A TEORIA DE JOÃO DOS SANTOS — OS GRANDES PERIGOS
1. Estou a fazer, com o entusiasmo e empenho que posso, uma formação à distância, levada a cabo pela Universidade Federal do Ceará, designada “Introdução ao Pensamento de João dos Santos: Estudo sobre a Pedagogia Terapêutica”. Em boa hora alguém no Brasil teve a boa ideia de levar a cabo esta tão desafiante formação, lançando mão, na área da educação das crianças, ao património tão valioso que é a prática e os escritos de João dos Santos.
2. Há qualquer coisa de estranho na minha participação, já que, sozinho, devo ter quase sempre o dobro e algumas vezes o triplo da idade dos meus colegas formandos.
3. Alguma coisa me dizia que, mesmo não sendo para a minha idade, eu deveria participar — e isto, repito, para além do entusiasmo e da vontade de o fazer. Alguma coisa dentro de mim mesmo, nas zonas não conscientes da minha mente, nada de sobrenatural, em que não acredito.
4. Tomei consciência hoje, de forma muito clara — como dizem os psicólogos que estudam o pensamento, tive um poderoso ‘insight’ —, das razões mais inconscientes da minha participação.
5. A busca das razões inconscientes dos meus actos foi precisamente uma sistemática atitude que modelei na aprendizagem, no contacto, no relacionamento pessoal que mantive com o meu querido mestre, desde que o conheci, numa aula no Hospital Júlio de Matos, em 1979, até poucos dias antes de ele morrer, em 1987. 8 anos, portanto. A esta distância, poderá não parecer muito tempo, mas se pensar na intensidade com que os vivi, foram, na verdade, anos muitos e saborosos, deixando em mim uma marca que influenciou definitivamente a maneira de ser e de pensar.
6. Na formação em que estou envolvido, iniciada a 22 de Agosto passado e que se prolongará até Dezembro, tenho procurado ler e reler o que os meus colegas escrevem; e já vi duas vezes, integralmente, a aula de abertura do curso de formação, para isso usando as muito úteis ferramentas da Internet, neste caso, o Youtube.
7. Leio, e releio; vejo, e revejo; penso, e repenso. Reconheço, em tudo isso, as palavras do meu mestre; os meus colegas formandos e formadores denunciam que transbordam em entusiasmo, em afectos gostosos, em muito ingénua e sincera vontade de aprender, ensinar e partilhar.
8. Acontece que, se mantenho a tal sistemática atenção a tudo o que sinto, a tudo o que se desencadeia em mim, eu reconheço uma aflição, eu tomo consciência de que qualquer coisa me escapa; e que isso faz-me sentir de alguma forma isolado.
9. Os elogios dos colegas e dos formadores sabem-me bem; as manifestações de gratidão também; os comentários, tantos feitos com tanto a-propósito mostram que a mensagem que quis passar chegou intacta a quem se dirigia. Então, qual a razão desse sub-reptício incómodo?
10. Foi precisamente no meu diálogo interior com João dos Santos buscando quase avidamente aqui e ali nos seus escritos e nos meus apontamentos que eu encontrei o esclarecimento que procurava e que reduziu a minha ansiedade, trazendo-me outra vez à vivência pessoal actual aquele momento do primeiro exame que fiz com ele e em que ele me perguntou: «O que fazermos perante a ansiedade?» e eu lhe respondi em duas palavras, prontamente: «Procuramos reduzi-la.»
11. Precisamente hoje de manhã, encontrei num alfarrabista uma obra que tem uma introdução escrita por João dos Santos (eu tenho outras duas edições desta notável obra; a que hoje encontrei é a única em dois volumes), o preço era muito tentador; comprei-a, evidentemente. Na estação de Metro da Baixa-Chiado, esperando pela composição que me traria de volta a casa, reli o prefácio — o tal texto escrito por João dos Santos — e “Paf!... Está aqui! É isto mesmo!...”
12. A quatro linhas de acabar o prefácio, João dos Santos escreve: «Não se educa com teorias, mas com os princípios e preconceitos adquiridos na experiência e no convívio familiar e comunitário.» (1)
13. Ora é isto mesmo que faz a grande diferença entre mim e a generalidade dos meus colegas formandos! Para eles, João dos Santos é um personagem teórico, que conhecem através das extraordinárias palavras que ele escreveu e nos deixou em legado; por isso conseguem sentir em relação a ele — com toda a sinceridade, com toda a bondade — o carinho e o afecto que as palavras neles despertam. Eu serei o único em que o carinho e o afecto vem directamente da relação e do diálogo e, por isso, as palavras em mim prolongam o que tive o privilégio de conhecer em pessoa, na relação directa, dos olhares, das conversas, dos gestos, dos abraços; das comidas e das bebidas; dos passeios deambulantes. No fundo, o que leio traz-me de volta a sua presença, a sua voz e os seus silêncios, os seus gestos, o seu olhar; o jeito com que compunha o bigode, e que me inspirei para chegar ao meu. Por isso o leio e releio, para o ter sempre junto a mim.
14. Sinto com a mais profunda convicção que João dos Santos nunca desejou tornar-se uma referência teórica, fosse do quer que fosse. E noutras partes desta formação disse já algumas coisas sobre o que ele pensava das teorias, e mais certamente virei ainda a dizer.
15. Agora tomo consciência inabalável que tenho tentado insuflar (que fantasia de omnipotência, deus meu!...), nos fóruns de discussão da formação, vida ao personagem notável que é a razão do curso que estamos a frequentar. A ideia é possibilitar aos meus colegas, tanto quanto me seja possível, a realidade palpável do personagem que dá nome à formação; quiçá mesmo, fazer todos sentir que João dos Santos está ali a o lado a respirar tranquilamente, a falar e a fazer os tão significativos silêncios.
16. Noutro dos seus fascinantes escritos, João dos Santos escreve «Educador é para mim aquele que é susceptível de se apresentar e de ser aceite como modelo de pessoa. Pedagogo é aquele que é capaz de estimular os seus alunos descobrir, a completar ou a desenvolver as aquisições do património cultural da sua comunidade.» (2) Algumas linhas abaixo, discutindo se Henry Wallon, o seu grande mestre, teria sido um pedagogo (um pouco como João dos Santos é ou não pedagogo para nós), escreve ele: «Permito-me relatar a propósito a história dum encontro que tive aqui em Paris nessa época, há uns 30 anos com um meu amigo, o físico Valadares e com o professor brasileiro Chagas Filho, um biólogo eminente que estuda o desenvolvimento e características do sistema nervoso de certos peixes. Falávamos de professores, de ensino e de pedagogia. Chagas afirmava: “quando um professor de matérias científicas fala muito de pedagogia, acontece que nada ensina aos seus alunos, e que não sabe ensinar!” Wallon não falava de pedagogia, ensinava matéria científica.» (3)
17. É daqui precisamente que vêm os perigos do que fizermos com o legado, ou a “teoria” de João
dos Santos: fixarmo-nos nas palavras — “cristalizarmo-nos”, como tanto gostava João dos Santos de dizer! —, esquecendo-nos que elas não valem por si mesmas, mas valem pelas circunstâncias pessoais, internas e externas, que levaram a que um ser — humano, pensante e reflexivo —, as escolhesse, até em detrimento de outras. Mesmo para João dos Santos não era fácil essa escolha. A fotografia que junto a este texto mostra quanto, por vezes, ele tinha de limar, burilar, para que as palavras servissem satisfatoriamente o seu pensamento.
18. É como se eu agora o ouvisse dizer-nos: «Sim, eu não acredito no que digo, mas admito que as minhas palavras tenham alguma importância, afinal, tantos anos que levo deste magistério, depois dos iniciais tempos de aprendiz de feiticeiro — que, em boa verdade, continuo a ser —, é mesmo possível que tenha escrito qualquer coisa de interessante e útil para as pessoas, que lhes valha a pena lerem. Perguntem ao meu filho Luís, pois, como também deixei escrito, «Um dia dei a ler ao Luís um dos meus trabalhos científicos. Quando acabou disse ele: “Oh! Pai, porque é que não escreve para as pessoas?” (4) Que achas agora, Luís, consegui fazer o que me sugeriste?»
19. Nas tais quatro últimas linhas do tal prefácio escrito por João dos Santos, ele afirma que acredita no diálogo que os leitores possam fazer com os autores. Assim: «Talvez que o diálogo que os leitores possam mentalmente estabelecer com os autores deste livro possa contribuir para a vossa compreensão de que a educação não é uma matéria que se ensina, mas uma atitude que reflecte o confronto das vivências do educando que fomos com as do educador que pretendemos ser.»
20. Muito em breve escreverei um outro texto, que este já vai longo. A esse texto darei o título seguinte: “A Teoria de João dos Santos — Vencer os Grandes Perigos”.
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(1) João dos Santos e al., "A Educação da Criança, problemas quotidianos", 2.ª ed., Lisboa, Livros Horizonte, 1974, p. XVI.
(2) João dos Santos, "Ensaios sobre Educação - II, o falar das letras", 2.ª ed., Lisboa, Livros Horizonte, p. 283.
(3) João dos Santos, "Ensaios sobre Educação - II, o falar das letras", 2.ª ed., Lisboa, Livros Horizonte, pp. 283-4.
(4) João dos Santos, "Ensaios sobre Educação - II, o falar das letras", 2.ª ed., Lisboa, Livros Horizonte, p. 19.
sábado, 3 de setembro de 2016
A TEORIA DE JOÃO DOS SANTOS — OS GRANDES PERIGOS
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domingo, 28 de agosto de 2016
28AGO16: OBSERVAR, REFLECTIR, OPINAR
Psicologia - Frase da semana, 28AGO16: OBSERVAR, REFLECTIR, OPINAR
marcado por preocupações muito presentes, presas de ocorrências circunstanciais.
Há uma aflição em mim: a demasiada facilidade, a raiar a irresponsabilidade, com que estudiosos e profissionais de vários campos científicos apresentam - tantas vezes de forma bem assertiva! - afirmações, teses e decisões tão mal-informadas! Quer dizer, o espírito actue com demasiada e essencialmente incorrecta ligeireza.
«O gosto da Geografia devo-o ao amor da natureza e da vida no campo, desenvolvidos em longos passeios a pé, que dava nos arredores de Viseu.»Possuímos abundantes testemunhos de que Orlando Ribeiro dizia assim, era assim, fazia assim. Talvez nas áreas da História e da Psicologia das Tradições, dos Costumes; das Religiões e da Educação, a observação seja mais difícil. Haverá menos evidências objectivas, os sujeitos serão mais activos e menos passivamente expostos aos olhos de quem os olha; e do seu passado se guardarão menos testemunhos concretos, materiais. Pois bem, por isso mesmo nessas áreas a observação deve ser mais cuidadosa, mais humilde, menos arrogantemente assertiva!
«O geógrafo com a variedade e convergência de matérias que utiliza, tem de ser uma pessoa cientificamente bem relacionada. Por isso, procurei apoio em disciplina próximas das duas faces da geografia.»Que avisada e sábia recomendação. E que humildade!
Os cidadãos, em geral, merecem o respeito da opinião bem informada; afinal, tudo em que os estudiosos e os especialistas tocam têm a ver directamente com a vida dos Povos, e da relaçãos dos Povos com os ambientes de vida.
Se, como dizia João dos Santos, «Educar é oferecer-se como modelo», Orlando Ribeiro foi, e é, um modelo imensamente rico de ensinamentos.
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domingo, 21 de agosto de 2016
NUNCA VISTE NENHUM GNOMO VIVO, NÃO VISTE MESMO?
Psicologia - Frase da semana, 21AGO16: NUNCA VISTE NENHUM GNOMO VIVO, NÃO VISTE MESMO?
Ou - talvez dissesse o médico sueco, se reescrevesse o "Novo prefácio" do seu tão famoso livro - por se entreter com televisão e jogos de computador em demasia.
Numa reedição ainda muito próxima da primeira, e depois de o livro ter já sido traduzido para outras língua, Munthe rebate a opinião de "um famoso autor inglês", que chama à História de San Michel o "Livro da Morte".
Educadamente, atentamente, Munthe começa por condescender que sim: «Talvez seja assim, pois raras vezes a morte deixa o meu pensamento".» E logo a seguir argumenta com a autoridade de um génio do Mundo, Michelangelo: "Non nasce in me pensier che non vi sia dentro scolpita la morte." (Não nasce em mim pensamento em que dentro não seja esculpida a morte). Alguns parágrafos mais à frente, finalmente, afirma decididamente a sua convicção:
«O Livro de San Michele é o livro da vida. A vida é a mesma; é com o era dantes, pois não a variaram nem o tempo nem o destino, e permanece indiferente às penas e às alegrias dos homens, misteriosa e inexplicável como a Esfinge; mas o Mundo em que vivemos, o cenário da tragédia, é constantemente transformado pela mão do grande Director de Cena, para que os espectadores não se cansem do monótono melodrama, correndo sem sentido atrás da felicidade. O Mundo onde vivíamos ontem não é o mesmo em que vivemos hoje; marcha sem descanso por seu funesto caminho, através do infinito, até à destruição, como nós mesmos Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, disse Heráclito.Há homens que andam de gatas, outros montam a cavalo ou correm em automóvel, alguns cruzam os ares à altura dos pombos-correios. Não é necessária tanta pressa, pois todos podemos estar certos de chegar a tempo à mesa da peregrinação.» (ibidem, p. 17)Axel Munthe nasceu em 1957, viveu a passagem do século XIX para o século XX, testemunhou a tragédia da 1.ª Grande Guerra, a Grande Crise Mundial dos finais dos anos 20. Testemunhou também grandes progressos tecnológicos e científicos.
O Livro de San Michele teve a sua primeira edição em 1929, altura em germinava a 2.ª Grande Guerra. Será que Munthe a adivinhou?
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domingo, 14 de agosto de 2016
TODOS SOMOS UM DIA O APURADO E SENSÍVEL ENTENDIMENTO DO PENSAMENTO JUVENIL DE FIODOR DOSTOIEVSKY
Psicologia - Frase da semana, 14AGO16: TODOS SOMOS UM DIA O APURADO E SENSÍVEL ENTENDIMENTO DO PENSAMENTO JUVENIL DE FIODOR DOSTOIEVSKY
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| Mikhail, o irmão de Fiodor |
Estou cada vez mais seguro desta minha crença, mesmo que não passe disso mesmo - uma crença. Na adolescência, até a mais animal da biologia da nossa espécie nos empurra para a mais matizada e reactiva sensibilidade - e que bom é que assim seja! Esta sabedoria juvenil - não imatura! - é cada vez mais desvalorizada e desprezada pelos grandes decisores da organização escolar pública e da vida social e económica. A sensibilidade, em geral, e as apetências, em particular, dos jovens estão cada vez mais vigiadas, e escalpelizadas por especialistas do comportamento humano, cientes do potencial de influência a que os jovens estão muito facilmente aderentes, e cientes também do que desejam inculcar nas motivações e nos desejos dos jovens, de maneira a atraí-los, enquanto consumidores, a objectos de consumo altamente lucrativos para quem os produz.
Surgiu ontem na imprensa portuguesa a notícia de que o actual Governo vai criar uma comissão para criar o perfil do aluno no 12.º ano... Um produto sofisticado da hiper-exigente e hiper-complexa Economia de Mercado.
Para quando, na verdade, apostar no natural desenvolvimento psico-afectivo das crianças e dos jovens e das suas assombrosas capacidades reflexivas e criativas, sejas as alimentadas pelo que os especialistas desigam por 'pensamento convergente' e 'pensamento divergente'? Por que razões Piaget, Freud e outros tão condicionados ficaram pela fascinante dinâmica cognitiva e afectiva da adolescência?
Tão exigente é para o jovem o balanceamento entre a Razão e o Coração!... Tão importante é o prudente, discreta e sábia palavra; e o congruente exemplo do educador e do pedagogo! Que confiança, respeito e margem de liberdade tem o educador, o professor, o pedagogo, hoje em dia nas nossas sociedades?
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(1) «To know more, one must feel less, and vice versa… Nature, the soul, love, and God, one recognizes through the heart, and not through the reason. Were we spirits, we could dwell in that region of ideas over which our souls hover, seeking the solution. But we are earth-born beings, and can only guess at the Idea — not grasp it by all sides at once. The guide for our intelligences through the temporary illusion into the innermost centre of the soul is called Reason. Now, Reason is a material capacity, while the soul or spirit lives on the thoughts which are whispered by the heart. Thought is born in the soul. Reason is a tool, a machine, which is driven by the spiritual fire. When human reason … penetrates into the domain of knowledge, it works independently of the feeling, and consequently of the heart.»
domingo, 31 de julho de 2016
Psicologia - Frase da semana, 31JUL16: TANTO VIAJAR! PROCURA DOS OUTROS OU FUGA DE NÓS MESMOS?
me ter boas esperanças a teu respeito: não viajas continuamente nem te deixas agitar por constantes deslocações. Um semelhante deambular é indício duma alma doente: eu, de facto, entendo que o primeiro sinal de um espírito bem formado consiste em ser capaz de parar e de coabitar consigo mesmo.» (SÉNECA, Lúcio Aneu - Cartas a Lucílio. 3.ª ed. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 2007. LIV, 713, [2] p. )
Trazer à partilha uma opinião assim, à entrada (à saída, para outras pessoas) do tradicional mês de férias pode soar a mesquinha censura; mas olhem que não!, olhem que não!... Sendo assim, porque um longo período de férias é um bem adquirido direito dos cidadãos das sociedades essencialmente organizadas à volta da ideia da Economia de Mercado, não acrescentarei mais nada a esta semanal proposta de reflexão, senão o seguinte:
nas viagens que façamos, tomemos atenção aos sinais de Stop - os reais e os que possamos imaginar, sinais que desde há muitos anos, nas passagens de nível dos comboios ou em ambientes, os mais improváveis, nos avisam com mensagens (também reias ou metafóricas) do género: "Pára, escuta e olha.", e "Mesmo no deserto, Stop é para parar."
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TANTO VIAJAR! PROCURA DOS OUTROS OU FUGA DE NÓS MESMOS?
Psicologia - Frase da semana, 31JUL16: TANTO VIAJAR! PROCURA DOS OUTROS OU FUGA DE NÓS MESMOS?
me ter boas esperanças a teu respeito: não viajas continuamente nem te deixas agitar por constantes deslocações. Um semelhante deambular é indício duma alma doente: eu, de facto, entendo que o primeiro sinal de um espírito bem formado consiste em ser capaz de parar e de coabitar consigo mesmo.» (SÉNECA, Lúcio Aneu - Cartas a Lucílio. 3.ª ed. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 2007. LIV, 713, [2] p. )
Trazer à partilha uma opinião assim, à entrada (à saída, para outras pessoas) do tradicional mês de férias pode soar a mesquinha censura; mas olhem que não!, olhem que não!... Sendo assim, porque um longo período de férias é um bem adquirido direito dos cidadãos das sociedades essencialmente organizadas à volta da ideia da Economia de Mercado, não acrescentarei mais nada a esta semanal proposta de reflexão, senão o seguinte:
nas viagens que façamos, tomemos atenção aos sinais de Stop - os reais e os que possamos imaginar, sinais que desde há muitos anos, nas passagens de nível dos comboios ou em ambientes, os mais improváveis, nos avisam com mensagens (também reias ou metafóricas) do género: "Pára, escuta e olha.", e "Mesmo no deserto, Stop é para parar."
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domingo, 10 de julho de 2016
AMAR É COMO TIRAR A CARTA DE CONDUÇÃO
Psicologia - Frase da semana, 10JUL16: AMAR É COMO TIRAR A CARTA DE CONDUÇÃO
(Se os macacos nos ensinam alguma coisa, é que temos de aprender a amar antes de aprendermos a viver)
«A vida é como andar de bicicleta - explicou um dia Einstein ao filho -, para manteres o equilíbrio tens de continuar a pedalar.» Eu direi: «Amar é como aprender a conduzir, se depois de tirares a carta de condução, não continuares a praticar, vais acabar por esquecer.» Mais, acabamos por ter medo da simples ideia de voltar a pegar num carro!
Dramaticamente, a história pessoal de Harry Harlow será exemplo agudo da desaprendizagem do amor - pelos outros e por si mesmo; absurdamente, depois dos conhecimentos tão preciosos que a sua vida de investigador nos trouxe a todos! Que terá corrido mal?... A falta de equilíbrio? O excesso de velocidade num condutor esquecido dos gestos básicos?...
«The nature of love is about paying attention to the people who matter, about still giving when you are too tired to give. Be a mother who listens, a father who cuddles, a friend who calls back, a helping neighbor, a loving child.» (1)
(A natureza do amor tem a ver com dar atenção às pessoas que verdadeiramente importam; tem a ver com continuar a dar mesmo quando estamos demasiadamente cansados de dar. Ser a mãe que escuta os filhos, ser o pai que pega nos filhos ao colo e lhes dá mimos, ser o amigo que volta a ligar, ser o vizinho colaborador, ser uma criança carinhosa)Harlow, ainda a propósito do amor, e de tudo o que dizemos sobre o tema, deixa-nos um aviso, numa carta esctrita a um amigo: «Perhaps one should always be modest when talking about love.» (Talvez tenhamos de ser sempre modestos quando falamos de amor)
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(1) "The nature of love is about paying attention to the people who matter, about still giving when you are too tired to give. Be a mother who listens, a father who cuddles, a friend who calls back, a helping neighbor, a loving child. That emphasis on love in our everyday lives may be the best of that quiet revolution in psychology, the one that changed the way we think about love and relationship almost without our noticing that had happened. We take for granted now that parents should hug their children, that relationships are worth the time, that taking care of each other is part of the good life. It is such a good foundation that it’s almost astonishing to consider how recent it is. For that foundation under our feet we owe a debt to Harry Harlow and to all the scientists who believed and worked toward a psychology of the heart. At the end, in Harry’s handiwork, there’s nothing sentimental about love, no sunlit clouds and glory notes—it’s a substantial, earthbound connection, grounded in effort, kindness, and decency. Learning to love, Harry liked to say, is really about learning to live. Perhaps everyday affection seems a small facet of love. Perhaps, though, it is the modest, steady responses that see us through day after day, that stretch into a life of close and loving relationships. Or, as Harry Harlow wrote to a friend, “Perhaps one should always be modest when talking about love.”" Deborah Blum, 2002, 2011. Love at Goon Park: Harry Harlow and the Science of Affection, Perseus Publishing,
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