MINUTO ANTI-STRESS, FERNANDINHO? CONCORDO.

NASCER-DO-SOL É MINUTO ANTI-STRESS, FERNANDINHO? CONCORDO.

Na longuíssima carta que António Gedeão deixou aos tetranetos ele escreveu assim:

«Uma das características da vida actual é o desamparo, a solidão, o desapego, a monotonia, a indiferença, o cansaço. Apareceu mesmo, na vida moderna, um termo que pretende exprimir isso tudo e mais alguma coisa. É o "stress", palavra estrangeira que explica todos os desvarios, todo o esvaziamento e esgotamento dos seres humanos.»

Gedeão, ou seja, Rómulo de Carvalho, não era homem de sorriso fácil, nada fácil mesmo. Mas não tenho dúvida de que ele, se se juntasse a nós nestes nossos madrugares, sorriria muitas vezes e com muito gosto.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

QUE NEM LAGARTO AO SOL

Hoje caminhei para o consultório com folga de tempo.
Apetecia-me um café, mas já me aborreci com o mau atendimento do bem vistoso e muito moderno café-pastelaria que está logo ali à saída do Metro. Não, este tem mesas largas e espaço amplo, mas ali não ficaria.
Fiz o primeiro quarteirão a ler vagarosamente, cuidando de, antes de enfiar os olhos no livro, observar até ao cruzamento seguinte, a calcular a linha de caminho mais desimpedida. Sabia-me bem o calor do Sol, que me aconchegava pelo lado que melhor me sabe, o esquerdo. Lá na outra ponta, os semáforos estavam verdes para peões, atravessei a 5 de Outubro. O pequeno estabelecimento do café, que serve o café expresso que mais aprecio, o Buondi, era já ali à frente, mais três ou quatro passos.
Mas o sol estava a saber-me mesmo bem. Pensei fugazmente na dose mínima diária de sol que os especialistas nos recomendam fazermos. Sim, tinha tempo. O buondi iria esperar mais um pouco, e acrescentei um pedacinho de prazer antecipado a lembrar-me que só me custaria 50 cêntimos. No tal modernaço teria pago 70 cêntimos, e no café do outro lado da rua 65 cêntimos - pagar nitidamente menos pelo café expresso mais apreciado não é ganho extra de todos os dias.
Mesmo ali ao lado direito, na parte mais de dentro do passeio, um pequeno canteiro com um bordo à altura ideal de apoiar o cotovelo.
Que bem o sol continuava a saber-me! A luz espalhava-se, abundante, nas páginas que os olhos percorriam, sem os ferir - muito lindo o dourado vertido nas páginas, tomava eu consciência!
Um transeunte chegou-se a mim e educadamente, num português do Brasil, perguntou-me pela estação de Metro. Indiquei-lha.
Retomei a leitura, voltando à consciência do saboroso calor do Sol e do muito agradável dourado das páginas do livro. A que juntaria, dali a pouco, o gostoso sabor dos 50 cêntimos de café...
Outros transeunte, o mesmo pedido de informação, desta vez com sotaque forte de português africano. A mesma delicadeza de trato.
Faziam-se horas. Caminhei para o minúsculo café. Ainda mal entrara, uma muito suave e jovem voz de menina brasileira me dava as boas tardes. Correspondi e pedi uma bica.
Enquanto a menina tirava o café, puxei do porta-moedas e peguei numa moeda de 50 cêntimos, que pus em cima do balcão. A mão que pousou a chávena do café à minha frente foi a mesma que pegou na moeda. Reparo que põe a moeda bem à frente dos olhos, mira-a dum lado, mira-a do outro. «Senhor, é sessenta cêntimos.» «Mas ainda ontem paguei cinquenta...» «Sim, é verdade, mas cinquenta cêntimos é só à quarta-feira, nos outros dias é sessenta.» «Uma promoção do dia, é? Ou melhor, despromoção, promoção foi ontem.» A rapariga riu-se e encolheu os ombros. Eu estava bem disposto, com o calor do sol e a luz dourada das páginas ainda a reverberarem nos sentidos. «Já sei o que vou fazer, na quarta-feira da semana que vem tomo logo sete cafés seguidos, fico com a semana toda feita de cafés mais baratinhos!» A menina riu-se outra vez.
Saio para a rua e enfio logo os olhos outra vez no livro. Dou dois passos e logo um rosto muito bonito de jovem senhora me esbarra o caminho. Trocamos abraços, trocamos sorrisos, fazemos conversa, pergunto-lhe pelo rapaz dela, um valente moço. Sim, está muito bem, no 10.º ano, num curso profissional, está a gostar muito, está a ter boas notas. O trabalho que este rapaz já deu!... Um verdadeiro herói. Gostava muito de o voltar a ver, deve estar um homem! «Vá, diz-lhe que arranje um espacinho na agenda dele para irmos almoçar e pormos a conversa em dia.» A senhora, agora mãe, lembro-me dela ainda a dar passitos titubeantes... Os anos passam... Muitas dificuldades aconteceram, agora parece que estão bem. Fico contente pelo moço e fico contente pela mãe-que-foi-menina - e ainda parece menina.
Subo ao escritório. De sentidos docemente preenchidos e sentimentos carinhosamente despertados. Quase apetecia deixar-me levar, indolente. Forcei-me a reagir. Quem me procurava merecia todo o respeito e entrega, pessoal e profissional.
Duas horas depois saí outra vez para a rua. Eu vinha seguro de que o que tinha de correr bem correu mesmo muito bem. Mais um bocadinho de sol gostoso.
No Metro, enfiei outra vez os olhos no muito interessante livro que precisava do tempo das viagens de carris para prosseguir a sua própria viagem. Já as páginas não tinham o encantador dourado de horas antes - mas um dia ele voltará!

sábado, 17 de março de 2018

O Grande Irmão está vigiando-nos...

Estou a orientar, em co-autoria, uma acção de formação para professores e psicólogos.
Anteontem recebi um email do colega coordenador do Centro de Formação que enquadra a formação. Dizia a missiva, no principal, que tinha recebido um email de uma colega, formanda, a lamentar-se de que eu não havia respondido ao seu email (já vamos em 3 emails); bem, afinal, a colega não me havia mandado um email, mas sim dois.
Fui ver o que se passava, e constatei que os emails da colega (de conteúdos legítimos, circunstanciais e, por isso, a justificarem uma resposta pronta da minha parte) tinham sido enviados para um endereço de email, sim, com o meu nome, mas cuja existência eu desconhecia, ponto.
Quando disto informei o colega coordenador, ele explicou-me que o sistema informático gera automaticamente um endereço virtual (e a respectiva caixa de correio) para o professor formador, facto que eu também desconhecia absolutamente... Depois acrescentou que, não obstante, também automaticamente faz o reencaminhamento das mensagens para o endereço de email que o professor formador tenha fornecido ao centro de formação para ser usado no âmbito da acção de formação.
Eu disse ao meu colega coordenador - pessoa por quem tenho muito respeito e estima - que não tinha recebido nada da colega que se compreensivelmente se afligira com a minha falta de resposta, nem antes das datas dos seus emails, nem nesses dias, nem depois.
A isto o meu colega respondeu-me que o sistema, isso, o sistema, lhe mostrava que eu tinha recebido na caixa de correio do endereço que forneci ao centro de formação os emails encaminhados a partir da caixa de correio do endereço automaticamente criada para mim pelo sistema quando eu fui oficialmente designado formador da acção de formação que ia ministrar em co-autoria. Uff!...
Perante esta "certeza", "comprovada", do sistema, fui novamente ver todas as minhas caixas de correio 'on line'; inclusivamente, as secções de 'spam'. Nada! Nem uma única letra ou arroba perdido que pudesse indiciar a presença de um, quanto mais dois!, email perdido.
E pus-me a pensar: olha se isto fosse um assunto sério que tivesse de ser dirimido em tribunal... Era a minha palavra contra a do sistema. Na qual o juiz encontraria a verdade? Bem, felizmente isto aconteceu entre pessoas que se respeitam e confiam entre si, e o caso foi identificado - e morto! - à nascença.
Entretanto, será esta a crucialmente preocupante questão? No meu ver, ainda não é. A crucial questão, para mim, tem a ver com estes sistemas implacavelmente cegos e radicalmente ininteligentes que, por mais subsistemas que se criem para retroactivamente (vulgo 'feedback') verificarem (vulgo, 'checarem') a correcção dos procedimentos do sistema para se evitarem os erros, mostram falhas - falhas graves. Que ditam estupidamente e acriticamente "ocorrência verdadeiras", "certificadas" por 'bits' electrónicos disparados não sei de onde criando realidades que não existem. A fazer lembrar a citação que ainda hoje li de Nassim Nicholas Taleb: «Loss of touch with reality is the plague of our time» (A perda de contacto com a realidade é a praga do nosso tempo)
Resumindo: os olhos, os tentáculos, do Grande Irmão são cada vez mais extensos e dissimulados; e muito provavelmente as mentiras que criam sobre as pessoas utilizadoras - quantas delas compulsivamente obrigadas porque cada vez mais se obrigam os utentes de tudo a comunicarem apenas pela Internet! - também aumentarão na mesmma medida da dissimulação do controlo.
Como eu desabafava com o meu querido amigo professor coordenador, isto é kafkiano, orwelliano, ou huxleyliano?

domingo, 5 de março de 2017

OS FIOS DA COMUNICAÇÃO HUMANA

Psicologia - Frase da semana, 05MAR17: OS FIOS DA COMUNICAÇÃO HUMANA

«God meant us to be wireless. The last cord we were connected to was cut at birth.» (Frank Sanda, Motorola)

Deus quis que fôssemos 'ligações sem fios'. O último fio que nos liga é cortado na hora do nascimento.

Pois, sem comentários...
Não, um pequeno comentário: na minha opinião, mais do que valorizar a tecnologia, a afirmação avisa-nos que o que faz as ligações é a mente, é a consciência, é o que pensamos voluntariamente, o pensamento dirigido sobre mim e sobre os outros; com os outros, em relação de vai-vem, de lá para cá e de cá para lá. Um exemplo de velhos 'wireless': há quanto tempo, na evolução humana, há pais possessivos e até à distância tentam controlar os filhos?

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A SOLIDÃO DA ANGUSTIANTE CONDIÇÃO HUMANA

Psicologia - Frase da semana, 26FEV17: A SOLIDÃO DA ANGUSTIANTE CONDIÇÃO HUMANA

«O Homem foi criado para levar a sua própria cruz. E para isso o dotaram de vigorosos ombros. Enquanto o Homem se suporta a si próprio, pode suportar um sem-número de coisas.» (Alex Munthe, "O Livro de San Michele, Livros do Brasil, 6.ª ed., p. X)

«Henry James [...] pôs-me a mão no ombro, perguntando-me o que tencionava fazer; respondi-lhe que era meu desejo deixar a França para me esconder como um desertor na minha velha torre de Anacapri, o lugar mais adequado para mim. Ao despedir-se, recordou-me que, muitos anos atrás, quando fora meu hóspede em Anacapri, me tinha querido persuadir a que escrevesse um livro acerca de San Michele, a que ele chamava o mais belo lugar do Mundo. [...] Que estudo fascinante para um homem como eu, apaixonado pela psicologia! Não há nada para esquecer a própria miséria como escrever um livro; nada melhor também quando não se pode dormir.
Estas foram as suas últimas palavras; não o tornei a ver.
[...] Tornou a reinar o silêncio na velha torre e de novo me encontrei a sós com a minha angústia.
O Homem foi criado para levar a sua própria cruz. E para isso o dotaram de vigorosos ombros. Enquanto o Homem se suporta a si próprio, pode suportar um sem-número de coisas. Pode viver sem esperança, sem amigos, sem livros, até sem música, contanto que seja capaz de escutar os seus próprios pensamentos, o canto dos pássaros em frente da janela e a voz do mar ao longe. Diziam-me em St. Dunstans (1) que um homem pode viver até sem luz; os que tal afirmavam eram heróis. Mas a vida é impossível sem dormir. Quando perdi o sono, comecei a escrever este livro, depois de ter ensaiado todos os remédios inofensivos. Pelo que a mim se refere, o resultado foi excelente. Bendisse muitas vezes Henry James pelo seu conselho; ultimamente tenho dormido muito melhor. A tal ponto que me causou prazer escrever este livro.»
Quanto o dr. João dos Santos gostava de falar aos seus alunos sobre o frente a frente de cada um de nós com a sua vital angústia!...

sábado, 14 de janeiro de 2017

O QUE FAZER COM A LOUCURA QUE TEMOS?

Psicologia - Frase da semana, 15JAN17: O QUE FAZER COM A LOUCURA QUE TEMOS?

«A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana.» (Fernando Pessoa,  Aforismos e afins, Assírio & Alvim, 2003, p.16)

«A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana. Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal. Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco. Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido. Ter consciência dela e ela ser grande é ser génio.»
Parece que Fernando Pessoa não nos deixa escapatória: temos mesmo de escolher, entre as alternativas, a loucura que melhor encaixa com o que pensamos de nós mesmos. Não obstante, por melhor que façamos, há ainda a hipótese de nos enganarmos.

domingo, 23 de outubro de 2016

O QUE FAZER COM AS EMOÇÕES NEGATIVAS?

Psicologia - Frase da semana, 23OUT16: O QUE FAZER COM AS EMOÇÕES NEGATIVAS?

«One of the things I had to learn as a journalist was what to do with my anger. I had to use it, channel its energy, turn it into something that would clarify my vision, instead of clouding it.» (TED2007 · Filmed March 2007 · 21:56, James Nachtwey: My wish: Let my photographs bear witness)
(Uma das coisas que tive que aprender enquanto jornalista foi o que fazer da minha raiva. Tive que usá-la, canalizar a sua energia, transformá-la em qualquer coisa que clarificasse a minha visão, em vez de a obscurecer.)
«Os fotógrafos vão aos limites extremos da experiência humana para mostrar às pessoas o que se passa.Por vezes põem em risco a vida, porque acreditam que as vossas opiniões e a vossa influência são importantes. Dirigem as fotografias aos vossos melhores instintos, a generosidade, o sentido do certo e do errado, a capacidade e a vontade de se identificarem com os outros, a recusa em aceitar o inaceitável. O meu desejo TED: Há uma história vital que tem que ser contada, e desejo que a TED me ajude a conseguir fazer isso e depois me ajude a arranjar formas inovadoras e excitantes de usar o fotojornalismo na era digital. Muito obrigado.»
Toda a palestra é um emocionado e intenso testemunho; mais, é uma espécie de legado.
Da raiva, sempre com muita tenacidade, James Nachtwey fez uma firme, determinada e não-beligerante denúncia. Informou como tantas vezes os poderes políticos de todo o Mundo queriam que não se informasse. Assim proporcionou respostas e soluções. E influenciou importantes decisões políticas contra as guerras e a destruição.
Embora transcreva para aqui a palestra integralmente, recomendo o visionamento do vídeo da palestra. Tem boas legendas em português.
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0:12
Para uma pessoa que passou toda a sua carreira a tentar ser invisível,
0:16
estar em frente duma audiência, é uma mistura duma experiência fora-do-corpo e um veado encadeado por holofotes, por isso perdoem-me por eu violar um dos mandamentos do TED socorrendo-me de um papel escrito. Só espero não ser atingido por um raio antes de acabar. (Risos) Queria começar por falar de algumas das ideias que me motivaram a tornar-me um fotógrafo documental.
0:41
Eu era um estudante, nos anos 60, uma época de contestação social e, a nível pessoal, do despertar dum sentido de idealismo. A guerra no Vietname estava no auge. O Movimento dos Direitos Civis estava em marcha e as imagens tinham uma tremenda influência em mim. Os nossos líderes políticos e militares diziam-nos uma coisa e os fotógrafos diziam-nos outra. Eu acreditava nos fotógrafos, tal como milhões de norte-americanos. As imagens deles alimentavam a resistência contra a guerra e o racismo. Não se limitaram a registar a História, ajudaram a mudar o curso da História. As fotos deles passaram a fazer parte da nossa consciência coletiva e, quando essa consciência evoluiu para um sentimento de consciência generalizado, a mudança não só foi possível, mas foi inevitável.
1:29
Vi que o livre fluxo de informações representado pelo jornalismo, em especial o jornalismo visual, pode lançar a luz nos benefícios e no custo da polícia política. Pode reconhecer o mérito duma tomada de decisões correta, reforçando o ímpeto para o seu êxito. Perante um mau juízo político ou a falta de ação política, torna-se num tipo de intervenção, analisando os danos e pedindo que reavaliemos a nossa conduta. Dá um rosto humano a questões que, de longe, podem parecer abstratas ou ideológicas ou monumentais no seu impacto global. O que acontece, a nível das bases, longe dos salões do poder, acontece aos cidadãos normais, a cada um de nós.
2:14
Compreendi que a fotografia documental tem a capacidade de interpretar acontecimentos, do seu ponto de vista. Dá voz aos que, de outro modo, não teriam voz. Como reação, estimula a opinião pública e dá ímpeto ao debate público, impedindo assim as partes interessadas de controlarem totalmente a agenda, por mais que gostassem de o fazer. Ao chegar a adulto, naquela época, percebi que o conceito do livre curso da informação é completamente vital para o bom funcionamento duma sociedade livre e dinâmica. Claro que a imprensa é um negócio e, para poder sobreviver, tem que ser um negócio com êxito. Mas é preciso encontrar o devido equilíbrio entre as considerações comerciais e a responsabilidade jornalística.
3:01
Os problemas da sociedade só podem ser resolvidos depois de identificados. Num plano mais elevado, a imprensa é uma indústria de serviços e os serviços que presta são a consciência. Nem todas as notícias têm que vender qualquer coisa. Também há alturas para dar. Era uma tradição que eu queria seguir. Ver a guerra criava incríveis desafios para todos os envolvidos e o jornalismo visual não se podia tornar num fator para a solução do conflito. Eu queria ser fotógrafo para vir a ser fotógrafo de guerra. Mas era motivado por um sentimento inerente de que uma imagem que revelasse a verdadeira face da guerra, por definição, seria quase como uma foto antiguerra.
3:46
Quero levá-los num passeio visual por alguns dos acontecimentos e questões em que estive envolvido nos últimos 25 anos. Em 1981, fui à Irlanda do Norte. Havia 10 prisioneiros do IRA que estavam a fazer greve da fome como protesto contra as condições da cadeia. A reação nas ruas era de violenta confrontação. Percebi que as primeiras linhas das guerras contemporâneas não são nos campos de batalha isolados, mas onde a população vive. No início dos anos 80, passei muito tempo na América Central, que estava mergulhada em guerras civis que refletiam a divisão ideológica da Guerra Fria.
4:25
Na Guatemala, o governo central, controlado por uma oligarquia de ascendência europeia, travava uma campanha de terra queimada contra uma rebelião indígena. Vi uma imagem que refletia a história da América Latina: a conquista através da aliança da Bíblia e da espada. Um guerrilheiro anti-sandinista foi ferido mortalmente quando o Comandante Zero atacou uma cidade no sul da Nicarágua. Um tanque destruído, pertencente à guarda nacional de Somoza ficou como monumento num parque em Manágua e foi transformado pela energia e espírito duma criança. Ao mesmo tempo, travava-se uma guerra civil em El Salvador. Mais uma vez, a população civil foi apanhada pelo conflito.
5:12
Tenho feito a cobertura do conflito palestino-Israel desde 1981. Este é um momento do início da segunda intifada, em 2000, quando ainda eram só pedras e "cocktails molotov" contra um exército. Em 2001, a rebelião aumentou para um conflito armado e um dos principais incidentes foi a destruição do campo de refugiados palestinos na cidade de Jenin, na Margem Ocidental. Sem vontade política para encontrar um terreno comum, a fricção contínua de tática e contra-tática só cria suspeitas e ódio e vingança e perpetua o ciclo de violência.
5:54
Nos anos 90, depois da desintegração da União Soviética, a Jugoslávia dividiu-se pela linha de fraturas étnicas e rebentou a guerra civil entre a Bósnia, a Croácia e a Sérvia. Isto é uma cena da luta casa a casa, em Mostar, vizinho contra vizinho. Um quarto, o local onde as pessoas partilham a sua intimidade, onde é concebida a vida, tornou-se num campo de batalha. Uma mesquita no norte da Bósnia foi destruída pela artilharia sérvia e foi usada como uma morgue improvisada. Soldados sérvios mortos recolhidos depois duma batalha e usados como moeda de troca para devolução de prisioneiros ou soldados bósnios mortos em combate. Isto tinha sido um parque. O soldado bósnio que me guiou disse-me que todos os seus amigos já ali estavam.
6:51
Ao mesmo tempo, na África do Sul, depois de Nelson Mandela ter sido libertado da prisão, a população negra começou a fase final da libertação do "apartheid". Uma das coisas que tive que aprender enquanto jornalista foi o que fazer da minha raiva. Tive que usá-la, canalizar a sua energia, transformá-la em qualquer coisa que clarificasse a minha visão, em vez de a obscurecer. No Transkei, testemunhei um ritual de passagem a adulto, da tribo xhosa. Adolescentes viviam em isolamento, com o corpo coberto de barro branco. Ao fim de semanas, lavavam o barro branco e assumiam plenas responsabilidades como homens. Era um ritual muito antigo que parecia simbólico da luta política que estava a mudar o rosto da África do Sul.
7:42
Crianças no Soweto a brincar num trampolim. Por toda a parte em África, havia fome. Na Somália, o governo central caiu e rebentou a guerra entre clãs. Agricultores foram expulsos das suas terras e as culturas e o gado foram destruídos ou roubados. A fome estava a ser usada como uma arma de destruição maciça, primitiva mas extremamente eficaz. Foram exterminadas centenas de milhares de pessoas, lenta e dolorosamente. A comunidade internacional reagiu com ajuda humanitária maciça e salvaram-se centenas de milhares de vidas. Foram enviadas tropas norte-americanas para proteger os envios de ajuda, mas acabaram por ser envolvidas no conflito e, depois da trágica batalha de Mogadíscio, retiraram-se. No sul do Sudão, outra guerra civil assistiu a um uso semelhante da fome como forma de genocídio.
8:40
Mais uma vez, as ONG internacionais, unidas sob o patrocínio da O.N.U., encenaram uma gigantesca operação de ajuda e salvaram-se milhares de vidas. Sou testemunha e quero que o meu testemunho seja honesto e livre de censura. Também quero ser poderoso e eloquente e ser tão justo quanto possível quanto à experiência das pessoas que fotografo. Este homem estava num centro de alimentação das ONG, a ser assistido tanto quanto podia ser assistido. Não tinha literalmente nada. Era praticamente um esqueleto, mas conseguiu reunir coragem e vontade para se mover. Não tinha desistido e, se ele não desistiu, quem, no mundo exterior, se atreverá a perder a esperança? Em 1994, depois de três meses a fazer a cobertura das eleições na África do Sul, vi a tomada de posse de Nelson Mandela. Foi a coisa mais incrível a que já assisti. Foi um exemplo do melhor que a Humanidade tem para oferecer. No dia seguinte parti para o Ruanda e foi como apanhar um elevador expresso para o inferno.
9:50
Este homem tinha acabado de ser libertado dum campo de morte hutu. Permitiu que eu o fotografasse durante bastante tempo, até virou a cara para a luz, como se quisesse que eu o visse melhor. Penso que ele sabia o que as cicatrizes na cara dele diriam ao resto do mundo. Desta vez, talvez confusa ou desanimada pelo desastre militar na Somália, a comunidade internacional manteve-se silenciosa e foram chacinadas cerca de 800 mil pessoas pelos seus compatriotas — por vezes pelos próprios vizinhos — usando utensílios agrícolas como armas.
10:27
Talvez por ter aprendido a lição, pela fraca reação à guerra na Bósnia e pelo fracasso no Ruanda, quando a Sérvia atacou o Kosovo, a ação internacional foi tomada muito mais decididamente. As forças da NATO avançaram e o exército sérvio recuou. Foram assassinadas pessoas de etnia albanesa, as suas quintas destruídas e muita gente foi deportada à força. Foram recebidas em campos de refugiados instalados por ONG na Albânia e na Macedónia. A marca dum homem que morreu queimado dentro de casa. A imagem recordou-me as pinturas das cavernas e fez-me pensar em como ainda somos primitivos, sob tantos aspetos.
11:12
Entre 1995 e 1996, fiz a cobertura das duas primeiras guerras na Chechénia, do interior de Grózny. Este é um rebelde checheno na linha da frente contra o exército russo. Os russos bombardearam Grózny constantemente durante semanas, matando sobretudo os civis que ainda estavam encurralados lá dentro. Encontrei um rapaz do orfanato local a vaguear pela linha da frente. O meu trabalho passara de estar preocupado sobretudo com a guerra para me concentrar também nas questões de crítica social. Depois da queda de Ceausescu, fui à Roménia e descobri uma espécie de "gulag" de crianças, onde se mantinham milhares de órfãos em condições medievais. Ceausescu tinha imposto uma quota quanto ao número de crianças que cada família tinha que ter, transformando o corpo das mulheres num instrumento de política económica do estado. As crianças, que não podiam ser sustentadas pela família, eram criadas em orfanatos do governo. As crianças com defeitos congénitos eram consideradas incuráveis, e reduzidas a uma vida em condições desumanas.
12:21
Quando as notícias vieram a lume, avançou mais uma vez a ajuda internacional. Mergulhando mais fundo no legado dos regimes da Europa de Leste, trabalhei vários meses numa notícia sobre os efeitos da poluição industrial, em que não tinha havido qualquer respeito pelo ambiente ou pela saúde quer dos trabalhadores quer da população em geral. Uma fábrica de alumínio na Checoslováquia estava cheia de fumo e poeiras cancerígenas e quatro em cada cinco operários apareciam com cancro.
12:53
Depois da queda de Suharto na Indonésia, comecei a explorar condições de pobreza num país que estava a caminho da modernização. Passei muito tempo com um homem que viva com a família num aterro ferroviário e tinha perdido um braço e uma perna num acidente de comboio. Quando foi publicada a história, choveram donativos espontâneos. Instituiu-se um fundo, e a família agora vive numa casa no campo com todas as necessidades básicas satisfeitas. Era uma história que não estava a tentar vender nada. O jornalismo tinha proporcionado um canal para o sentido natural de generosidade das pessoas e os leitores corresponderam. Encontrei um grupo de crianças sem abrigo que foram do campo para Jacarta, e acabaram por viver numa estação de comboio. Aos 12 ou 14 anos, acabaram em pedintes e drogados. Os rurais pobres tinham passado a ser os urbanos pobres e, no processo, tornaram-se invisíveis.
13:55
Estes viciados em heroína, em desintoxicação no Paquistão, fizeram-me lembrar personagens numa peça de Beckett, isoladas, à espera no escuro, mas atraídas pela luz. O Agente Laranja era um desfolhante usado durante a guerra do Vietname para impedir o refúgio ao exército vietcongue e norte-vietnamita. O ingrediente ativo era a dioxina, um químico extremamente tóxico que foi aspergido em enormes quantidades, cujos efeitos passaram para os genes da geração seguinte. Em 2000, comecei a documentar questões de saúde global, concentrando-me primeiro na SIDA em África. Tentei contar a notícia através do trabalho dos técnicos de saúde. Pensei que era importante sublinhar que as pessoas estavam a ser ajudadas, quer por ONG internacionais ou por organizações de base locais.
14:46
Nesta epidemia ficaram órfãs tantas crianças que as avós assumiram o papel de mães. Muitas crianças nasceram com HIV. Um hospital na Zâmbia. Comecei a documentar a estreita ligação entre o HIV/SIDA e a tuberculose. Isto é um hospital MSF no Camboja, As minhas fotos podem desempenhar um papel de apoio ao trabalho das ONG lançando luz nos problemas sociais críticos que elas tentam resolver. Fui para o Congo com os MSF e contribuí para um livro e para uma exposição que concentrava as atenções numa guerra esquecida em que tinham morrido milhões de pessoas, expostas a doenças sem tratamento, ou usadas como uma arma. Uma criança malnutrida a ser medida ao abrigo do programa de alimentação suplementar.
15:42
No outono de 2004, fui a Darfur. Desta vez, estava contratado por uma revista, mas voltei a trabalhar estreitamente com os MSF. A comunidade internacional ainda não tinha encontrado forma de criar a pressão necessária para deter aquele genocídio. Um hospital MSF num acampamento para deslocados. Tenho trabalhado num grande projeto sobre o crime e o castigo nos EUA. Isto é uma cena de Nova Orleães. Um prisioneiro numa prisão no Alabama foi punido sendo algemado a um poste sob o sol do meio-dia. Esta experiência levantou uma série de questões, entre elas questões sobre etnias e igualdade e sobre quem, no nosso país, tem acesso a oportunidades e opções. No pátio da prisão em Alabama.
16:37
Não vi nenhum dos aviões embater e, quando olhei pela janela, vi a primeira torre a arder e pensei que devia ter sido um acidente. Minutos depois, quando voltei a olhar e vi a segunda torre a arder, percebi que estávamos em guerra. No meio dos destroços no Ground Zero, tive uma revelação. Tinha andado a fotografar no mundo islâmico desde 1981, não só no Médio Oriente, mas também em África, na Ásia e na Europa. Quando andava a fotografar nesses diferentes locais, pensava que estava a cobrir notícias separadas, mas a história do 11/setembro cristalizou e percebi que tinha andado a fazer a cobertura duma única notícia, durante mais de 20 anos e o ataque a Nova Iorque era a sua última manifestação.
17:23
O bairro comercial central de Cabul, no Afeganistão no fim da guerra civil, pouco depois de a cidade cair para os talibãs. Vítimas de minas terrestres a serem ajudadas no centro de reabilitação da Cruz Vermelha dirigido por Alberto Cairo. Um rapaz que perdeu uma perna numa mina abandonada. Testemunhei imenso sofrimento no mundo islâmico, opressão política, guerra civil, invasões estrangeiras, pobreza, fome. Percebi que, no seu sofrimento, o mundo islâmico tinha estado aos gritos. Porque é que nós não os escutámos? Um combatente talibã alvejado durante uma batalha quando a Aliança do Norte entrou na cidade de Kunduz. Quando estava iminente a guerra com o Iraque, percebi que as tropas norte-americanas seriam bem cobertas, por isso decidi fazer a cobertura da invasão no interior de Bagdade. Um mercado foi atingido por um morteiro que matou vários membros duma única família. Um dia depois de as forças americanas entrarem em Bagdade, uma companhia de fuzileiros começou a cercar ladrões de bancos e foram aplaudidos pela multidão, um momento de esperança que durou pouco.
18:47
Pela primeira vez em anos, os xiitas puderam fazer a peregrinação a Karbala para festejar Ashura. Fiquei espantado com o grande número de pessoas e com o grande fervor com que praticavam a sua religião. Um grupo de homens a desfilar pelas ruas, cortando-se com facas. Era óbvio que os xiitas eram uma força a ser considerada e faríamos bem em compreendê-los e aprender a lidar com eles. No ano passado, passei meses a documentar as nossas tropas feridas, que saíam do campo de batalha no Iraque e voltavam para casa.
19:22
Isto é um helicóptero médico a tentar ressuscitar um soldado que fora ferido na cabeça. A medicina militar tornou-se tão eficaz que a percentagem de tropas que sobrevive a ferimentos é muito mais alta nesta guerra do que em qualquer outra guerra da nossa história. A arma emblemática da guerra é a bomba caseira e o ferimento emblemático é um dano grave nas pernas. Depois de aguentar uma dor extrema e traumas, os feridos enfrentam uma difícil reabilitação física e uma luta psicológica. O espírito que demonstram é absolutamente espantoso. Tentei colocar-me no lugar deles e fiquei completamente esmagado pela sua coragem e determinação perante uma perda tão catastrófica. Gente boa que foi colocada numa situação terrível por resultados questionáveis. Um dia, na reabilitação, comecei a falar de "surfing" e todos aqueles tipos que nunca tinham feito "surf" disseram: "Ei, vamos embora!". E foram fazer "surf".
20:33
Os fotógrafos vão aos limites extremos da experiência humana para mostrar às pessoas o que se passa. Por vezes põem em risco a vida, porque acreditam que as vossas opiniões e a vossa influência são importantes. Dirigem as fotografias aos vossos melhores instintos, a generosidade, o sentido do certo e do errado, a capacidade e a vontade de se identificarem com os outros, a recusa em aceitar o inaceitável. O meu desejo TED: Há uma história vital que tem que ser contada, e desejo que a TED me ajude a conseguir fazer isso e depois me ajude a arranjar formas inovadoras e excitantes de usar o fotojornalismo na era digital. Muito obrigado.
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(Aplausos) [Para ajudar a concretizar este desejo, contactar: tedprize@ted.com]