domingo, 31 de julho de 2016

Psicologia - Frase da semana, 31JUL16: TANTO VIAJAR! PROCURA DOS OUTROS OU FUGA DE NÓS MESMOS?

«Tanto aquilo que me escreves como o que oiço dizer de ti fazem-
me ter boas esperanças a teu respeito: não viajas continuamente nem te deixas agitar por constantes deslocações. Um semelhante deambular é indício duma alma doente: eu, de facto, entendo que o primeiro sinal de um espírito bem formado consiste em ser capaz de parar e de coabitar consigo mesmo.» (SÉNECA, Lúcio Aneu - Cartas a Lucílio. 3.ª ed. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 2007. LIV, 713, [2] p. )

Trazer à partilha uma opinião assim, à entrada (à saída, para outras pessoas) do tradicional mês de férias pode soar a mesquinha censura; mas olhem que não!, olhem que não!... Sendo assim, porque um longo período de férias é um bem adquirido direito dos cidadãos das sociedades essencialmente organizadas à volta da ideia da Economia de Mercado, não acrescentarei mais nada a esta semanal proposta de reflexão, senão o seguinte:
nas viagens que façamos, tomemos atenção aos sinais de Stop - os reais e os que possamos imaginar, sinais que desde há muitos anos, nas passagens de nível dos comboios ou em ambientes, os mais improváveis, nos avisam com mensagens (também reias ou metafóricas) do género: "Pára, escuta e olha.", e "Mesmo no deserto, Stop é para parar."

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TANTO VIAJAR! PROCURA DOS OUTROS OU FUGA DE NÓS MESMOS?

Psicologia - Frase da semana, 31JUL16: TANTO VIAJAR! PROCURA DOS OUTROS OU FUGA DE NÓS MESMOS?

«Tanto aquilo que me escreves como o que oiço dizer de ti fazem-
me ter boas esperanças a teu respeito: não viajas continuamente nem te deixas agitar por constantes deslocações. Um semelhante deambular é indício duma alma doente: eu, de facto, entendo que o primeiro sinal de um espírito bem formado consiste em ser capaz de parar e de coabitar consigo mesmo.» (SÉNECA, Lúcio Aneu - Cartas a Lucílio. 3.ª ed. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 2007. LIV, 713, [2] p. )

Trazer à partilha uma opinião assim, à entrada (à saída, para outras pessoas) do tradicional mês de férias pode soar a mesquinha censura; mas olhem que não!, olhem que não!... Sendo assim, porque um longo período de férias é um bem adquirido direito dos cidadãos das sociedades essencialmente organizadas à volta da ideia da Economia de Mercado, não acrescentarei mais nada a esta semanal proposta de reflexão, senão o seguinte:
nas viagens que façamos, tomemos atenção aos sinais de Stop - os reais e os que possamos imaginar, sinais que desde há muitos anos, nas passagens de nível dos comboios ou em ambientes, os mais improváveis, nos avisam com mensagens (também reias ou metafóricas) do género: "Pára, escuta e olha.", e "Mesmo no deserto, Stop é para parar."

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domingo, 10 de julho de 2016

AMAR É COMO TIRAR A CARTA DE CONDUÇÃO

Psicologia - Frase da semana, 10JUL16: AMAR É COMO TIRAR A CARTA DE CONDUÇÃO


«If monkeys have taught us anything, it’s that you’ve got to learn how to love before you learn how to live.» (Harry Harlow, This Week, March 3, 1961)
(Se os macacos nos ensinam alguma coisa, é que temos de aprender a amar antes de aprendermos a viver)

«A vida é como andar de bicicleta - explicou um dia Einstein ao filho -, para manteres o equilíbrio tens de continuar a pedalar.» Eu direi: «Amar é como aprender a conduzir, se depois de tirares a carta de condução, não continuares a praticar, vais acabar por esquecer.» Mais, acabamos por ter medo da simples ideia de voltar a pegar num carro!
Dramaticamente, a história pessoal de Harry Harlow será exemplo agudo da desaprendizagem do amor - pelos outros e por si mesmo; absurdamente, depois dos conhecimentos tão preciosos que a sua vida de investigador nos trouxe a todos! Que terá corrido mal?... A falta de equilíbrio? O excesso de velocidade num condutor esquecido dos gestos básicos?...
«The nature of love is about paying attention to the people who matter, about still giving when you are too tired to give. Be a mother who listens, a father who cuddles, a friend who calls back, a helping neighbor, a loving child.» (1)
(A natureza do amor tem a ver com dar atenção às pessoas que verdadeiramente importam; tem a ver com continuar a dar mesmo quando estamos demasiadamente cansados de dar. Ser a mãe que escuta os filhos, ser o pai que pega nos filhos ao colo e lhes dá mimos, ser o amigo que volta a ligar, ser o vizinho colaborador, ser uma criança carinhosa)
 Harlow, ainda a propósito do amor, e de tudo o que dizemos sobre o tema, deixa-nos um aviso, numa carta esctrita a um amigo: «Perhaps one should always be modest when talking about love.» (Talvez tenhamos de ser sempre modestos quando falamos de amor)
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(1)  "The nature of love is about paying attention to the people who matter, about still giving when you are too tired to give. Be a mother who listens, a father who cuddles, a friend who calls back, a helping neighbor, a loving child. That emphasis on love in our everyday lives may be the best of that quiet revolution in psychology, the one that changed the way we think about love and relationship almost without our noticing that had happened. We take for granted now that parents should hug their children, that relationships are worth the time, that taking care of each other is part of the good life. It is such a good foundation that it’s almost astonishing to consider how recent it is. For that foundation under our feet we owe a debt to Harry Harlow and to all the scientists who believed and worked toward a psychology of the heart. At the end, in Harry’s handiwork, there’s nothing sentimental about love, no sunlit clouds and glory notes—it’s a substantial, earthbound connection, grounded in effort, kindness, and decency. Learning to love, Harry liked to say, is really about learning to live. Perhaps everyday affection seems a small facet of love. Perhaps, though, it is the modest, steady responses that see us through day after day, that stretch into a life of close and loving relationships. Or, as Harry Harlow wrote to a friend, “Perhaps one should always be modest when talking about love.”" Deborah Blum, 2002, 2011. Love at Goon Park: Harry Harlow and the Science of Affection, Perseus Publishing,

domingo, 26 de junho de 2016

ESTAMOS A MATAR OS SONHOS DOS NOSSOS FILHOS

Psicologia - Frase da semana, 26JUn16: ESTAMOS A MATAR OS SONHOS DOS NOSSOS FILHOS

«Estou enojado com a educação escolar de hoje, que é uma
fábrica de incultos sem respeito pela memória. [...] Quando era criança, existia a possibilidade de cometer grandes erros. Quem não tiver a liberdade de errar na juventude, nunca se tornará um ser humano completo.» (George Steiner, Visão, n.º 1218, edição 7 a 13/o7/2916, pp.10-12)

Noutro apontamento falarei sobre o que George Steiner diz nesta entrevista sobre a memória.
Por agora quero centrar-me no eco do seu pensamento sobre a educação e o futuro das gerações mais jovens, as que sucessivamente as gerações mais velhas vão educando.
  1. Olhando a educação oficial que grassa pelo Mundo, estou inteiramente de acordo com Steiner: no nosso País, aponto claramente o dedo a decisores oficiais, tais como: Maria de Lurdes Rodrigues, Isabel Alçada, Nuno Crato, mais outras eminências pardas da Educação e do Ensino oficial, e as suas equipas de "sábios" e "especialistas".
  2. É verdade, esquecemo-nos que, afinal... errar é humano!
  3. Há erros das crianças e dos jovens que, oficialmente, se foram tornando intoleráveis nas escolas e que complexos regulamentos e procedimentos administrativos e burocráticos disfarçam por baixo do manto diáfano da "democracia tolerante" e das perversas "sucessivas oportunidades" dadas aos alunos faltosos e suas famílias
  4. A figura dos gabinetes de disciplina em tantas escolas acumula tantas e tantas histórias absurdas e surreais!...
  5. Entretanto, à custa de tantas horas subtraídas aos direitos da família e do descanso pessoal, muitos professores e directores de turma resistem e insistem em autênticas acrobacias pedagógicas para manter o grande sentido de humanidade na relação pessoal com os seus alunos, naquela dimensão que verdadeiramente alimenta os afectos positivos e promove os valores do respeito pelo outro, do companheirismo e da solidariedade.
«Muitos dizem que as utopias são idiotices. Mas, em qualquer caso, serão idiotices vitais. Um professor que não deixa os seus alunos pensar em utopias e errar é um péssimo professor.» (p. 11)
George Steiner não é um oráculo a quem tudo se pergunte e a tudo responda com saber consolidado.
Terá 12000 livros na sua biblioteca, o que me faz pensar que, ou faltam-lhe, mesmo assim, alguns (bons) livros sobre Psicanálise, ou tem-nos lá mas nunca os leu - é que o que ele diz na entrevista sobre a Psicanálise é de um muito lamentável, irritado e estereotipado preconceito. Enfim, é o seu direito a errar; e, como diz o Povo, aprender até morrer.
[texto publicado em 07Jul2016]

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

AO ENCONTRO DO MEU NOME, EM DIA DE ANIVERSÁRIO

AO ENCONTRO DO MEU NOME
(carta escrita para os meus sobrinhos)

               
Sim, é ele; quer dizer, sou eu, o Fernando Jorge.
Se até as fotografias mentem; se até o mais rigoroso dos vídeos mente, o que dizer das memórias? As memórias são todas – mas todas mesmo! – reconstruídas. É essa a condição inerente ao que a seguir vou escrever. Naturalmente.
                Quando a tia Fatinha nasceu, eu tinha 6 anos. Rapidamente percebi por que razão ela se chamava Maria de Fátima – antes, nunca eu (cá está, que me lembre…) me tinha interrogado sobre as razões de alguém ter este ou aquele nome. No caso da menina que nasceu no dia 8 de Dezembro de 1962 (1) nunca precisei de perguntar, as conversas à minha volta, na família, ou fora dela, eram frequentes sobre a razão da escolha do nome da minha recente maninha.
                O tio Zé Manel, esse, também foi fácil perceber por que razões se chamava José e Manuel; também no caso do meu irmão não foi nunca necessário perguntar fosse o que fosse sobre a escolha dos dois nomes.
                Aqui ou ali, no passar dos anos, fui olhando os nomes dos homens da família à procura da razão de ser do meu nome, mas nunca encontrava nada; mas também nunca me preocupei muito em saber, por isso, durante muitos anos, não perguntei nada a ninguém…
                Já crescido – penso mesmo que já psicólogo – dediquei, então, atenção à etimologia do meu nome; e o que encontrei deixou-me muito satisfeito, senti que tinha mesmo a ver comigo! Mas não foi ainda nessa altura que perguntei aos avós por que razão tinham escolhido o Fernando e o Jorge; mais!, quem é que tinha escolhido os dois nomes.
                Treinado que estou a processos de auto-análise, quando procurei perceber por que motivo nunca eu tinha perguntado aos avós fosse o que fosse sobre a origem do meu nome, não demorei a encontrar a razão: no fundo, eu tinha medo de ser associado a alguém fora da família, que eu não conhecesse, e que me deixasse decepcionado.
                Ainda antes de falar do assunto com os avós, um dia, quando almoçava com eles num dos restaurantes da Palmira Bastos (curiosamente, um a que raramente íamos – talvez os habituais estivessem fechados…), o avô Pinto e a avó Lourdes confessaram-me que tentaram que eu não nascesse (eu já contei esta história noutro lado). O tio Zé Manel era bebé pequenino, os avós queriam ter mais filhos, mas não logo a seguir, tão pertinho do bebé que tinham acabado de ter. Assim, tentaram, por processos muito artesanais, que eu “caísse” do ninho da avó Lourdes. Só que eu grudei e agarrei-me com unhas e dentes às paredes do ninho! Resisti a todos os abanões e sacudidelas!
                Lembro-me de ver o avô Pinto dizer, nesse almoço, muito sorridente, qualquer coisa do tipo: “A gente tentou tudo, mas tu não largavas a tua mãe, tu não saías de onde estavas… Então dissemos um para o outro «ele agarra-se assim à vida, ele quer tanto viver, olha, temos de o deixar vir, vamos ver…»”. É claro que comecei por me arrepiar quando os avós me contaram isto, mas logo a seguir um sentimento de profunda gratidão se sobrepôs a esse tão espontâneo arrepio. Eu bem percebi os avós: longe de quaisquer outros familiares, eles bem queriam fruir todos os bocadinhos do primeiro filho… Ainda mal o saboreavam, já tinham de se dividir com um outro; repito, que desejavam, mas não tão cedo. Quer dizer, mesmo antes de nascer fui logo um teimoso, um chato importunador! Eh! Eh!
                Ora, foi só depois de conhecer este “pitoresco” acerca do meu nascimento que, quando me pareceu oportuno, perguntei aos avós por que me tinham posto o nome que tenho, e quem o tinha escolhido. A resposta dos avós (eu tive o cuidado de que estivessem ambos a falar comigo) foi simples: “Olha, por nada, não houve razão especial nenhuma… Fomos nós que escolhemos, esse era um nome de que nós os dois gostávamos, foi só por isso, gostávamos desse nome…” Ainda perguntei aos avós se sabiam alguma coisa, ou se alguém lhes tinha dito alguma coisa sobre a etimologia do meu nome – nada, absolutamente nada, tinha sido só porque gostavam desse nome.
                Acho que os avós não tiveram nunca noção da satisfação que me deram!... Sobre mim não pesava o peso do testemunho geracional, passado de pai para filho; não pesava o simbolismo da profunda crença e devoção dos progenitores. Era como se, após as circunstâncias bem especiais do meu nascimento, eles me dissessem: “É assim: já que quiseste vir e a gente não tinha nada antecipado para ti, olha, sê. Sê o que quiseres ser. Pega neste nome, faz dele o que quiseres. Não te esqueças que é um nome de que a gente gosta, é tudo o que, muito honestamente, muito sentidamente, te podemos dizer e te podemos dar.”
                Quem me conhece sabe como prezo a liberdade de ser quem quero ser. Não tomei a simbologia etimológica do meu nome como objectivos a atingir, como lemas de vida a defender, mas que sinto que encaixa bem com o que tenho tentado ser e fazer ao longo da vida – ai, sim senhor! -, penso que o Fernando e o Jorge com que fui baptizado foram feitos à minha justa medida!
                Os meus pais fizeram-me Fernando Jorge para eu ser o que quisesse ser; apostaram “às cegas” em mim e deram-me a liberdade para ser o que e quem eu quisesse; é como se eles tivesse percebido que, naquele confronto muito perigoso, muito delicado a que, logo que deram conta de que eu tinha aparecido a importunar, me sujeitaram, eu seria capaz de me desenrascar por mim mesmo, tal as ganas que mostrei logo para viver.
                É, meus queridos sobrinhos, é com estas coisas no pensamento que vou, no meu dia de anos, conversar com os avós – agora que estarão outra vez bem juntinhos, e juntinhos irão cantar-me os parabéns. Certamente também, vamos falar e rirmo-nos das peripécias do meu nascimento. Acredito fortemente que nem um, nem outro, estão arrependidos da opção que fizeram, há quase 60 anos atrás. Ah!... E quanto eu lhes agradeço isso!...
                Só falta mesmo, então a etimologia do meu nome, não é verdade? Aqui vai:
                Fernando: Significa "ousado para atingir a paz", ou "o que ousa viajar", "viajante corajoso". O nome Fernando tem origem no germânico Ferdinand ou Fredenando, formado pela união das palavras fridu, que significa "paz", e nanthjan, que quer dizer "ousar", e significa “ousado para atingir a paz”.
                Jorge: Significa "o que trabalha a terra", ou "agricultor". Jorge tem origem no nome grego Geórgios, que deriva da palavra georgós, formada pela união dos termos ge, que significa "terra" e érghon, que quer dizer "trabalho" e significa “aquele que trabalha na terra", "agricultor”.
                De que gosto especialmente no meu nome? Ou, o que penso que o nome tem a ver comigo e eu com ele?
É a ideia de ousadia, de viajar, de procurar a paz; de a cultivar. Comigo, com o nome que quem decidiu que eu vivesse me pôs, nunca o ambiente de paz podre terá qualquer hipótese de se instalar. Por isso me sinto especialmente satisfeito por só tardiamente ter investigado a raiz etimológica do meu nome – é que eu já acumulara experiências de vida bastantes para constatar que toda a vida tenho viajado ao encontro do meu nome: eu procuro, eu ouso, eu revolvo os chãos que piso, os caminhos por onde viajo – os espaços físicos, as relações humanas, os conhecimentos acumulados, as crenças e os preconceitos estabelecidos. Sim, estou em crer que sim, num processo constante para atingir a paz a paz que me faz bem e faz bem aos outros, nunca me acomodando, nunca alimentando que os outros se acomodem em ambições de bem-estar menos saudáveis, menos honestas e menos solidárias. Em mim – reconheço-o, admito-o - haverá sempre um importunador! Ao serviço da paz, lutando por ela.

                É, queridos sobrinhos, gosto muito de ser o Fernando Jorge.

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(1) - A data de 8 de Dezembro está ligada à celebração da Imaculada Conceição, mas o nascimento da minha irmã nesta data é, do ponto de vista da devoção da nossa mãe à Nossa Senhora de Fátima, puramente acidental. À data de 1962, sem as ecografias, só na altura do nascimento havia a certeza do sexo da criança: assim que a nossa mãe soube que estava grávida imediatamente prometeu o bebé a Nossa Senhora de Fátima.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Memórias da avó Lourdes - Como a avó Lourdes conheceu o avô Pinto

Memórias da avó Lourdes
15 de agosto de 2013, quinta-feira, em casa da Tia Fatinha, no Faial

Como a avó Lourdes conheceu o avô Pinto

            - “Sabes como é que eu conheci o teu pai?...” perguntou-me a avó quando estávamos a almoçar. Estávamos, naquela altura, calados num silêncio de pouca duração, tão simplesmente
atrás: Maria de Lourdes, Maria de Fátima, Manuel
à frente: Fernando Jorge, José Manuel
porque não se pode conversar enquanto de mastiga.
Eu sei como foi que esse primeiro contacto aconteceu, mas, como de costume, fiz o meu papel e respondi à avó que não, não senhora, não sabia.
- “Eu estava na costura, na costura de alfaiate, no Alexandre Paulo, e ele [o avô Pinto] foi lá para para fazer um fato [fato civil]… ele entrou, eu olhei para ele, depois voltei-me para as minhas colegas e disse-lhes assim baixinho: «Olhem, eu vou bater-me com este magala!...» Houve uma delas que se voltou para mim e disse em voz alta: «Capaz disso és tu, e muito mais!...» Lembro-me bem dele, era todo jovem, jeitosinho, o cabelo todo onduladinho…»”. A avó estava deliciada a relembrar esta ocasião que marcou definitivamente as suas vidas… e as nossas! – “Eu depois perguntei para elas: «Quem é este?...», e uma delas respondeu-me: «É o furriel Pinto». Eu então chamava-lhe «furrielzito» e, olha, se bem o disseste, melhor o fizeste." A avó estava deliciada! Mais deliciada com as memórias do que com a comida. – “Depois, quando começámos a ir aos bailes, eu dançava muito bem, melhor do que ele… eram sempre tempos bem passados, ao pé de mim nunca ninguém estava triste…”
- “Eu e as minhas irmãs gostávamos muito de ir aos bailes… era no Orfeu e no Sporting… Quem chegava cedo guardava lugar para as outras… Nunca levei sova de cadeira!... A minha irmã Rosinda nunca foi a um baile, ela foi namorada de um só homem… ele tinha saído da tropa e ela tinha 13 anos, treze!... A minha irmã Rosinda, coitadita, não se divertia nada. A minha irmã Beatriz também se prendeu muito cedo ao Titó… A minha irmã Deolinda namorou o Zé Camilo, o Zé ??????, foram muitos Zés, parece que ela tinha uma predilecção especial pelos Zés, e depois não casou com nenhum deles… Foi a que teve mais pretendentes, ela em nova era muito jeitosa e tinha uma coisa muito bem feita… Sabes o que era?...” “Não, dona Lourdes, não sei…” (mesmo que soubesse não diria à avó que sabia!...) Eram as pernas!... Ela tinha uma vaidade grande nas pernas...
A conversa ficou por aqui, alguma coisa apareceu a interromper a conversa. No dia seguinte, em jeito de remate à conversa interrompida, e também à hora do almoço, a avó Lourdes continuou: - “O velhote [o avô Branco] em Abrantes tinha fama de ser mau, mas era muito honesto, todos o respeitavam muito porque sabiam como ele era… Pensas que ele respeitava as freiras no Colégio Nossa Senhora de Fátima?  Pois sim!... Mas elas todas adoravam o senhor António!... Eu não tinha nenhum medo do meu pai, era a única que brincava com ele… O meu pai gostava muito do teu pai, mas o teu pai tinha-lhe muito respeito, só entrou lá em casa já depois de casarmos… Lembro-me que uma vez estávamos a namorar à porta de casa, o meu pai chegou, viu-nos ali chegadinhos um ao outro e perguntou-nos: «Querem o meu capote?». O meu pai tinha um capote grande, sempre teve… Eu não me atrapalhei nada com ele e respondei-lhe: «Não, não é preciso, se a gente tiver frio a gente aquece-se um ao outro!... «Lá descarada és tu!» disse o meu pai, mas foi para dentro bem-disposto e deixou-nos ficar ali à vontade… Outra vez, quando passou por nós, nós estávamos a cantar – é até por isso que ele lhe pôs [ao avô Pinto] o nome do Rapsódia – e ele perguntou: «Mas vocês estão sempre a cantar?...» e eu respondi-lhe logo a rir-me: «Mas quer que a gente se ponha a fazer outras coisas?...»
E o avô Branco lá se resignou e lhe deu a mesma resposta do capote. Como podem ver, meus queridos sobrinhos, não é só os netos que a avó deixa desarmados com as suas respostas; a avó já traz muito treino dos tempos do avô Branco, o seu próprio pai!

domingo, 27 de setembro de 2015

AS VIRGENS BÍBLICAS E A MINHA MÃE

AS VIRGENS BÍBLICAS E A MINHA MÃE

A missa de corpo presente, ontem, na Igreja Matriz da Horta, deu-nos uma muito carinhosa oportunidade de mostrar com limpidez insuperável uma das mais marcantes características da nossa mãe, a Maria de Lourdes.O senhor padre celebrante, quando o momento chegou, fez a leitura do Evangelho. No ritual que os católicos bem conhecem, disse ele, benzendo-se:
«Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus… Naquele tempo, Disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a dez virgens, que, tomando as suas lâmpadas, foram ao encontro do esposo. Cinco eram insensatas e cinco eram prudentes. As insensatas, ao tomarem as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo, enquanto as prudentes, com as lâmpadas, levaram azeite nas almotolias. Como o esposo se demorava, começaram todas a dormitar e adormeceram. No meio da noite ouviu-se um brado: ‘Aí vem o esposo; ide ao seu encontro’. Então, as virgens levantaram-se todas e começaram a preparar as lâmpadas. As insensatas disseram às prudentes: ‘Dai-nos do vosso azeite, que as nossas lâmpadas estão a apagar-se’. Mas as prudentes responderam: ‘Talvez não chegue para nós e para vós. Ide antes comprá-lo aos vendedores’. Mas, enquanto foram comprá-lo, chegou o esposo. As que estavam preparadas entraram com ele para o banquete nupcial; e a porta fechou-se. Mais tarde, chegaram também as outras virgens e disseram: ‘Senhor, senhor, abre-nos a porta’. Mas ele respondeu: ‘Em verdade vos digo: Não vos conheço’. Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora… Palavra da Salvação.»
O que nos diz esta parábola bíblica sobre a nossa mãe?
A nossa mãe seria pessoa para ouvir muito atentamente, com muita fé, todas as mais brilhantes, genuínas e legítimas interpretações simbólicas desta leitura evangélica.
Ora, sem que fosse sequer preciso virar costas às homilíacas palavras, ainda estivessem elas a ressoarem aos seus ouvidos, já ela estaria a repartir o seu azeite, fosse com quem fosse que lho solicitasse, fosse qual fosse a quantidade que lhe restasse – tudo, em qualquer altura, que tivesse e que uma alma aflita lhe pedisse, por mais pequenina que fosse a côdea de pão ou a gota de azeite que a minha mãe tivesse, ela dividiria sempre. Primeiro, dividiria, só depois olhava com o que ficava e o que poderia fazer com o que lhe restasse, nunca se arrependendo de dar, a sua preocupação era que não faltasse a quem estivesse aflito à volta dela; se lhe faltasse a ela um pouco, não havia problema, ela seria capaz de aguentar, melhores dias viriam. Nunca ela faria as coisas assim por despeito ou rebeldia contra as lições das parábolas das Escrituras Sagradas – era apenas guiada pelo instinto cego, prontamente disponível, da sua sociabilidade e sentido de partilha.
Recordo agora, com o mais profundo carinho e sentido de gratidão, esta grande lição que ela nos deu. Éramos nós, os filhos, pequenos, eu lembro-me de uma ou outra vez a minha mãe repartir com outros o que eu pensava que era só nosso. Comandado pelo cruel instinto de sobrevivência infantil, que nos manda, antes de mais, bem cuidar de nós mesmos; ou então, já marcado, na catequese, pelo exemplo das virgens prudentes que as catequistas nos mandavam seguir, eu balbuciava um hesitante e aflito “Então, mãezinha, e nós?... Assim não chega p’ra nós!…” A nossa mãe, o bondoso ser humano que era, respondia-me: “Não te preocupes, filho, ainda há que chegue p’ra todos cá em casa…” Tenho memória de uma ou outra vez perceber tensão no rosto da nossa mãe; mas essa tensão não tinha a ver com o gesto de dar, era já ela a pensar como iria lidar a seguir com as dificuldades da vida para que a nós, aos filhos, não faltasse nada. Como sempre fazia, a parte má das coisas, a nossa mãe guardava para ela, poupando-nos por amor.