domingo, 18 de setembro de 2016

À ENTRADA DO ANO ESCOLAR: EINSTEIN SAÚDA OS ESTUDANTES

Psicologia - Frase da semana, 18SET16: EINSTEIN SAÚDA OS ESTUDANTES

Albert Einstein, portrait by Doris Ulmann, 1931.
Doris Ulmann/Library of Congress, Washington, D.C.
(LC-USZC4-4940)
«Faço votos para que esse sentido de entendimento fraternal se difunda cada vez mais entre os povos. É neste sentido que eu, que sou um velho, vos saúdo, cá de longe, e espero que a vossa geração possa um dia envergonhar a minha. » (Einstein, Carta aos Estudantes Japoneses, 1930, em Como Vejo a Ciência, a Religião e o Mundo, 2005, Relógio d'Água, p. 235)

Vai a caminho dos 90 anos, a idade da mensagem em que Einstein faz estes votos, dirigidos aos estudantes japoneses. A ideia da vergonha viria ainda, talvez, da memória da Primeira Grande Guerra; e também da grave crise económica que grassava pelo mundo.
Vem-me à cabeça fazer duas perguntas:
a primeira: onde estiveram, depois, entre 1943 e 1945, os estudantes japoneses que leram ou ouviram a mensagem do grande cientista?
a segunda: quantos dos estudantes que leram ou ouviram a mensagem se lembraram dela durante a Segunda Grande Guerra?
A mensagem completa diz assim:
«Ao enviar-vos a minha saudação sinto-me com particular direito a fazê-lo, pois visitei pessoalmente o vosso bonito país, as suas cidades e casas, as suas montanhas e bosques, e vi crianças japonesas que neles cultivam o seu amor pela pátria. Na minha mesa encontra-se sempre um grande e volumoso livro cheio de desenhos coloridos, feitos por crianças japonesas.
Quando receberdes a minha saudação, enviada de tão longe, lembrai-vos de que só o nosso tempo conseguiu que os povos dos vários países se interessassem uns pelos outros à luz de um espírito de verdadeira amizade e compreensão, enquanto os povos dos tempos passados se ignoravam uns aos outros ou até se temiam e odiavam.
Faço votos para que esse sentido de entendimento fraternal se difunda cada vez mais entre os povos. É neste sentido que eu, que sou um velho, vos saúdo, cá de longe, e espero que a vossa geração possa um dia envergonhar a minha.»
Uma terceira pergunta, a acabar - sabendo que, como Einstein desejou, é preciso continuar a desejar sempre, ano após ano, geração após geração, que a geração que entra seja, como cantou Miguel Torga, sempre muito mais pura e mais nova: quantas gerações, depois da de Einstein, não têm razões para se envergonharem do que fizeram?

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Aprender a estudar

Não considero romantismo bacoco valorizar o que no poema de Ary dos Santos é valorizado e defendido; e a velha dicotomia dos Rio Grande, afinal, conserva toda a sua pertinência.
Não, não é saudosismo!... Vivemos um tempo em que seremos salvos - nós, a Humanidade inteira - das maiores tragédias humanas de sempre, a que chegámos conduzidos pelos "espíritos iluminados" dos liberalismos financeiros e económicos; e pelos defensores dos rigores absolutos das ciências matemáticas e puras; dizia eu, seremos salvos pela criatividade e pela solidariedade humanas que se promovem com o espírito de aprender, estudar, conhecer e partilhar das perspetivas, poéticas e de vida, de Ary dos Santos e dos Rio Grande.
Numa época em que se procura, através do Ministério da Educação de Portugal, entregar à Matemática de vistas curtas a condução ditatorial do ensino público das crianças e dos jovens, é preciso mostrar que há outros que pensam de outras maneiras, há outros que têm propostas válidas e sustentadas a apresentar e a propor. Pedagogicamente válidas, cientificamente sustentadas, social, económica e ambientalmente viáveis.

domingo, 4 de setembro de 2016

À PORTA DE UM NOVO ANO ESCOLAR - QUEM VOU SER EU?

Psicologia - Frase da semana, 04SET16: À PORTA DE UM NOVO ANO ESCOLAR - QUEM VOU SER EU?

«Na minha idade, a perspectiva da vida já é impressionante porque se lhe vê o fim. […] Condenando-me e aos meus à austeridade em que me criei, numa família humilde de gente de trabalho. Mas compensando-me na intensa alegria com que ergui as pedras da minha obra científica e na “feliz independência do mundo e da fortuna” que, se me causam às vezes amarguras, sustentam sempre a paz da consciência.»

Estamos à porta de mais um ano lectivo, é um novo ciclo de relações humanas e de trabalhos na instituição social que, para o bem e para o mal, se tornou dominante da organização sócio-política das sociedades, sobretudo as mais desenvolvidas – a escola; a toda-poderosa escola. Cada vez mais distantes das tradições que, pouco a pouco, os diferentes grupos humanos e culturais foram estabelecendo no seu progresso civilizacional, a escola, no meu entender, corre o risco de liderar a degradação social, cultural e civilizacional dos grupos humanos.

Sim, eu sei que as perspectivas trágicas sobre o Futuro, vêm e vão, desde os tempos das mais distantes Antiguidades. Discutir este assunto pode ser um momento interminável… O meu pensamento é solitário, mas não é por isso que está sozinho. Personalidades que, desde que as conheci, se tornaram referências permanentes para mim, chamaram já a atenção para os riscos do abandono, do desprendimento — ou mesmo, desprezo — das tradições; Konrad Lorenz, João dos Santos e, é claro, Orlando Ribeiro.

Um dos sinais mais significativos da desvalorização das tradições passa, na vida das escolas, pelo cada vez maior procurado afastamento dos pais da vida das escolas, tornadas espaços de professores e alunos; os pais, esses, ficam, na melhor das hipóteses, à porta da escola, ou só devem comparecer nas escolas quando para tal forem chamados pelos professores – e normalmente é para fazerem queixas dos filhos e pedirem que lhes dêem educação em casa.

Tudo se torna um comércio de profissionais, o relacionamento básico, humano, entre os diversos adultos responsáveis pela educação e inserção das crianças nos grupos socias está cada vez mais deslaçado. A isto não é estranho o que, seja em Portugal, em França, na Alemanha, ou nos Estados Unidos, observamos de comportamentos cheios de violência radical entre jovens.

Na hora do regresso à escola, a minha intenção ao trazer este pedaço de uma carta escrita por Orlando Ribeiro a Azeredo Perdigão, presidente da Fundação Gulbenkian, em 1961, é olhar ao que no balanço que fazemos, os professores, pode estar em causa: o respeito pelo nosso próprio magistério; o esforço de aperfeiçoamento e actualização científica; o sentido de obra comum, não solitária; o valor da família e a sobriedade dos comportamentos pessoais em razão do alto apreço que merece a profissão de professor; a independência mental e de cidadania; e, finalmente, o sentimento — tão saboroso! — de realização pessoal e de missão cumprida.

Como vai cada um de nós, nas condições actuais da Escola, da Profissão, do País e do Mundo, embarcar no ciclo de trabalho que está a começar?

Transcrevo agora, integralmente, o excerto da carta de Orlando Ribeiro a Azeredo Perdição:
«Na minha idade, a perspectiva da vida já é impressionante porque se lhe vê o fim. Há 39 anos preparava eu os meus primeiros “explicandos” para o exame de instrução primária, quando frequentava o 4.º ano do liceu (1); há 32 anos que me formei, logo a seguir fiz a minha “tarimba” no Colégio Infante de Sagres. Contando 4 anos de leitor na Sorbonne, sou docente universitário há 28 anos. Procurei. E talvez me iluda de ter conseguido, empilhar aquela traverseirinha de livros onde um homem de estudo um dia gostaria de descansar para sempre a cabeça. Mas procurei também — e isto estou certo de ter alcançado — reunir à minha volta um grupo de gente que não desmereça o intenso e honrado esforço com que tenho conduzido a minha vida científica. Condenando-me e aos meus à austeridade em que me criei, numa família humilde de gente de trabalho. Mas compensando-me na intensa alegria com que ergui as pedras da minha obra científica e na “feliz independência do mundo e da fortuna” que, se me causam às vezes amarguras, sustentam sempre a paz da consciência.» (2)
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Fonte da fotografia:  http://1.bp.blogspot.com/_nUF14Rcu7Go/TUhEplIh8QI/AAAAAAAAF54/INkcoPuxfnk/s1600/image001.jpg
(1) Corresponde ao actual 8.º ano de escolaridade.
(2) Orlando Ribeiro, "Universidade, Ciência, Cidadania - Organização e apresentação de Suzanne Daveau", 2013, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, p. 251.

sábado, 3 de setembro de 2016

A TEORIA DE JOÃO DOS SANTOS — OS GRANDES PERIGOS

A TEORIA DE JOÃO DOS SANTOS — OS GRANDES PERIGOS


1. Estou a fazer, com o entusiasmo e empenho que posso, uma formação à distância, levada a cabo pela Universidade Federal do Ceará, designada “Introdução ao Pensamento de João dos Santos: Estudo sobre a Pedagogia Terapêutica”. Em boa hora alguém no Brasil teve a boa ideia de levar a cabo esta tão desafiante formação, lançando mão, na área da educação das crianças, ao património tão valioso que é a prática e os escritos de João dos Santos.

2. Há qualquer coisa de estranho na minha participação, já que, sozinho, devo ter quase sempre o dobro e algumas vezes o triplo da idade dos meus colegas formandos.

3. Alguma coisa me dizia que, mesmo não sendo para a minha idade, eu deveria participar — e isto, repito, para além do entusiasmo e da vontade de o fazer. Alguma coisa dentro de mim mesmo, nas zonas não conscientes da minha mente, nada de sobrenatural, em que não acredito.

4. Tomei consciência hoje, de forma muito clara — como dizem os psicólogos que estudam o pensamento, tive um poderoso ‘insight’ —, das razões mais inconscientes da minha participação.

5. A busca das razões inconscientes dos meus actos foi precisamente uma sistemática atitude que modelei na aprendizagem, no contacto, no relacionamento pessoal que mantive com o meu querido mestre, desde que o conheci, numa aula no Hospital Júlio de Matos, em 1979, até poucos dias antes de ele morrer, em 1987. 8 anos, portanto. A esta distância, poderá não parecer muito tempo, mas se pensar na intensidade com que os vivi, foram, na verdade, anos muitos e saborosos, deixando em mim uma marca que influenciou definitivamente a maneira de ser e de pensar.

6. Na formação em que estou envolvido, iniciada a 22 de Agosto passado e que se prolongará até Dezembro, tenho procurado ler e reler o que os meus colegas escrevem; e já vi duas vezes, integralmente, a aula de abertura do curso de formação, para isso usando as muito úteis ferramentas da Internet, neste caso, o Youtube.

7. Leio, e releio; vejo, e revejo; penso, e repenso. Reconheço, em tudo isso, as palavras do meu mestre; os meus colegas formandos e formadores denunciam que transbordam em entusiasmo, em afectos gostosos, em muito ingénua e sincera vontade de aprender, ensinar e partilhar.

8. Acontece que, se mantenho a tal sistemática atenção a tudo o que sinto, a tudo o que se desencadeia em mim, eu reconheço uma aflição, eu tomo consciência de que qualquer coisa me escapa; e que isso faz-me sentir de alguma forma isolado.

9. Os elogios dos colegas e dos formadores sabem-me bem; as manifestações de gratidão também; os comentários, tantos feitos com tanto a-propósito mostram que a mensagem que quis passar chegou intacta a quem se dirigia. Então, qual a razão desse sub-reptício incómodo?

10. Foi precisamente no meu diálogo interior com João dos Santos buscando quase avidamente aqui e ali nos seus escritos e nos meus apontamentos que eu encontrei o esclarecimento que procurava e que reduziu a minha ansiedade, trazendo-me outra vez à vivência pessoal actual aquele momento do primeiro exame que fiz com ele e em que ele me perguntou: «O que fazermos perante a ansiedade?» e eu lhe respondi em duas palavras, prontamente: «Procuramos reduzi-la.»

11. Precisamente hoje de manhã, encontrei num alfarrabista uma obra que tem uma introdução escrita por João dos Santos (eu tenho outras duas edições desta notável obra; a que hoje encontrei é a única em dois volumes), o preço era muito tentador; comprei-a, evidentemente. Na estação de Metro da Baixa-Chiado, esperando pela composição que me traria de volta a casa, reli o prefácio — o tal texto escrito por João dos Santos — e “Paf!... Está aqui! É isto mesmo!...”

12. A quatro linhas de acabar o prefácio, João dos Santos escreve: «Não se educa com teorias, mas com os princípios e preconceitos adquiridos na experiência e no convívio familiar e comunitário.» (1)

13. Ora é isto mesmo que faz a grande diferença entre mim e a generalidade dos meus colegas formandos! Para eles, João dos Santos é um personagem teórico, que conhecem através das extraordinárias palavras que ele escreveu e nos deixou em legado; por isso conseguem sentir em relação a ele — com toda a sinceridade, com toda a bondade — o carinho e o afecto que as palavras neles despertam. Eu serei o único em que o carinho e o afecto vem directamente da relação e do diálogo e, por isso, as palavras em mim prolongam o que tive o privilégio de conhecer em pessoa, na relação directa, dos olhares, das conversas, dos gestos, dos abraços; das comidas e das bebidas; dos passeios deambulantes. No fundo, o que leio traz-me de volta a sua presença, a sua voz e os seus silêncios, os seus gestos, o seu olhar; o jeito com que compunha o bigode, e que me inspirei para chegar ao meu. Por isso o leio e releio, para o ter sempre junto a mim.

14. Sinto com a mais profunda convicção que João dos Santos nunca desejou tornar-se uma referência teórica, fosse do quer que fosse. E noutras partes desta formação disse já algumas coisas sobre o que ele pensava das teorias, e mais certamente virei ainda a dizer.

15. Agora tomo consciência inabalável que tenho tentado insuflar (que fantasia de omnipotência, deus meu!...), nos fóruns de discussão da formação, vida ao personagem notável que é a razão do curso que estamos a frequentar. A ideia é possibilitar aos meus colegas, tanto quanto me seja possível, a realidade palpável do personagem que dá nome à formação; quiçá mesmo, fazer todos sentir que João dos Santos está ali a o lado a respirar tranquilamente, a falar e a fazer os tão significativos silêncios.

16. Noutro dos seus fascinantes escritos, João dos Santos escreve «Educador é para mim aquele que é susceptível de se apresentar e de ser aceite como modelo de pessoa. Pedagogo é aquele que é capaz de estimular os seus alunos descobrir, a completar ou a desenvolver as aquisições do património cultural da sua comunidade.» (2) Algumas linhas abaixo, discutindo se Henry Wallon, o seu grande mestre, teria sido um pedagogo (um pouco como João dos Santos é ou não pedagogo para nós), escreve ele: «Permito-me relatar a propósito a história dum encontro que tive aqui em Paris nessa época, há uns 30 anos com um meu amigo, o físico Valadares e com o professor brasileiro Chagas Filho, um biólogo eminente que estuda o desenvolvimento e características do sistema nervoso de certos peixes. Falávamos de professores, de ensino e de pedagogia. Chagas afirmava: “quando um professor de matérias científicas fala muito de pedagogia, acontece que nada ensina aos seus alunos, e que não sabe ensinar!” Wallon não falava de pedagogia, ensinava matéria científica.» (3)

17. É daqui precisamente que vêm os perigos do que fizermos com o legado, ou a “teoria” de João
dos Santos: fixarmo-nos nas palavras — “cristalizarmo-nos”, como tanto gostava João dos Santos de dizer! —, esquecendo-nos que elas não valem por si mesmas, mas valem pelas circunstâncias pessoais, internas e externas, que levaram a que um ser — humano, pensante e reflexivo —, as escolhesse, até em detrimento de outras. Mesmo para João dos Santos não era fácil essa escolha. A fotografia que junto a este texto mostra quanto, por vezes, ele tinha de limar, burilar, para que as palavras servissem satisfatoriamente o seu pensamento.

18. É como se eu agora o ouvisse dizer-nos: «Sim, eu não acredito no que digo, mas admito que as minhas palavras tenham alguma importância, afinal, tantos anos que levo deste magistério, depois dos iniciais tempos de aprendiz de feiticeiro — que, em boa verdade, continuo a ser —, é mesmo possível que tenha escrito qualquer coisa de interessante e útil para as pessoas, que lhes valha a pena lerem. Perguntem ao meu filho Luís, pois, como também deixei escrito, «Um dia dei a ler ao Luís um dos meus trabalhos científicos. Quando acabou disse ele: “Oh! Pai, porque é que não escreve para as pessoas?” (4) Que achas agora, Luís, consegui fazer o que me sugeriste?»

19. Nas tais quatro últimas linhas do tal prefácio escrito por João dos Santos, ele afirma que acredita no diálogo que os leitores possam fazer com os autores. Assim: «Talvez que o diálogo que os leitores possam mentalmente estabelecer com os autores deste livro possa contribuir para a vossa compreensão de que a educação não é uma matéria que se ensina, mas uma atitude que reflecte o confronto das vivências do educando que fomos com as do educador que pretendemos ser.»

20. Muito em breve escreverei um outro texto, que este já vai longo. A esse texto darei o título seguinte: “A Teoria de João dos Santos — Vencer os Grandes Perigos”.
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(1) João dos Santos e al., "A Educação da Criança, problemas quotidianos", 2.ª ed., Lisboa, Livros Horizonte, 1974, p. XVI.
(2) João dos Santos, "Ensaios sobre Educação - II, o falar das letras", 2.ª ed., Lisboa, Livros Horizonte, p. 283.
(3) João dos Santos, "Ensaios sobre Educação - II, o falar das letras", 2.ª ed., Lisboa, Livros Horizonte, pp. 283-4.
(4) João dos Santos, "Ensaios sobre Educação - II, o falar das letras", 2.ª ed., Lisboa, Livros Horizonte, p. 19.

domingo, 28 de agosto de 2016

28AGO16: OBSERVAR, REFLECTIR, OPINAR

Psicologia - Frase da semana, 28AGO16: OBSERVAR, REFLECTIR, OPINAR

«A base da minha educação científica é a observação [...] Ao ritmo imperceptível de transformações, que a observação sugere mas só o espírito reconstitui, decorre o mais profundo da história humana, aquela que não tem datas nem personagens e flui obscuramente, através da vida popular, do princípio dos tempos até hoje. Esta é a outra raiz da minha vocação.» (Orlando Ribeiro, geógrafo)

O apontamento de hoje será, ao contrário do que é costume, e ao contrário do que é meu desejo,
marcado por preocupações muito presentes, presas de ocorrências circunstanciais.
Há uma aflição em mim: a demasiada facilidade, a raiar a irresponsabilidade, com que estudiosos e profissionais de vários campos científicos apresentam - tantas vezes de forma bem assertiva! - afirmações, teses e decisões tão mal-informadas! Quer dizer, o espírito actue com demasiada e essencialmente incorrecta ligeireza.
«O gosto da Geografia devo-o ao amor da natureza e da vida no campo, desenvolvidos em longos passeios a pé, que dava nos arredores de Viseu.»
Possuímos abundantes testemunhos de que Orlando Ribeiro dizia assim, era assim, fazia assim. Talvez nas áreas da História e da Psicologia das Tradições, dos Costumes; das Religiões e da Educação, a observação seja mais difícil. Haverá menos evidências objectivas, os sujeitos serão mais activos e menos passivamente expostos aos olhos de quem os olha; e do seu passado se guardarão menos testemunhos concretos, materiais. Pois bem, por isso mesmo nessas áreas a observação deve ser mais cuidadosa, mais humilde, menos arrogantemente assertiva!
«O geógrafo com a variedade e convergência de matérias que utiliza, tem de ser uma pessoa cientificamente bem relacionada. Por isso, procurei apoio em disciplina próximas das duas faces da geografia.»
Que avisada e sábia recomendação. E que humildade!
Os cidadãos, em geral, merecem o respeito da opinião bem informada; afinal, tudo em que os estudiosos e os especialistas tocam têm a ver directamente com a vida dos Povos, e da relaçãos dos Povos com os ambientes de vida.
Se, como dizia João dos Santos, «Educar é oferecer-se como modelo», Orlando Ribeiro foi, e é, um modelo imensamente rico de ensinamentos.
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domingo, 21 de agosto de 2016

NUNCA VISTE NENHUM GNOMO VIVO, NÃO VISTE MESMO?

Psicologia - Frase da semana, 21AGO16: NUNCA VISTE NENHUM GNOMO VIVO, NÃO VISTE MESMO?
«Ainda há gnomos, mas escasseiam muito mais do que no meu tempo de criança. Há quem diga não ter visto nunca um gnomo vivo. Lastimo sinceramente essa gente, pois deve ter a vista defeituosa ou os olhos cansados por ler em demasia.» (Axel Munthe, "O Livro de San Michele, 6.ª ed., Lisboa, Livros do Brasil, 1965?, p. 18)

Ou - talvez dissesse o médico sueco, se reescrevesse o "Novo prefácio" do seu tão famoso livro - por se entreter com televisão e jogos de computador em demasia.
Numa reedição ainda muito próxima da primeira, e depois de o livro ter já sido traduzido para outras língua, Munthe rebate a opinião de "um famoso autor inglês", que chama à História de San Michel o "Livro da Morte".
Educadamente, atentamente, Munthe começa por condescender que sim: «Talvez seja assim, pois raras vezes a morte deixa o meu pensamento".» E logo a seguir argumenta com a autoridade de um génio do Mundo, Michelangelo: "Non nasce in me pensier che non vi sia dentro scolpita la morte." (Não nasce em mim pensamento em que dentro não seja esculpida a morte). Alguns parágrafos mais à frente, finalmente, afirma decididamente a sua convicção:
«O Livro de San Michele é o livro da vida. A vida é a mesma; é com o era dantes, pois não a variaram nem o tempo nem o destino, e permanece indiferente às penas e às alegrias dos homens, misteriosa e inexplicável como a Esfinge; mas o Mundo em que vivemos, o cenário da tragédia, é constantemente transformado pela mão do grande Director de Cena, para que os espectadores não se cansem do monótono melodrama, correndo sem sentido atrás da felicidade. O Mundo onde vivíamos ontem não é o mesmo em que vivemos hoje; marcha sem descanso por seu funesto caminho, através do infinito, até à destruição, como nós mesmos Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, disse Heráclito.Há homens que andam de gatas, outros montam a cavalo ou correm em automóvel, alguns cruzam os ares à altura dos pombos-correios. Não é necessária tanta pressa, pois todos podemos estar certos de chegar a tempo à mesa da peregrinação.» (ibidem, p. 17)
Axel Munthe nasceu em 1957, viveu a passagem do século XIX para o século XX, testemunhou a tragédia da 1.ª Grande Guerra, a Grande Crise Mundial dos finais dos anos 20. Testemunhou também grandes progressos tecnológicos e científicos.
O Livro de San Michele teve a sua primeira edição em 1929, altura em germinava a 2.ª Grande Guerra. Será que Munthe a adivinhou?
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domingo, 14 de agosto de 2016

TODOS SOMOS UM DIA O APURADO E SENSÍVEL ENTENDIMENTO DO PENSAMENTO JUVENIL DE FIODOR DOSTOIEVSKY

Psicologia - Frase da semana, 14AGO16: TODOS SOMOS UM DIA O APURADO E SENSÍVEL ENTENDIMENTO DO PENSAMENTO JUVENIL DE FIODOR DOSTOIEVSKY

Mikhail, o irmão de Fiodor
«Para saber mais, é preciso sentir menos, e vice-versa... A natureza, a alma, o amor, e Deus, a gente reconhece-os através do coração, e não através da razão. Se fôssemos espíritos, poderíamos manter-nos naquela região de ideias em que as nossas almas pairam, buscando a solução. Mas nós somos seres nascidos da terra, e só podemos supor na Ideia - não a agarrando por todos os lados ao mesmo tempo. O guia para as nossas inteligências, através da ilusão temporária para o mais profundo âmago da alma, chama-se Razão. Ora bem, a Razão é a capacidade material, enquanto a alma ou o espírito vive sobre os pensamentos que são sussurradas pelo coração. O pensamento nasce na alma. A razão é uma ferramenta, uma máquina, que é conduzida pelo fogo espiritual. Quando a razão humana... penetra no domínio do conhecimento, ele funciona de forma independente do sentimento, e, consequentemente, do coração.» (1) (Fedor Mikhaïlovitch Dostoïevski, aos 16 anos de idade, numa carta para o seu irmão)

Estou cada vez mais seguro desta minha crença, mesmo que não passe disso mesmo - uma crença. Na adolescência, até a mais animal da biologia da nossa espécie nos empurra para a mais matizada e reactiva sensibilidade - e que bom é que assim seja! Esta sabedoria juvenil - não imatura! - é cada vez mais desvalorizada e desprezada pelos grandes decisores da organização escolar pública e da vida social e económica. A sensibilidade, em geral, e as apetências, em particular, dos jovens estão cada vez mais vigiadas, e escalpelizadas por especialistas do comportamento humano, cientes do potencial de influência a que os jovens estão muito facilmente aderentes, e cientes também do que desejam inculcar nas motivações e nos desejos dos jovens, de maneira a atraí-los, enquanto consumidores, a objectos de consumo altamente lucrativos para quem os produz.
Surgiu ontem na imprensa portuguesa a notícia de que o actual Governo vai criar uma comissão para criar o perfil do aluno no 12.º ano... Um produto sofisticado da hiper-exigente e hiper-complexa Economia de Mercado.
Para quando, na verdade, apostar no natural desenvolvimento psico-afectivo das crianças e dos jovens e das suas assombrosas capacidades reflexivas e criativas, sejas as alimentadas pelo que os especialistas desigam por 'pensamento convergente' e 'pensamento divergente'? Por que razões Piaget, Freud e outros tão condicionados ficaram pela fascinante dinâmica cognitiva e afectiva da adolescência?
Tão exigente é para o jovem o balanceamento entre a Razão e o Coração!... Tão importante é o prudente, discreta e sábia palavra; e o congruente exemplo do educador e do pedagogo! Que confiança, respeito e margem de liberdade tem o educador, o professor, o pedagogo, hoje em dia nas nossas sociedades?

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(1) «To know more, one must feel less, and vice versa… Nature, the soul, love, and God, one recognizes through the heart, and not through the reason. Were we spirits, we could dwell in that region of ideas over which our souls hover, seeking the solution. But we are earth-born beings, and can only guess at the Idea — not grasp it by all sides at once. The guide for our intelligences through the temporary illusion into the innermost centre of the soul is called Reason. Now, Reason is a material capacity, while the soul or spirit lives on the thoughts which are whispered by the heart. Thought is born in the soul. Reason is a tool, a machine, which is driven by the spiritual fire. When human reason … penetrates into the domain of knowledge, it works independently of the feeling, and consequently of the heart.»