domingo, 21 de agosto de 2016

NUNCA VISTE NENHUM GNOMO VIVO, NÃO VISTE MESMO?

Psicologia - Frase da semana, 21AGO16: NUNCA VISTE NENHUM GNOMO VIVO, NÃO VISTE MESMO?
«Ainda há gnomos, mas escasseiam muito mais do que no meu tempo de criança. Há quem diga não ter visto nunca um gnomo vivo. Lastimo sinceramente essa gente, pois deve ter a vista defeituosa ou os olhos cansados por ler em demasia.» (Axel Munthe, "O Livro de San Michele, 6.ª ed., Lisboa, Livros do Brasil, 1965?, p. 18)

Ou - talvez dissesse o médico sueco, se reescrevesse o "Novo prefácio" do seu tão famoso livro - por se entreter com televisão e jogos de computador em demasia.
Numa reedição ainda muito próxima da primeira, e depois de o livro ter já sido traduzido para outras língua, Munthe rebate a opinião de "um famoso autor inglês", que chama à História de San Michel o "Livro da Morte".
Educadamente, atentamente, Munthe começa por condescender que sim: «Talvez seja assim, pois raras vezes a morte deixa o meu pensamento".» E logo a seguir argumenta com a autoridade de um génio do Mundo, Michelangelo: "Non nasce in me pensier che non vi sia dentro scolpita la morte." (Não nasce em mim pensamento em que dentro não seja esculpida a morte). Alguns parágrafos mais à frente, finalmente, afirma decididamente a sua convicção:
«O Livro de San Michele é o livro da vida. A vida é a mesma; é com o era dantes, pois não a variaram nem o tempo nem o destino, e permanece indiferente às penas e às alegrias dos homens, misteriosa e inexplicável como a Esfinge; mas o Mundo em que vivemos, o cenário da tragédia, é constantemente transformado pela mão do grande Director de Cena, para que os espectadores não se cansem do monótono melodrama, correndo sem sentido atrás da felicidade. O Mundo onde vivíamos ontem não é o mesmo em que vivemos hoje; marcha sem descanso por seu funesto caminho, através do infinito, até à destruição, como nós mesmos Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, disse Heráclito.Há homens que andam de gatas, outros montam a cavalo ou correm em automóvel, alguns cruzam os ares à altura dos pombos-correios. Não é necessária tanta pressa, pois todos podemos estar certos de chegar a tempo à mesa da peregrinação.» (ibidem, p. 17)
Axel Munthe nasceu em 1957, viveu a passagem do século XIX para o século XX, testemunhou a tragédia da 1.ª Grande Guerra, a Grande Crise Mundial dos finais dos anos 20. Testemunhou também grandes progressos tecnológicos e científicos.
O Livro de San Michele teve a sua primeira edição em 1929, altura em germinava a 2.ª Grande Guerra. Será que Munthe a adivinhou?
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domingo, 14 de agosto de 2016

TODOS SOMOS UM DIA O APURADO E SENSÍVEL ENTENDIMENTO DO PENSAMENTO JUVENIL DE FIODOR DOSTOIEVSKY

Psicologia - Frase da semana, 14AGO16: TODOS SOMOS UM DIA O APURADO E SENSÍVEL ENTENDIMENTO DO PENSAMENTO JUVENIL DE FIODOR DOSTOIEVSKY

Mikhail, o irmão de Fiodor
«Para saber mais, é preciso sentir menos, e vice-versa... A natureza, a alma, o amor, e Deus, a gente reconhece-os através do coração, e não através da razão. Se fôssemos espíritos, poderíamos manter-nos naquela região de ideias em que as nossas almas pairam, buscando a solução. Mas nós somos seres nascidos da terra, e só podemos supor na Ideia - não a agarrando por todos os lados ao mesmo tempo. O guia para as nossas inteligências, através da ilusão temporária para o mais profundo âmago da alma, chama-se Razão. Ora bem, a Razão é a capacidade material, enquanto a alma ou o espírito vive sobre os pensamentos que são sussurradas pelo coração. O pensamento nasce na alma. A razão é uma ferramenta, uma máquina, que é conduzida pelo fogo espiritual. Quando a razão humana... penetra no domínio do conhecimento, ele funciona de forma independente do sentimento, e, consequentemente, do coração.» (1) (Fedor Mikhaïlovitch Dostoïevski, aos 16 anos de idade, numa carta para o seu irmão)

Estou cada vez mais seguro desta minha crença, mesmo que não passe disso mesmo - uma crença. Na adolescência, até a mais animal da biologia da nossa espécie nos empurra para a mais matizada e reactiva sensibilidade - e que bom é que assim seja! Esta sabedoria juvenil - não imatura! - é cada vez mais desvalorizada e desprezada pelos grandes decisores da organização escolar pública e da vida social e económica. A sensibilidade, em geral, e as apetências, em particular, dos jovens estão cada vez mais vigiadas, e escalpelizadas por especialistas do comportamento humano, cientes do potencial de influência a que os jovens estão muito facilmente aderentes, e cientes também do que desejam inculcar nas motivações e nos desejos dos jovens, de maneira a atraí-los, enquanto consumidores, a objectos de consumo altamente lucrativos para quem os produz.
Surgiu ontem na imprensa portuguesa a notícia de que o actual Governo vai criar uma comissão para criar o perfil do aluno no 12.º ano... Um produto sofisticado da hiper-exigente e hiper-complexa Economia de Mercado.
Para quando, na verdade, apostar no natural desenvolvimento psico-afectivo das crianças e dos jovens e das suas assombrosas capacidades reflexivas e criativas, sejas as alimentadas pelo que os especialistas desigam por 'pensamento convergente' e 'pensamento divergente'? Por que razões Piaget, Freud e outros tão condicionados ficaram pela fascinante dinâmica cognitiva e afectiva da adolescência?
Tão exigente é para o jovem o balanceamento entre a Razão e o Coração!... Tão importante é o prudente, discreta e sábia palavra; e o congruente exemplo do educador e do pedagogo! Que confiança, respeito e margem de liberdade tem o educador, o professor, o pedagogo, hoje em dia nas nossas sociedades?

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(1) «To know more, one must feel less, and vice versa… Nature, the soul, love, and God, one recognizes through the heart, and not through the reason. Were we spirits, we could dwell in that region of ideas over which our souls hover, seeking the solution. But we are earth-born beings, and can only guess at the Idea — not grasp it by all sides at once. The guide for our intelligences through the temporary illusion into the innermost centre of the soul is called Reason. Now, Reason is a material capacity, while the soul or spirit lives on the thoughts which are whispered by the heart. Thought is born in the soul. Reason is a tool, a machine, which is driven by the spiritual fire. When human reason … penetrates into the domain of knowledge, it works independently of the feeling, and consequently of the heart.»

domingo, 31 de julho de 2016

Psicologia - Frase da semana, 31JUL16: TANTO VIAJAR! PROCURA DOS OUTROS OU FUGA DE NÓS MESMOS?

«Tanto aquilo que me escreves como o que oiço dizer de ti fazem-
me ter boas esperanças a teu respeito: não viajas continuamente nem te deixas agitar por constantes deslocações. Um semelhante deambular é indício duma alma doente: eu, de facto, entendo que o primeiro sinal de um espírito bem formado consiste em ser capaz de parar e de coabitar consigo mesmo.» (SÉNECA, Lúcio Aneu - Cartas a Lucílio. 3.ª ed. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 2007. LIV, 713, [2] p. )

Trazer à partilha uma opinião assim, à entrada (à saída, para outras pessoas) do tradicional mês de férias pode soar a mesquinha censura; mas olhem que não!, olhem que não!... Sendo assim, porque um longo período de férias é um bem adquirido direito dos cidadãos das sociedades essencialmente organizadas à volta da ideia da Economia de Mercado, não acrescentarei mais nada a esta semanal proposta de reflexão, senão o seguinte:
nas viagens que façamos, tomemos atenção aos sinais de Stop - os reais e os que possamos imaginar, sinais que desde há muitos anos, nas passagens de nível dos comboios ou em ambientes, os mais improváveis, nos avisam com mensagens (também reias ou metafóricas) do género: "Pára, escuta e olha.", e "Mesmo no deserto, Stop é para parar."

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TANTO VIAJAR! PROCURA DOS OUTROS OU FUGA DE NÓS MESMOS?

Psicologia - Frase da semana, 31JUL16: TANTO VIAJAR! PROCURA DOS OUTROS OU FUGA DE NÓS MESMOS?

«Tanto aquilo que me escreves como o que oiço dizer de ti fazem-
me ter boas esperanças a teu respeito: não viajas continuamente nem te deixas agitar por constantes deslocações. Um semelhante deambular é indício duma alma doente: eu, de facto, entendo que o primeiro sinal de um espírito bem formado consiste em ser capaz de parar e de coabitar consigo mesmo.» (SÉNECA, Lúcio Aneu - Cartas a Lucílio. 3.ª ed. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 2007. LIV, 713, [2] p. )

Trazer à partilha uma opinião assim, à entrada (à saída, para outras pessoas) do tradicional mês de férias pode soar a mesquinha censura; mas olhem que não!, olhem que não!... Sendo assim, porque um longo período de férias é um bem adquirido direito dos cidadãos das sociedades essencialmente organizadas à volta da ideia da Economia de Mercado, não acrescentarei mais nada a esta semanal proposta de reflexão, senão o seguinte:
nas viagens que façamos, tomemos atenção aos sinais de Stop - os reais e os que possamos imaginar, sinais que desde há muitos anos, nas passagens de nível dos comboios ou em ambientes, os mais improváveis, nos avisam com mensagens (também reias ou metafóricas) do género: "Pára, escuta e olha.", e "Mesmo no deserto, Stop é para parar."

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domingo, 10 de julho de 2016

AMAR É COMO TIRAR A CARTA DE CONDUÇÃO

Psicologia - Frase da semana, 10JUL16: AMAR É COMO TIRAR A CARTA DE CONDUÇÃO


«If monkeys have taught us anything, it’s that you’ve got to learn how to love before you learn how to live.» (Harry Harlow, This Week, March 3, 1961)
(Se os macacos nos ensinam alguma coisa, é que temos de aprender a amar antes de aprendermos a viver)

«A vida é como andar de bicicleta - explicou um dia Einstein ao filho -, para manteres o equilíbrio tens de continuar a pedalar.» Eu direi: «Amar é como aprender a conduzir, se depois de tirares a carta de condução, não continuares a praticar, vais acabar por esquecer.» Mais, acabamos por ter medo da simples ideia de voltar a pegar num carro!
Dramaticamente, a história pessoal de Harry Harlow será exemplo agudo da desaprendizagem do amor - pelos outros e por si mesmo; absurdamente, depois dos conhecimentos tão preciosos que a sua vida de investigador nos trouxe a todos! Que terá corrido mal?... A falta de equilíbrio? O excesso de velocidade num condutor esquecido dos gestos básicos?...
«The nature of love is about paying attention to the people who matter, about still giving when you are too tired to give. Be a mother who listens, a father who cuddles, a friend who calls back, a helping neighbor, a loving child.» (1)
(A natureza do amor tem a ver com dar atenção às pessoas que verdadeiramente importam; tem a ver com continuar a dar mesmo quando estamos demasiadamente cansados de dar. Ser a mãe que escuta os filhos, ser o pai que pega nos filhos ao colo e lhes dá mimos, ser o amigo que volta a ligar, ser o vizinho colaborador, ser uma criança carinhosa)
 Harlow, ainda a propósito do amor, e de tudo o que dizemos sobre o tema, deixa-nos um aviso, numa carta esctrita a um amigo: «Perhaps one should always be modest when talking about love.» (Talvez tenhamos de ser sempre modestos quando falamos de amor)
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(1)  "The nature of love is about paying attention to the people who matter, about still giving when you are too tired to give. Be a mother who listens, a father who cuddles, a friend who calls back, a helping neighbor, a loving child. That emphasis on love in our everyday lives may be the best of that quiet revolution in psychology, the one that changed the way we think about love and relationship almost without our noticing that had happened. We take for granted now that parents should hug their children, that relationships are worth the time, that taking care of each other is part of the good life. It is such a good foundation that it’s almost astonishing to consider how recent it is. For that foundation under our feet we owe a debt to Harry Harlow and to all the scientists who believed and worked toward a psychology of the heart. At the end, in Harry’s handiwork, there’s nothing sentimental about love, no sunlit clouds and glory notes—it’s a substantial, earthbound connection, grounded in effort, kindness, and decency. Learning to love, Harry liked to say, is really about learning to live. Perhaps everyday affection seems a small facet of love. Perhaps, though, it is the modest, steady responses that see us through day after day, that stretch into a life of close and loving relationships. Or, as Harry Harlow wrote to a friend, “Perhaps one should always be modest when talking about love.”" Deborah Blum, 2002, 2011. Love at Goon Park: Harry Harlow and the Science of Affection, Perseus Publishing,

domingo, 26 de junho de 2016

ESTAMOS A MATAR OS SONHOS DOS NOSSOS FILHOS

Psicologia - Frase da semana, 26JUn16: ESTAMOS A MATAR OS SONHOS DOS NOSSOS FILHOS

«Estou enojado com a educação escolar de hoje, que é uma
fábrica de incultos sem respeito pela memória. [...] Quando era criança, existia a possibilidade de cometer grandes erros. Quem não tiver a liberdade de errar na juventude, nunca se tornará um ser humano completo.» (George Steiner, Visão, n.º 1218, edição 7 a 13/o7/2916, pp.10-12)

Noutro apontamento falarei sobre o que George Steiner diz nesta entrevista sobre a memória.
Por agora quero centrar-me no eco do seu pensamento sobre a educação e o futuro das gerações mais jovens, as que sucessivamente as gerações mais velhas vão educando.
  1. Olhando a educação oficial que grassa pelo Mundo, estou inteiramente de acordo com Steiner: no nosso País, aponto claramente o dedo a decisores oficiais, tais como: Maria de Lurdes Rodrigues, Isabel Alçada, Nuno Crato, mais outras eminências pardas da Educação e do Ensino oficial, e as suas equipas de "sábios" e "especialistas".
  2. É verdade, esquecemo-nos que, afinal... errar é humano!
  3. Há erros das crianças e dos jovens que, oficialmente, se foram tornando intoleráveis nas escolas e que complexos regulamentos e procedimentos administrativos e burocráticos disfarçam por baixo do manto diáfano da "democracia tolerante" e das perversas "sucessivas oportunidades" dadas aos alunos faltosos e suas famílias
  4. A figura dos gabinetes de disciplina em tantas escolas acumula tantas e tantas histórias absurdas e surreais!...
  5. Entretanto, à custa de tantas horas subtraídas aos direitos da família e do descanso pessoal, muitos professores e directores de turma resistem e insistem em autênticas acrobacias pedagógicas para manter o grande sentido de humanidade na relação pessoal com os seus alunos, naquela dimensão que verdadeiramente alimenta os afectos positivos e promove os valores do respeito pelo outro, do companheirismo e da solidariedade.
«Muitos dizem que as utopias são idiotices. Mas, em qualquer caso, serão idiotices vitais. Um professor que não deixa os seus alunos pensar em utopias e errar é um péssimo professor.» (p. 11)
George Steiner não é um oráculo a quem tudo se pergunte e a tudo responda com saber consolidado.
Terá 12000 livros na sua biblioteca, o que me faz pensar que, ou faltam-lhe, mesmo assim, alguns (bons) livros sobre Psicanálise, ou tem-nos lá mas nunca os leu - é que o que ele diz na entrevista sobre a Psicanálise é de um muito lamentável, irritado e estereotipado preconceito. Enfim, é o seu direito a errar; e, como diz o Povo, aprender até morrer.
[texto publicado em 07Jul2016]

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

AO ENCONTRO DO MEU NOME, EM DIA DE ANIVERSÁRIO

AO ENCONTRO DO MEU NOME
(carta escrita para os meus sobrinhos)

               
Sim, é ele; quer dizer, sou eu, o Fernando Jorge.
Se até as fotografias mentem; se até o mais rigoroso dos vídeos mente, o que dizer das memórias? As memórias são todas – mas todas mesmo! – reconstruídas. É essa a condição inerente ao que a seguir vou escrever. Naturalmente.
                Quando a tia Fatinha nasceu, eu tinha 6 anos. Rapidamente percebi por que razão ela se chamava Maria de Fátima – antes, nunca eu (cá está, que me lembre…) me tinha interrogado sobre as razões de alguém ter este ou aquele nome. No caso da menina que nasceu no dia 8 de Dezembro de 1962 (1) nunca precisei de perguntar, as conversas à minha volta, na família, ou fora dela, eram frequentes sobre a razão da escolha do nome da minha recente maninha.
                O tio Zé Manel, esse, também foi fácil perceber por que razões se chamava José e Manuel; também no caso do meu irmão não foi nunca necessário perguntar fosse o que fosse sobre a escolha dos dois nomes.
                Aqui ou ali, no passar dos anos, fui olhando os nomes dos homens da família à procura da razão de ser do meu nome, mas nunca encontrava nada; mas também nunca me preocupei muito em saber, por isso, durante muitos anos, não perguntei nada a ninguém…
                Já crescido – penso mesmo que já psicólogo – dediquei, então, atenção à etimologia do meu nome; e o que encontrei deixou-me muito satisfeito, senti que tinha mesmo a ver comigo! Mas não foi ainda nessa altura que perguntei aos avós por que razão tinham escolhido o Fernando e o Jorge; mais!, quem é que tinha escolhido os dois nomes.
                Treinado que estou a processos de auto-análise, quando procurei perceber por que motivo nunca eu tinha perguntado aos avós fosse o que fosse sobre a origem do meu nome, não demorei a encontrar a razão: no fundo, eu tinha medo de ser associado a alguém fora da família, que eu não conhecesse, e que me deixasse decepcionado.
                Ainda antes de falar do assunto com os avós, um dia, quando almoçava com eles num dos restaurantes da Palmira Bastos (curiosamente, um a que raramente íamos – talvez os habituais estivessem fechados…), o avô Pinto e a avó Lourdes confessaram-me que tentaram que eu não nascesse (eu já contei esta história noutro lado). O tio Zé Manel era bebé pequenino, os avós queriam ter mais filhos, mas não logo a seguir, tão pertinho do bebé que tinham acabado de ter. Assim, tentaram, por processos muito artesanais, que eu “caísse” do ninho da avó Lourdes. Só que eu grudei e agarrei-me com unhas e dentes às paredes do ninho! Resisti a todos os abanões e sacudidelas!
                Lembro-me de ver o avô Pinto dizer, nesse almoço, muito sorridente, qualquer coisa do tipo: “A gente tentou tudo, mas tu não largavas a tua mãe, tu não saías de onde estavas… Então dissemos um para o outro «ele agarra-se assim à vida, ele quer tanto viver, olha, temos de o deixar vir, vamos ver…»”. É claro que comecei por me arrepiar quando os avós me contaram isto, mas logo a seguir um sentimento de profunda gratidão se sobrepôs a esse tão espontâneo arrepio. Eu bem percebi os avós: longe de quaisquer outros familiares, eles bem queriam fruir todos os bocadinhos do primeiro filho… Ainda mal o saboreavam, já tinham de se dividir com um outro; repito, que desejavam, mas não tão cedo. Quer dizer, mesmo antes de nascer fui logo um teimoso, um chato importunador! Eh! Eh!
                Ora, foi só depois de conhecer este “pitoresco” acerca do meu nascimento que, quando me pareceu oportuno, perguntei aos avós por que me tinham posto o nome que tenho, e quem o tinha escolhido. A resposta dos avós (eu tive o cuidado de que estivessem ambos a falar comigo) foi simples: “Olha, por nada, não houve razão especial nenhuma… Fomos nós que escolhemos, esse era um nome de que nós os dois gostávamos, foi só por isso, gostávamos desse nome…” Ainda perguntei aos avós se sabiam alguma coisa, ou se alguém lhes tinha dito alguma coisa sobre a etimologia do meu nome – nada, absolutamente nada, tinha sido só porque gostavam desse nome.
                Acho que os avós não tiveram nunca noção da satisfação que me deram!... Sobre mim não pesava o peso do testemunho geracional, passado de pai para filho; não pesava o simbolismo da profunda crença e devoção dos progenitores. Era como se, após as circunstâncias bem especiais do meu nascimento, eles me dissessem: “É assim: já que quiseste vir e a gente não tinha nada antecipado para ti, olha, sê. Sê o que quiseres ser. Pega neste nome, faz dele o que quiseres. Não te esqueças que é um nome de que a gente gosta, é tudo o que, muito honestamente, muito sentidamente, te podemos dizer e te podemos dar.”
                Quem me conhece sabe como prezo a liberdade de ser quem quero ser. Não tomei a simbologia etimológica do meu nome como objectivos a atingir, como lemas de vida a defender, mas que sinto que encaixa bem com o que tenho tentado ser e fazer ao longo da vida – ai, sim senhor! -, penso que o Fernando e o Jorge com que fui baptizado foram feitos à minha justa medida!
                Os meus pais fizeram-me Fernando Jorge para eu ser o que quisesse ser; apostaram “às cegas” em mim e deram-me a liberdade para ser o que e quem eu quisesse; é como se eles tivesse percebido que, naquele confronto muito perigoso, muito delicado a que, logo que deram conta de que eu tinha aparecido a importunar, me sujeitaram, eu seria capaz de me desenrascar por mim mesmo, tal as ganas que mostrei logo para viver.
                É, meus queridos sobrinhos, é com estas coisas no pensamento que vou, no meu dia de anos, conversar com os avós – agora que estarão outra vez bem juntinhos, e juntinhos irão cantar-me os parabéns. Certamente também, vamos falar e rirmo-nos das peripécias do meu nascimento. Acredito fortemente que nem um, nem outro, estão arrependidos da opção que fizeram, há quase 60 anos atrás. Ah!... E quanto eu lhes agradeço isso!...
                Só falta mesmo, então a etimologia do meu nome, não é verdade? Aqui vai:
                Fernando: Significa "ousado para atingir a paz", ou "o que ousa viajar", "viajante corajoso". O nome Fernando tem origem no germânico Ferdinand ou Fredenando, formado pela união das palavras fridu, que significa "paz", e nanthjan, que quer dizer "ousar", e significa “ousado para atingir a paz”.
                Jorge: Significa "o que trabalha a terra", ou "agricultor". Jorge tem origem no nome grego Geórgios, que deriva da palavra georgós, formada pela união dos termos ge, que significa "terra" e érghon, que quer dizer "trabalho" e significa “aquele que trabalha na terra", "agricultor”.
                De que gosto especialmente no meu nome? Ou, o que penso que o nome tem a ver comigo e eu com ele?
É a ideia de ousadia, de viajar, de procurar a paz; de a cultivar. Comigo, com o nome que quem decidiu que eu vivesse me pôs, nunca o ambiente de paz podre terá qualquer hipótese de se instalar. Por isso me sinto especialmente satisfeito por só tardiamente ter investigado a raiz etimológica do meu nome – é que eu já acumulara experiências de vida bastantes para constatar que toda a vida tenho viajado ao encontro do meu nome: eu procuro, eu ouso, eu revolvo os chãos que piso, os caminhos por onde viajo – os espaços físicos, as relações humanas, os conhecimentos acumulados, as crenças e os preconceitos estabelecidos. Sim, estou em crer que sim, num processo constante para atingir a paz a paz que me faz bem e faz bem aos outros, nunca me acomodando, nunca alimentando que os outros se acomodem em ambições de bem-estar menos saudáveis, menos honestas e menos solidárias. Em mim – reconheço-o, admito-o - haverá sempre um importunador! Ao serviço da paz, lutando por ela.

                É, queridos sobrinhos, gosto muito de ser o Fernando Jorge.

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(1) - A data de 8 de Dezembro está ligada à celebração da Imaculada Conceição, mas o nascimento da minha irmã nesta data é, do ponto de vista da devoção da nossa mãe à Nossa Senhora de Fátima, puramente acidental. À data de 1962, sem as ecografias, só na altura do nascimento havia a certeza do sexo da criança: assim que a nossa mãe soube que estava grávida imediatamente prometeu o bebé a Nossa Senhora de Fátima.