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O Miguel, que agora já está bem mais crescido; mas ele era assim quando me chamou "histórico". |
Pouco antes de os deixar, pedi ao Miguel que me autografasse o seu CD, Eu Nasci para Cantar, que foi recentemente lançado. O Miguel logo tratou de satisfazer o meu pedido, ali joelhado no chão da sala, com o CD posto em cima do sofá, entre mim e o pai. Quando acabou, levantou-se, empertigou-se, colocou a voz e leu-nos o que tinha escrito, terminando com um triunfal sorriso: "... Miguel Guerreiro!" "Miguel", pedi-lhe eu, enquanto ele tinha o CD e a esferográfica nas mãos, "põe a data, se fazes favor." Quase sem me deixar acabar a frase, o Miguel virou-se para mim, fez um largo sorriso, e exclamou: "Ah... O Fernando é um histórico!..."
Fui apanhado desprevenido pelo tão espontâneo comentário do Miguel (talvez feito em resultado, não sei, do assunto que antes nos ocupara), mas logo tomei consciência do que ele me queria dizer. E o que pensei agradou-me sinceramente, pelo que foi com redobrada cordialidade que lhe agradeci o autógrafo e o comentário. O Miguel Guerreiro tem razão, sou um "histórico"! Sim, gosto - eu preciso mesmo! - de marcar os acontecimentos, as coisas, mesmo que sejam momentos de nada, todos os que acontecem nalguma parte, nalgum momento das nossas vidas. O que faz a nossa individualidade é a singularidade das coisas que nos acontecem na vida. Podemos ter muitos acontecimentos idênticos nas vidas de todos nós (estudar, casar, adoecer, ficar triste; ganhar e perder, etc.), mas a maneira como tudo decorre, a sequência que acontece, tornando causa nuns o que é consequência noutros, tudo isso é absolutamente único.
Na poeira cósmica que todos somos, há um pequeno grão dessa poeira, e só mesmo um, que conta a história de um jantar com o Miguel Guerreiro e a sua família, em que ele assinou um autógrafo e disse, a quem lho pediu, que ele era um histórico. Num tempo de poeira cósmica em que, por muito que se apele à reciclagem, o que domina ainda é o usa e deita fora; num tempo em que o jeito social é tocar e andar, e partir para outra; digo, num tempo assim, dizer como o Miguel disse, "Ah!... O Fernando é um histórico!..." é sinal de parar, olhar, e consciencializar que as coisas se sucedem numa sequência que dá sentido à vida de cada um.