domingo, 26 de junho de 2016

ESTAMOS A MATAR OS SONHOS DOS NOSSOS FILHOS

Psicologia - Frase da semana, 26JUn16: ESTAMOS A MATAR OS SONHOS DOS NOSSOS FILHOS

«Estou enojado com a educação escolar de hoje, que é uma
fábrica de incultos sem respeito pela memória. [...] Quando era criança, existia a possibilidade de cometer grandes erros. Quem não tiver a liberdade de errar na juventude, nunca se tornará um ser humano completo.» (George Steiner, Visão, n.º 1218, edição 7 a 13/o7/2916, pp.10-12)

Noutro apontamento falarei sobre o que George Steiner diz nesta entrevista sobre a memória.
Por agora quero centrar-me no eco do seu pensamento sobre a educação e o futuro das gerações mais jovens, as que sucessivamente as gerações mais velhas vão educando.
  1. Olhando a educação oficial que grassa pelo Mundo, estou inteiramente de acordo com Steiner: no nosso País, aponto claramente o dedo a decisores oficiais, tais como: Maria de Lurdes Rodrigues, Isabel Alçada, Nuno Crato, mais outras eminências pardas da Educação e do Ensino oficial, e as suas equipas de "sábios" e "especialistas".
  2. É verdade, esquecemo-nos que, afinal... errar é humano!
  3. Há erros das crianças e dos jovens que, oficialmente, se foram tornando intoleráveis nas escolas e que complexos regulamentos e procedimentos administrativos e burocráticos disfarçam por baixo do manto diáfano da "democracia tolerante" e das perversas "sucessivas oportunidades" dadas aos alunos faltosos e suas famílias
  4. A figura dos gabinetes de disciplina em tantas escolas acumula tantas e tantas histórias absurdas e surreais!...
  5. Entretanto, à custa de tantas horas subtraídas aos direitos da família e do descanso pessoal, muitos professores e directores de turma resistem e insistem em autênticas acrobacias pedagógicas para manter o grande sentido de humanidade na relação pessoal com os seus alunos, naquela dimensão que verdadeiramente alimenta os afectos positivos e promove os valores do respeito pelo outro, do companheirismo e da solidariedade.
«Muitos dizem que as utopias são idiotices. Mas, em qualquer caso, serão idiotices vitais. Um professor que não deixa os seus alunos pensar em utopias e errar é um péssimo professor.» (p. 11)
George Steiner não é um oráculo a quem tudo se pergunte e a tudo responda com saber consolidado.
Terá 12000 livros na sua biblioteca, o que me faz pensar que, ou faltam-lhe, mesmo assim, alguns (bons) livros sobre Psicanálise, ou tem-nos lá mas nunca os leu - é que o que ele diz na entrevista sobre a Psicanálise é de um muito lamentável, irritado e estereotipado preconceito. Enfim, é o seu direito a errar; e, como diz o Povo, aprender até morrer.
[texto publicado em 07Jul2016]

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

AO ENCONTRO DO MEU NOME, EM DIA DE ANIVERSÁRIO

AO ENCONTRO DO MEU NOME
(carta escrita para os meus sobrinhos)

               
Sim, é ele; quer dizer, sou eu, o Fernando Jorge.
Se até as fotografias mentem; se até o mais rigoroso dos vídeos mente, o que dizer das memórias? As memórias são todas – mas todas mesmo! – reconstruídas. É essa a condição inerente ao que a seguir vou escrever. Naturalmente.
                Quando a tia Fatinha nasceu, eu tinha 6 anos. Rapidamente percebi por que razão ela se chamava Maria de Fátima – antes, nunca eu (cá está, que me lembre…) me tinha interrogado sobre as razões de alguém ter este ou aquele nome. No caso da menina que nasceu no dia 8 de Dezembro de 1962 (1) nunca precisei de perguntar, as conversas à minha volta, na família, ou fora dela, eram frequentes sobre a razão da escolha do nome da minha recente maninha.
                O tio Zé Manel, esse, também foi fácil perceber por que razões se chamava José e Manuel; também no caso do meu irmão não foi nunca necessário perguntar fosse o que fosse sobre a escolha dos dois nomes.
                Aqui ou ali, no passar dos anos, fui olhando os nomes dos homens da família à procura da razão de ser do meu nome, mas nunca encontrava nada; mas também nunca me preocupei muito em saber, por isso, durante muitos anos, não perguntei nada a ninguém…
                Já crescido – penso mesmo que já psicólogo – dediquei, então, atenção à etimologia do meu nome; e o que encontrei deixou-me muito satisfeito, senti que tinha mesmo a ver comigo! Mas não foi ainda nessa altura que perguntei aos avós por que razão tinham escolhido o Fernando e o Jorge; mais!, quem é que tinha escolhido os dois nomes.
                Treinado que estou a processos de auto-análise, quando procurei perceber por que motivo nunca eu tinha perguntado aos avós fosse o que fosse sobre a origem do meu nome, não demorei a encontrar a razão: no fundo, eu tinha medo de ser associado a alguém fora da família, que eu não conhecesse, e que me deixasse decepcionado.
                Ainda antes de falar do assunto com os avós, um dia, quando almoçava com eles num dos restaurantes da Palmira Bastos (curiosamente, um a que raramente íamos – talvez os habituais estivessem fechados…), o avô Pinto e a avó Lourdes confessaram-me que tentaram que eu não nascesse (eu já contei esta história noutro lado). O tio Zé Manel era bebé pequenino, os avós queriam ter mais filhos, mas não logo a seguir, tão pertinho do bebé que tinham acabado de ter. Assim, tentaram, por processos muito artesanais, que eu “caísse” do ninho da avó Lourdes. Só que eu grudei e agarrei-me com unhas e dentes às paredes do ninho! Resisti a todos os abanões e sacudidelas!
                Lembro-me de ver o avô Pinto dizer, nesse almoço, muito sorridente, qualquer coisa do tipo: “A gente tentou tudo, mas tu não largavas a tua mãe, tu não saías de onde estavas… Então dissemos um para o outro «ele agarra-se assim à vida, ele quer tanto viver, olha, temos de o deixar vir, vamos ver…»”. É claro que comecei por me arrepiar quando os avós me contaram isto, mas logo a seguir um sentimento de profunda gratidão se sobrepôs a esse tão espontâneo arrepio. Eu bem percebi os avós: longe de quaisquer outros familiares, eles bem queriam fruir todos os bocadinhos do primeiro filho… Ainda mal o saboreavam, já tinham de se dividir com um outro; repito, que desejavam, mas não tão cedo. Quer dizer, mesmo antes de nascer fui logo um teimoso, um chato importunador! Eh! Eh!
                Ora, foi só depois de conhecer este “pitoresco” acerca do meu nascimento que, quando me pareceu oportuno, perguntei aos avós por que me tinham posto o nome que tenho, e quem o tinha escolhido. A resposta dos avós (eu tive o cuidado de que estivessem ambos a falar comigo) foi simples: “Olha, por nada, não houve razão especial nenhuma… Fomos nós que escolhemos, esse era um nome de que nós os dois gostávamos, foi só por isso, gostávamos desse nome…” Ainda perguntei aos avós se sabiam alguma coisa, ou se alguém lhes tinha dito alguma coisa sobre a etimologia do meu nome – nada, absolutamente nada, tinha sido só porque gostavam desse nome.
                Acho que os avós não tiveram nunca noção da satisfação que me deram!... Sobre mim não pesava o peso do testemunho geracional, passado de pai para filho; não pesava o simbolismo da profunda crença e devoção dos progenitores. Era como se, após as circunstâncias bem especiais do meu nascimento, eles me dissessem: “É assim: já que quiseste vir e a gente não tinha nada antecipado para ti, olha, sê. Sê o que quiseres ser. Pega neste nome, faz dele o que quiseres. Não te esqueças que é um nome de que a gente gosta, é tudo o que, muito honestamente, muito sentidamente, te podemos dizer e te podemos dar.”
                Quem me conhece sabe como prezo a liberdade de ser quem quero ser. Não tomei a simbologia etimológica do meu nome como objectivos a atingir, como lemas de vida a defender, mas que sinto que encaixa bem com o que tenho tentado ser e fazer ao longo da vida – ai, sim senhor! -, penso que o Fernando e o Jorge com que fui baptizado foram feitos à minha justa medida!
                Os meus pais fizeram-me Fernando Jorge para eu ser o que quisesse ser; apostaram “às cegas” em mim e deram-me a liberdade para ser o que e quem eu quisesse; é como se eles tivesse percebido que, naquele confronto muito perigoso, muito delicado a que, logo que deram conta de que eu tinha aparecido a importunar, me sujeitaram, eu seria capaz de me desenrascar por mim mesmo, tal as ganas que mostrei logo para viver.
                É, meus queridos sobrinhos, é com estas coisas no pensamento que vou, no meu dia de anos, conversar com os avós – agora que estarão outra vez bem juntinhos, e juntinhos irão cantar-me os parabéns. Certamente também, vamos falar e rirmo-nos das peripécias do meu nascimento. Acredito fortemente que nem um, nem outro, estão arrependidos da opção que fizeram, há quase 60 anos atrás. Ah!... E quanto eu lhes agradeço isso!...
                Só falta mesmo, então a etimologia do meu nome, não é verdade? Aqui vai:
                Fernando: Significa "ousado para atingir a paz", ou "o que ousa viajar", "viajante corajoso". O nome Fernando tem origem no germânico Ferdinand ou Fredenando, formado pela união das palavras fridu, que significa "paz", e nanthjan, que quer dizer "ousar", e significa “ousado para atingir a paz”.
                Jorge: Significa "o que trabalha a terra", ou "agricultor". Jorge tem origem no nome grego Geórgios, que deriva da palavra georgós, formada pela união dos termos ge, que significa "terra" e érghon, que quer dizer "trabalho" e significa “aquele que trabalha na terra", "agricultor”.
                De que gosto especialmente no meu nome? Ou, o que penso que o nome tem a ver comigo e eu com ele?
É a ideia de ousadia, de viajar, de procurar a paz; de a cultivar. Comigo, com o nome que quem decidiu que eu vivesse me pôs, nunca o ambiente de paz podre terá qualquer hipótese de se instalar. Por isso me sinto especialmente satisfeito por só tardiamente ter investigado a raiz etimológica do meu nome – é que eu já acumulara experiências de vida bastantes para constatar que toda a vida tenho viajado ao encontro do meu nome: eu procuro, eu ouso, eu revolvo os chãos que piso, os caminhos por onde viajo – os espaços físicos, as relações humanas, os conhecimentos acumulados, as crenças e os preconceitos estabelecidos. Sim, estou em crer que sim, num processo constante para atingir a paz a paz que me faz bem e faz bem aos outros, nunca me acomodando, nunca alimentando que os outros se acomodem em ambições de bem-estar menos saudáveis, menos honestas e menos solidárias. Em mim – reconheço-o, admito-o - haverá sempre um importunador! Ao serviço da paz, lutando por ela.

                É, queridos sobrinhos, gosto muito de ser o Fernando Jorge.

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(1) - A data de 8 de Dezembro está ligada à celebração da Imaculada Conceição, mas o nascimento da minha irmã nesta data é, do ponto de vista da devoção da nossa mãe à Nossa Senhora de Fátima, puramente acidental. À data de 1962, sem as ecografias, só na altura do nascimento havia a certeza do sexo da criança: assim que a nossa mãe soube que estava grávida imediatamente prometeu o bebé a Nossa Senhora de Fátima.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Memórias da avó Lourdes - Como a avó Lourdes conheceu o avô Pinto

Memórias da avó Lourdes
15 de agosto de 2013, quinta-feira, em casa da Tia Fatinha, no Faial

Como a avó Lourdes conheceu o avô Pinto

            - “Sabes como é que eu conheci o teu pai?...” perguntou-me a avó quando estávamos a almoçar. Estávamos, naquela altura, calados num silêncio de pouca duração, tão simplesmente
atrás: Maria de Lourdes, Maria de Fátima, Manuel
à frente: Fernando Jorge, José Manuel
porque não se pode conversar enquanto de mastiga.
Eu sei como foi que esse primeiro contacto aconteceu, mas, como de costume, fiz o meu papel e respondi à avó que não, não senhora, não sabia.
- “Eu estava na costura, na costura de alfaiate, no Alexandre Paulo, e ele [o avô Pinto] foi lá para para fazer um fato [fato civil]… ele entrou, eu olhei para ele, depois voltei-me para as minhas colegas e disse-lhes assim baixinho: «Olhem, eu vou bater-me com este magala!...» Houve uma delas que se voltou para mim e disse em voz alta: «Capaz disso és tu, e muito mais!...» Lembro-me bem dele, era todo jovem, jeitosinho, o cabelo todo onduladinho…»”. A avó estava deliciada a relembrar esta ocasião que marcou definitivamente as suas vidas… e as nossas! – “Eu depois perguntei para elas: «Quem é este?...», e uma delas respondeu-me: «É o furriel Pinto». Eu então chamava-lhe «furrielzito» e, olha, se bem o disseste, melhor o fizeste." A avó estava deliciada! Mais deliciada com as memórias do que com a comida. – “Depois, quando começámos a ir aos bailes, eu dançava muito bem, melhor do que ele… eram sempre tempos bem passados, ao pé de mim nunca ninguém estava triste…”
- “Eu e as minhas irmãs gostávamos muito de ir aos bailes… era no Orfeu e no Sporting… Quem chegava cedo guardava lugar para as outras… Nunca levei sova de cadeira!... A minha irmã Rosinda nunca foi a um baile, ela foi namorada de um só homem… ele tinha saído da tropa e ela tinha 13 anos, treze!... A minha irmã Rosinda, coitadita, não se divertia nada. A minha irmã Beatriz também se prendeu muito cedo ao Titó… A minha irmã Deolinda namorou o Zé Camilo, o Zé ??????, foram muitos Zés, parece que ela tinha uma predilecção especial pelos Zés, e depois não casou com nenhum deles… Foi a que teve mais pretendentes, ela em nova era muito jeitosa e tinha uma coisa muito bem feita… Sabes o que era?...” “Não, dona Lourdes, não sei…” (mesmo que soubesse não diria à avó que sabia!...) Eram as pernas!... Ela tinha uma vaidade grande nas pernas...
A conversa ficou por aqui, alguma coisa apareceu a interromper a conversa. No dia seguinte, em jeito de remate à conversa interrompida, e também à hora do almoço, a avó Lourdes continuou: - “O velhote [o avô Branco] em Abrantes tinha fama de ser mau, mas era muito honesto, todos o respeitavam muito porque sabiam como ele era… Pensas que ele respeitava as freiras no Colégio Nossa Senhora de Fátima?  Pois sim!... Mas elas todas adoravam o senhor António!... Eu não tinha nenhum medo do meu pai, era a única que brincava com ele… O meu pai gostava muito do teu pai, mas o teu pai tinha-lhe muito respeito, só entrou lá em casa já depois de casarmos… Lembro-me que uma vez estávamos a namorar à porta de casa, o meu pai chegou, viu-nos ali chegadinhos um ao outro e perguntou-nos: «Querem o meu capote?». O meu pai tinha um capote grande, sempre teve… Eu não me atrapalhei nada com ele e respondei-lhe: «Não, não é preciso, se a gente tiver frio a gente aquece-se um ao outro!... «Lá descarada és tu!» disse o meu pai, mas foi para dentro bem-disposto e deixou-nos ficar ali à vontade… Outra vez, quando passou por nós, nós estávamos a cantar – é até por isso que ele lhe pôs [ao avô Pinto] o nome do Rapsódia – e ele perguntou: «Mas vocês estão sempre a cantar?...» e eu respondi-lhe logo a rir-me: «Mas quer que a gente se ponha a fazer outras coisas?...»
E o avô Branco lá se resignou e lhe deu a mesma resposta do capote. Como podem ver, meus queridos sobrinhos, não é só os netos que a avó deixa desarmados com as suas respostas; a avó já traz muito treino dos tempos do avô Branco, o seu próprio pai!

domingo, 27 de setembro de 2015

AS VIRGENS BÍBLICAS E A MINHA MÃE

AS VIRGENS BÍBLICAS E A MINHA MÃE

A missa de corpo presente, ontem, na Igreja Matriz da Horta, deu-nos uma muito carinhosa oportunidade de mostrar com limpidez insuperável uma das mais marcantes características da nossa mãe, a Maria de Lourdes.O senhor padre celebrante, quando o momento chegou, fez a leitura do Evangelho. No ritual que os católicos bem conhecem, disse ele, benzendo-se:
«Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus… Naquele tempo, Disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a dez virgens, que, tomando as suas lâmpadas, foram ao encontro do esposo. Cinco eram insensatas e cinco eram prudentes. As insensatas, ao tomarem as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo, enquanto as prudentes, com as lâmpadas, levaram azeite nas almotolias. Como o esposo se demorava, começaram todas a dormitar e adormeceram. No meio da noite ouviu-se um brado: ‘Aí vem o esposo; ide ao seu encontro’. Então, as virgens levantaram-se todas e começaram a preparar as lâmpadas. As insensatas disseram às prudentes: ‘Dai-nos do vosso azeite, que as nossas lâmpadas estão a apagar-se’. Mas as prudentes responderam: ‘Talvez não chegue para nós e para vós. Ide antes comprá-lo aos vendedores’. Mas, enquanto foram comprá-lo, chegou o esposo. As que estavam preparadas entraram com ele para o banquete nupcial; e a porta fechou-se. Mais tarde, chegaram também as outras virgens e disseram: ‘Senhor, senhor, abre-nos a porta’. Mas ele respondeu: ‘Em verdade vos digo: Não vos conheço’. Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora… Palavra da Salvação.»
O que nos diz esta parábola bíblica sobre a nossa mãe?
A nossa mãe seria pessoa para ouvir muito atentamente, com muita fé, todas as mais brilhantes, genuínas e legítimas interpretações simbólicas desta leitura evangélica.
Ora, sem que fosse sequer preciso virar costas às homilíacas palavras, ainda estivessem elas a ressoarem aos seus ouvidos, já ela estaria a repartir o seu azeite, fosse com quem fosse que lho solicitasse, fosse qual fosse a quantidade que lhe restasse – tudo, em qualquer altura, que tivesse e que uma alma aflita lhe pedisse, por mais pequenina que fosse a côdea de pão ou a gota de azeite que a minha mãe tivesse, ela dividiria sempre. Primeiro, dividiria, só depois olhava com o que ficava e o que poderia fazer com o que lhe restasse, nunca se arrependendo de dar, a sua preocupação era que não faltasse a quem estivesse aflito à volta dela; se lhe faltasse a ela um pouco, não havia problema, ela seria capaz de aguentar, melhores dias viriam. Nunca ela faria as coisas assim por despeito ou rebeldia contra as lições das parábolas das Escrituras Sagradas – era apenas guiada pelo instinto cego, prontamente disponível, da sua sociabilidade e sentido de partilha.
Recordo agora, com o mais profundo carinho e sentido de gratidão, esta grande lição que ela nos deu. Éramos nós, os filhos, pequenos, eu lembro-me de uma ou outra vez a minha mãe repartir com outros o que eu pensava que era só nosso. Comandado pelo cruel instinto de sobrevivência infantil, que nos manda, antes de mais, bem cuidar de nós mesmos; ou então, já marcado, na catequese, pelo exemplo das virgens prudentes que as catequistas nos mandavam seguir, eu balbuciava um hesitante e aflito “Então, mãezinha, e nós?... Assim não chega p’ra nós!…” A nossa mãe, o bondoso ser humano que era, respondia-me: “Não te preocupes, filho, ainda há que chegue p’ra todos cá em casa…” Tenho memória de uma ou outra vez perceber tensão no rosto da nossa mãe; mas essa tensão não tinha a ver com o gesto de dar, era já ela a pensar como iria lidar a seguir com as dificuldades da vida para que a nós, aos filhos, não faltasse nada. Como sempre fazia, a parte má das coisas, a nossa mãe guardava para ela, poupando-nos por amor.

sábado, 26 de setembro de 2015

Uma pequenina homenagem à avó Lourdes, «uma abrantina de gema»

Meus queridos sobrinhos, que posso eu dizer-vos hoje, marcado pela angústia do futuro próximo, acerca da vossa avó?
(Texto escrito no avião, viagem Horta-Ponta Delgada-Lisboa, 29 de Agosto de 2015)

           
Fiz questão de, à saída do quarto, olhar bem a avó Lourdes, hoje de manhã, em casa da tia Fatinha, depois de me despedir dela. Mais do que nunca.
            A avó pôs os olhos bem fixados em mim, era um olhar tranquilo e carinhoso. A tia Fatinha perguntou à avó se só olhava e não dizia adeus, que ela bem podia mexer a mão direita (afinal, os sucessivos avc's têm-lhe massacrado é o outro  braço, o esquerdo). A avó ouviu a filha e correspondeu ao seu pedido - fez-me um claro aceno de mão, os dedos bem unidos, só o polegar, certinho, a afastar-se um pouco, compondo o aceno bem como ele deve ser feito.
            Mais do que nunca, ou melhor, pela primeira vez senti, pensei, que poderia ser a última vez que visse a avó Lourdes assim, a olhar-me; e eu a olhá-la. Senti muita ternura, muita paz; uma infinita tranquilidade, mesmo que, ao mesmo tempo, desejasse com muita força que não tivesse sido a última vez ali, ao pé dela, a falar com ela. Quero ouvi-la outra vez a dizer-me, ainda de olhos fechados, com o seu típico bom-humor, “Bom dia, Adriano…”, depois de outra vez eu a provocar com o meu sussurrante “Bom dia, Maria Joaquina!”. Quero ouvi-la dizer, ao chegar-lhe, no desjejum, o copo, que “a água passa”, mas que “deixa-me engasgada”; e que “o iogurte não presta”; e que eu, a dar-lhe estas coisas, não devo gostar nada dela. Se gostasse, levava-lhe era pão com azeitonas, ou café e pão com queijo. (1)
            Mas pode muito bem ter sido a última vez que tenha visto a avó Lourdes viva; como muitas vezes ouvi o avô Pinto e os seus irmãos dizerem, “é a lei da vida”.
            Sei o que quero dizer quando chegar o dia que todos nós temos desejado que chegue o mais tarde possível, ou não chegue mesmo; por isso talvez seja melhor escrevê-lo já, que, por enquanto, tenho controlo sobre as emoções, controlo esse que muito provavelmente não terei quando for confrontado com a necessidade, imposta pelo desiderato inelutável, de o fazer:
            Queridos netos da avó Lourdes, a minha mãe não foi, absolutamente, a melhor mãe do mundo; essa, tanto a gente a reclama, essa não é a minha mãe, essa não é a vossa avó. A minha mãe é única! A vossa avó é única! Foi uma criança que viveu a sua meninice de maneira muito intensa, foi uma jovem muito alegre e amiga das suas amigas; foi esposa fidelíssima, foi mãe extremosa; foi avó encantadora e foi ainda ‘bivó’ que fascinou a sua ‘Piriquita’ como mais ninguém.
Em contraste com todas estas coisas bonitas que cultivou ou que encontrou, testemunhei, com a angústia em mim bem presa, mais do que uma vez, o ataque, sobre ela, das maldosas doenças, e a nossa Velhitas sempre brincando - gaiatamente, docemente.
A minha mãe, a nossa mãe, a vossa avó, foi uma mulher notável, que passou por todos os desafios que o ciclo da vida lança a cada ser humano da infância à velhice – passou por eles e venceu-os a todos. A todas as meninas do mundo, a todas as mulheres, a todas as velhinhas desejo eu um ciclo de vida assim – assim se fazem as mulheres únicas que espalham à sua volta alegria, paz, amor e atenção ao próximo; sempre desinteressadamente, sempre com o maior dos desvelos.
            Na profunda humanidade dos seus actos, a avó Lourdes viveu céus, experimentou infernos; todos nós pudemos ser testemunhas da invejável capacidade que teve de fazer calarem-se dentro de si os afectos difíceis e as memórias dolorosas e manter vivos, consoladoramente bem audíveis, os saborosos contrários de todas essas coisas más.
            Numa das últimas vezes, agora neste mês de Agosto, que lhe aconcheguei a roupa da cama, ao deitar, perguntei-lhe: “Então, Velhitas, não tens sono?...” A avó olhou-me com um sorriso meigo e respondeu-me com esta tranquilidade toda: “Não tenho agora, mas quando ele chegar eu vou estar pronta para o receber.”
            É, queridos sobrinhos, a avó Lourdes estava pronta. Agora estará ao pé do seu ‘Nino’ a brincar com ele o saboroso segredo de que só conhecemos a escrita das quatro letras em iniciais maiúsculas – é, o segredo é mesmo deles. Os segredos são assim mesmo - a eles, os deles; a cada um de nós, os nossos. Este de quatro letras, definitivamente, eternamente, é deles, de mais ninguém.
A Lourdes Branco, a minha mãe, a avó Lourdes, a Bivó, vai finalmente poder voltar a partilhar o seu segredo com, como ela dizia, “o meu homem”. Muito doente, neste muito delicado mês de Agosto de 2015, a Velhitas de todos nós confidenciou-me: “Tenho muitas saudades de uma pessoa…” Fingi que não percebi quem era e perguntei-lhe de quem falava; a avó precisava de o dizer: “É do meu homem, o vosso pai…” Finalmente, repito, a avó vai poder voltar a partilhar com o seu homem a cumplicidade daquelas quarto letras, iniciais de qualquer coisa, que só eles os dois conhecem – é, seguramente, o segredo mais puro, mais genuíno, mais bem guardado da família.
Vá, vamos sair de mansinho, vamos deixá-los na intimidade que é deles, que eles souberam inventar para eles mesmos, e a que foram sempre fiéis. Que exemplo para nós todos!
            Beijo grande, Velhitas! Dá por nós um beijo também grande ao Velho! E a todos os familiares queridos que, seguramente, te receberão junto deles com muito carinho, com muita alegria, com muito amor.
Até sempre, querida mãe! Obrigado por tudo o que foste para mim, por tudo o que me deste! Que orgulho tenho em ti! É um privilégio muito grande ser teu filho!


- A minha mãe veio a falecer a 25 de Setembro de 2015, sem que, na verdade, eu a voltasse a ver a olhar-me e a falar comigo.

(1) É claro que a minha mãe me dizia isto com muito carinho, ela sabia que o seu cafezinho e o pão com queijo fresco chegariam pouco depois.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Pedacinho de tesouro, de pai para filho

Pedacinho de tesouro, de pai para filho

O Vítor e o filho. A fotografia já tem alguns aninhos.
O pai é o Vítor e o filho é o... ups!, esqueci-me do nome... :-(
O momento foi testemunhado ontem pelo João; e quem por ele hoje perguntou foi o Marco. Aconteceu, repito, ontem, já depois das oito da noite.
Ainda ontem decidi escrever um apontamento sobre o que aconteceu, mas sem data, sem prazo para o fazer. Ora, o que se passou foi que hoje, a meio da tarde, por um acaso muito feliz, encontrei o Marco (meu aluno de Psicologia há alguns anos) no Chiado, ao pé do Fernando Pessoa; perguntou-me por várias coisas - entre elas, pelas viagens e aventuras. Assim que ele se afastou, decidi: o apontamento iria ser escrito já hoje!

Ei-lo:
O Vítor, eu cruzei-me com ele por acaso no Spacio, nos Olivais; eu estava lá para jantar com o João, meu afilhado, que me tinha desafiado para isso. Ele seguramente certificará a saborosa ocorrência.
Praticamente à entrada, ali ao pé da loja do Pingo Doce, quando nos preparávamos para subir ao segundo andar, reconheci o Vítor a vir na nossa direcção. 
O Vítor vinha com a esposa de um lado e o filho do outro. Velho Traquina (1) - muito traquina mesmo! -, depois de celebrarmos, com um valente abraço, e muito alegremente o encontro, voltou-se para o filho e falou assim com ele: "Lembras-te de eu te falar dum senhor e das viagens e passeios que eu fiz com ele?" E enumerou alguns desses passeios e aventuras. Sim, o filho, ao mesmo tempo que acenava afirmativamente com a cabeça, olhava para tirar as medidas àquele sujeito que, até agora, fora, na sua mente, apenas um fantasioso personagem de memórias gratas do seu pai, do tempo em que o pai tinha a idade que ele tem agora.
E pronto, Marco, é só isto... Mas neste tão pouco há tanto! Há muito mesmo, como tu certamente compreenderás. É claro que imaginas que bem me senti ao ouvir o Vítor e ao ver os olhos do miúdo assim pregados em mim.
É um bem saboroso privilégio este de fazer parte da história do desenvolvimento pessoal de alguém e vermo-nos a fazer parte do que parece ser conversas em casa, em que, pelo simples desfiar de lembranças, conversas de falar de si mesmos, os pais educam os filhos no aconchegante ambiente do lar, em família. É que esta é, muito provavelmente, a mais impressiva forma de educação, na linha do que dizia o meu mestre João dos Santos: "Educar é oferecer-nos como modelos".
Marco, gostei muito de te reencontrar hoje! Que belo abraço! Estás feito um belo moço! (Será do "tratamento" de lama que andas a fazer? ;-) )
Vítor, obrigadinho pela dádiva que me trouxeste hoje! Continuas com o teu tão radioso - e bem maroto! - sorriso.
João, terás consciência que foste o autor deste precioso momento?  Sem o teu convite para jantar o que aconteceu ainda agora estaria por acontecer.
Puto Oliveira, desculpa-me não me lembrar do teu nome! :-/ Tu és a fascinante criança renascida, geração após geração - como o teu pai foi um dia; ele e a tua mãe; a criança que justifica tudo o que fazemos quando nos entregamos à educação das crianças. Por ti e por todas as crianças tudo vale a pena! Grande abraço! E que a gente um dia se encontre numa aventura que depois te apeteça contar aos teus filhos; e aos teus pais, se eles não forem também connosco.

(1) Associado da associação juvenil Os Traquinas da Boa Vida.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

QUE PEQUENO ACASO TÃO SABOROSO !...

QUE PEQUENO ACASO TÃO SABOROSO !...

                Há pouco mais de um ano, de boa-fé, pedi amizade no Facebook a um muito dinâmico músico, que tinha conhecido dias antes, em Miranda do Douro, que colaborou muito empenhadamente num serão musical para os alunos que, com outros colegas professores, levei de Lisboa às terras da Língua Mirandesa. O serão aconteceu no centro de juventude do Barrocal do Douro.
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                Ora bem, aconteceu que me enganei… O Pedro a quem pedi amizade não era o Pedro que conheci no Barrocal do Douro. Para além de alguma semelhança física, tratava-se também de um artista musical notável. Com a mesma boa-fé, e muito simpaticamente, o Pedro a quem pedi amizade – e que vive em Dublin, na Irlanda -, aceitou imediatamente o meu pedido.
                Depois de ver o seu mural, descobri o meu erro e logo escrevi ao meu novo amigo Facebookiano: «Olá, Pedro! Pedi-te amizade porque te confundi com o Pedro Almeida, da Associação Lérias. Mas, depois do que vi no teu mural, tenho todo o gosto em continuar teu amigo no Facebook! Um abraço!» E o Pedro, boamente, continuou a ser meu amigo no Facebook. Isto passou-se em Abril do ano passado.
                Hoje caminhei para o Cais do Sodré, como faço regularmente às quartas-feiras; só que, contrariando a escolha habitual do estabelecimento para me encontrar com o meu habitual interlocutor, fui para outro. Hoje eu precisava de um estabelecimento que tivesse acesso livre à Internet. Entrei no primeiro que encontrei, mas mesmo no primeiro!
                Assim que entro, vejo o Pedro – de Dublin! - a dirigir-se à saída do estabelecimento!... Reconheci-o imediatamente e percebi logo que ele também me tinha reconhecido; aliás, penso que a iniciativa do muito cordial aperto de mão foi dele, não minha. Tivemos uma breve troca de palavras, ele regressa amanhã à Irlanda!
                Deixei-lhe um repto para o próximo ano lectivo, para colaborar com as minhas aulas de Psicologia. Aceitou imediatamente! É mesmo um rapaz às direitas!!!
                Gente boa, senhores! É verdade, o Pedro faz jus ao que pensamos da gente boa!
                Que sorriso cordial ele fez quando me viu!
                Felizes circunstâncias: do Facebook ao encontro pessoal directo, com erros e acasos, boa-fé e humor a tecerem a história deste tão singelo relacionamento pessoal.

                Grande abraço, Pedro! Desejo-te todos os sucessos na arte que, pelo que tenho visto, tanto te apaixona e tanto pede de ti!

domingo, 31 de maio de 2015

AS AVÓS, O DR. JOÃO DOS SANTOS E A TERRA DO NUNCA

Psicologia - Frase da semana, 31MAI15: AS AVÓS, O DR. JOÃO DOS SANTOS E A TERRA DO NUNCA


"A casa da avó devia ser sempre a gruta dos mistérios – e não a extensão do ATL.
Aqui há dias, ao dar banho à minha neta mais pequenina, oiço-a exclamar:
Alice Vieira
– Avó, o teu champô cheira a morango!
Perguntei-lhe a que cheirava o champô dela, em casa dos pais.
Muito séria, respondeu:
– Avó, em minha casa, cheira tudo a normal.
A casa da avó deveria ser sempre a “anormalidade”, no sentido mágico da palavra: o lugar onde há lobos por entre os cortinados, onde terríveis piratas se escondem na chaminé da sala, onde as coisas têm cheiros estranhos, onde o passado ataca nas páginas dos velhos álbuns de fotografias, onde há sempre um ombro disponível para uma crise de choro adolescente.
Infelizmente, em tempos de crise e desemprego, as coisas nem sempre são o que gostaríamos que fossem – e às vezes a casa da avó é a creche que não se pode pagar… Mas isso é outro assunto.
Seja como for, é evidente que as avós são essenciais. Recordo sempre o professor João dos Santos quando dizia:
“Uma criança não pode viver sem uma avó e sem uma aldeia. Se as não tiver, é preciso inventá-las.”
Na minha infância, de poucos afectos, tive de inventar ambas."
Alice Vieira, "O livro da avó Alice", Lua de Papel, 2011, pp. 15-16.

Um texto que os meus alunos de Psicologia B entenderão de forma, já que:

  1. Toca a essência da aprendizagem e da avaliação - os trabalhos monográficos.
  2. Dá testemunho da espantosa lógica-inteligência-criatividade das crianças.
  3. Cita o meu mestre João dos Santos.
  4. Mostra, na avó e na aldeia que a escritora Alice Vieira inventou, que a ideia da Terra do Nunca é mais comum do que poderíamos pensar; e tem uma capacidade tremenda de ajudar a que pessoas sofridas cheguem ao Bem-Estar pessoal, e o espalhem também à sua volta.

domingo, 28 de setembro de 2014

A importância de andar à procura de nada – parte 2/2

A importância de andar à procura de nada – parte 2/2

Domingo, 28 de Setembro de 2014.

Como disse na primeira parte, passei a sair aos domingos, com frequência, à procura de nada. No mesmo domingo – este - em que reencontrei dois velhos amigos no Vasco da Gama, do nada surgiram mais duas ocorrências significativas. Um pouco mais tarde, a várias estações de Metro de distância.

Do Vasco da Gama fui ao Chiado, a pensar nos livros da rua ali ao lado da Bertrand, as promoções da FNAC, e as novidades da velha Sá da Costa.


A Sá da Costa azafama-se em limpezas dos velhos móveis e dos velhos livros. Hesito; sim, estava mesmo aberta, mas com as limpezas a decorrer, pediram-me paciência. Encontrei rapidamente dois livros interessantíssimos, de folhas por abrir a preços também interessantíssimos; não saíram mais das minhas mãos. Pedi finalmente o que vira na montra, antes de entrar, e me convencera a passar a porta para dentro. Como calculava, era bastante caro; caro para além do que o orçamento mensal para livros do mês me permite. O senhor que me atendeu, funcionário, ouviu o meu pedido de reserva, por um mês; ouviu e calou-se. Chamou o patrão, que estava lá ao fundo da sala; enquanto ele se aproximava, eu tentei logo moldar-lhe a vontade. Não foi difícil, o bom homem aceitou imediatamente.

Enquanto o funcionário preenchia a ficha de reserva, reparei que ele escrevia os números, ora de baixo para cima, ora de cima para baixo. Aparentava 40 anos. Eu não podia deixar passar aquele comportamento inusitado em claro. Acabámos por conversar abertamente, o senhor ficou sensibilizado com a minha capacidade de observação. Tinha de haver história!... E ela veio, enquanto mais nenhum cliente da loja se chegasse ali para perguntar alguma coisa, ou finalizar qualquer compra. Era um esquerdino contrariado desde sempre, desde muito pequeno - contrariado à velha dura maneira. Tentou equilibrar-se numa ambidextria de compromisso entre a natureza espontânea dos gestos e exigência lamentável da escolarização. A criativa ambidextria tem sido eficaz numas vezes, outras vezes não tem sido tão bem sucedida. A idade? 42 anos, sim, eu estava perto. Perguntei-lhe, já à pressa – o tal cliente acabava de chegar ali ao pé de nós, que já só conversávamos, com tudo dos livros já tratado -, se estaria disponível para ser abordado por um aluno meu, para um trabalho monográfico de Psicologia. Disse-me logo que sim. Tomei nota do nome do senhor, agradeci-lhe e saí dali para a Bertrand.

Na Bertrand, e depois na FNAC, nada de especial a assinalar. Voltei ao Metro, a caminho de casa.

Na estação da Alameda, faço o transbordo necessário da linha Verde para a Vermelha. Já no cais desta linha, pego num dos livros que comprei e, ainda não tinha folheado a primeira página sequer, já alguém me tocava no ombro esquerdo, por trás de mim. Volto-me de deparo-me com um bem radioso sorriso. Um aluno de há dois anos - ao que me pareceu, ali acompanhado pela namorada – fez questão de me abraçar e conversar um pouco comigo. Está bem, entusiasmado e confiante no seu projecto universitário. E perguntou-me pelas aulas, ele sabe como eu tento que as aulas sejam sempre. Soube-me bem o carinho que ele me demonstrou ali. A confirmar-me que estou no bom caminho; no caminho de bem ser e bem estar na escola. E, se calhar, na vida…

A composição do metropolitano que me levaria a Chelas já chegava àquele cais e quem estava com o meu querido aluno certamente já o reclamava para ao pé de si.

Manhã de nada, encheu-se de gente e afectos – acontecidos sem serem procurados, mas, todos eles!, com claros sinais de acontecerem empenhadamente.

(fim de “A importância de andar à procura de nada”)

Sobre a importância de andar à procura de nada – parte 1/2

Sobre a importância de andar à procura de nada – parte 1/2

Passei a sair aos domingos, com frequência, à procura de nada. Normalmente, faço-o de manhã. Não tenho crianças que me obriguem a dedicar-me a elas na manhã do dia santo da semana. Com o meu pai, no meu tempo, não sei se me aborreceria com ele se ele não dedicasse as suas manhãs de domingo aos filhos pequenos. E ele sempre o fez com evidente prazer.

A “culpa” da minha recente ocupação domingueira é das chamadas ""grandes superfícies" comerciais. Em vez de ir intencionalmente a uma exposição ou a um evento, vou ao Continente do Vasco da Gama, ou vou os Pingo Doce do Spacio dos Olivais, à procura de nada. A competição pelos clientes traz, por vezes, nas grandes superfícies comerciais, preços muito atractivos de comidas, bebidas, roupas, coisas para a casa, livros, etc.

Então, é assim: não tenho nada para comprar, mas vou à grande superfície, pode ser que encontre lá alguma coisa interessante a bom preço. Por exemplo, na semana passada encontrei um livro, que eu não sabia sequer que existia, a 5 euros! Folheei… revirei a capa, e nela encontrei uma apreciação muito breve, em uma linha só, do professor Marcelo Rebelo de Sousa; voltei a folhear, e conclui que a apreciação do professor Marcelo Rebelo de Sousa é mesmo muito pobre, parece-me ser feita a despachar, por boa educação.

Volto para casa, e começo logo a leitura do livro no Metro. Eh, pá!... O livro é mesmo muito bom, constato eu logo ao final do dia! 2 ou 3 dias depois, volto ao Continente do Vasco da Gama. Restavam lá 4 exemplares, ainda a 5 euros cada um, trouxe-os todos comigo. Todos eles terão dono.

Hoje tornei ao Continente, à mesma banca dos livros a 5 euros – já nenhum para venda; talvez amanhã, a partir do final da tarde, haja reposição, diz-me solicitamente uma funcionária. Agradeci a informação e vim de lá não trazendo nada, nem da secção dos livros, de qualquer outra secção da grande superfície. Mas estou decidido a voltar ao Continente amanhã ao final da tarde.

Quando me vinha embora, já de lado de fora da grande loja, reparo que um velho colega de trabalho, e amigo, estava a acabar de pôr nos sacos as compras; a mulher estava com ele. Afastei-me discretamente, para não ser por ele reconhecido, e disposto a meter-me com ele, de surpresa. Depois de um grande rodeio, cheguei-me por trás dele e tirei-lhe do carro dois sacos de compras sem o deixar ver-me a cara e afastei-me. Ouvi-o a balbuciar qualquer coisa, e antes que ele viesse atrás de mim e me desse algum tabefe, voltei-me para trás e devolvi-lhe os sacos.

Risos, abraços, e conversa em dia; depois, cada um para seu lado. Já a chegar à zona da Gare do Oriente, lamentei-me de não lhe pedir o email ou o número de telemóvel, para actualizar o contacto. Ainda não tinha acabado a auto-censura, já me cruzava com outro velho amigo que não via há bastante tempo. Mais risos e abraços, e conversámos sobre outro velho amigo comum, que foi há pouco tempo trabalhar para Londres.

Enquanto estava à conversa com o segundo amigo reencontrado, vi vir na direcção da Gare o amigo do primeiro encontro, que, antes, quando nos despedimos, tinha tomado o caminho oposto ao meu. Vinha mesmo a ver se ainda me encontrava, para trocarmos contactos actuais!

É assim que pode acontecer quando não se pensa demasiadamente: sai-se de casa por nada, à procura de um hipotético preço mais baixo e volta-se para casa com coisas que valem muito e não têm preço.

(fim de “A importância de andar à procura de nada – parte 1/2; depois virá a parte 2/2)

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Sophia de Mello Breyner Andresen e a ideia de deus

Mais do que lamentar terem levado Sophia para o Panteão Nacional, lamento a própria ideia de Panteão, e nem é tanto pelos que lá se põem: todos eles - mas todos mesmo! - são de opção discutível. São, os "heróis" que lá estão, sempre, produtos de valorizações circunstanciais - mesmo os mais consensuais. Muito mais pelos que lá se põem, trata-se da segura injustiça que se comete sobre os que lá não se põem e poderiam ter acesso a ele. Por isso, por mim, abaixo com a ideia de Panteão! Aos mortos que lá estão desejo o sossego que o que resta fisicamente e espiritualmente das pessoas que foram merece. Que tenham o respeitoso e carinhoso descanso que todo o ser que foi vivo merece - voltar à terra de onde veio.
Na interrogação teológica essencial que, se calhar, um dia todos nos pomos a nós mesmos, Sophia um dia escreveu assim:

Escuto mas não sei
Se o que ouço é silêncio
Ou deus
Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita
Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco

Mas que belo poema!

terça-feira, 1 de julho de 2014

Como podemos viver sem sonhos?...

http://vimeo.com/66331618
Nos campos de refugiados palestinianos há um rapazinho que tem um sonho: ver o Mediterrâneo. Os israelitas não deixam.
"O meu país é um sonho. Como podemos viver sem sonhos?... Chamo-me Tamer e tenho 11 anos. O meu sonho é ir ver o Mediterrâneo."
O pai de Tamer tenta educar o filho nos princípios da tolerância. Tem medo que ele um dia possa tornar-se num mártir. Quando mais uma vez os israelitas lhe negam a autorização para ir ver o mar, o pai desabafa:
- "Eu não quero destruir Israel, eu não quero destruir a América, eu não quero matar, eu só quero ir ver o Mediterrâneo..."
Acabei de ver na TVI24 um extraordinário documentário titulado "Nasci refugiado". Foi de lá que tirei o pequeno excerto.
Há poucas horas, o companheiro com quem eu tinha acabado de partilhar, já de tarde, uma incursão em livros amontoados, tornados de segunda ou terceira importância, trouxe para o seu mural no Facebook a fotografia de uma página de livro em que destaca a afirmação "As guerras começam no coração dos homens".
Lembrei-me da liberdade de um outro rapazinho, tuaregue, que um dia perguntou ao seu pai: "Pai, como é o mar?..."
Escrevi, há pouco mais de um ano, um pequeno apontamento sobre esta outra criança aqui.

domingo, 29 de junho de 2014

Segunda história – À procura do meu avô, encontrei-o e encontrei um pouco mais da minha família. E tomei contacto com outra vida – notável!...

Andei cem metros. E quantas histórias encontrei?...
           
27 de Junho de 2014, sexta-feira. Ali perto da Praça da Armada (em Lisboa).
Segunda história – À procura do meu avô, encontrei-o e encontrei um pouco mais da minha família. E tomei contacto com outra vida – notável!...
A edição da "Ilustração Portuguesa" é
de 19 de Março de 1917. O registo oficial
do meu avô no C.E.P. é de 14 de Março
desse ano. Não mostrando a fotografia
o meu avô, mostra como ele
foi para França, para a Flandres.
A coisa começou por não correr bem. Entrei no Arquivo Histórico da Gê-éne-érre. As escadas são rijas de subir, desagradáveis… A chegar à porta, ansiosamente olhando se os serviços já estariam abertos ou não, sai um sujeito jovem que, assim que me vê, decide ficar à espera que eu vença os últimos degraus e segura-me a porta aberta. Apresso o passo, passo desagradável porque esforçado, agradeço ao jovem tão simpaticamente quanto posso, e entro. Nitidamente, à esquerda, o Arquivo e à direita a Biblioteca; não vejo ninguém, está tudo escuro; chamo por alguém, é um acolhimento que desperta incómodo, redobro a atenção e o cuidado. Finalmente aparece alguém, traz cara de que eu estou onde não devia estar. Cumprimenta-me e pergunta-me o que quero. “Se calhar, entrei antes de tempo… O senhor desculpe-me, mas foram tão simpáticos a segurar a porta e a deixarem-me entrar que eu pensei que os serviços estivessem já abertos, se quiser, eu saio e entro depois à hora de abrir..." ”Não faz mal… já que já cá está, entre, venha comigo aqui para este lado…”
Dali a pouco tempo este senhor iria trazer-me boas notícias, mas por esta altura eu estou um pouco tenso e ainda antes das boas notícias vou ficar angustiado. Tenso porque não gosto de ser apanhado em incumprimento por quem não me conhece, não quero que pensem que sou desrespeitador ou que me sinto mais importante que os outros; angustiado porque o senhor que eu segui demorou muito tempo a trazer-me aquilo que eu queria, eu já temia que, afinal, não iria ter acesso às informações sobre o meu avô.
Foi crucial, para que as coisas corressem bem, a fotografia que tirei no Arquivo Geral do Exército da ficha que é o rasto que o processo do avô Branco lá deixou … O sargento-ajudante que cuidou do meu pedido no velho Convento de São Félix avisou-me que, com a mudança de Arquivo (do Exército para a G.N.R.) poderia não ser fácil encontrar o processo que eu procurava. Foi pensamento que o senhor cabo Pinto Alves me confirmou: “O senhor fez bem em trazer essa informação, se não nos dissesse em que caixa estava, a gente não sabia onde procurar…” Mesmo assim, enquanto esperei, sentado na cadeira que ele me indicou, ali ao pé da sua secretária, o meu nervosismo aumentou. Percebi que o senhor procurava mas não encontrava; e naquela altura ainda não me tinha apercebido se o senhor se ocupava comigo com razoável disponibilidade ou contrariado… Aquela minha entrada antes da hora de abertura ao público talvez o tivesse irritado e prejudicado a disponibilidade em me ajudar.
Finalmente o senhor chegou ao pé de mim. Sim, trazia um pequeno dossier nas mãos! Pediu-me que confirmasse se era aquela pessoa que eu queria. Verifiquei alguns papéis, Sim, era aquele!
O senhor Pinto Alves pediu-me, então, que me identificasse e preenchesse uma ficha para registos de consultas. Foi provavelmente nesta altura que a cordialidade se soltou definitivamente e sobre uma história – o acesso ao registo oficial da vida do avô Branco há cem anos atrás – aconteceu outra história; e é esta história que insinuo agora neste texto. Noutra história, a publicar depois aqui no blogue, contarei a experiência de acesso aos dados da vida do meu avô.
Não, não me podiam dar cópia de todos os documentos do processo; as fotocópias não se pagam – por enquanto! -, por isso eu poderia escolher 2 ou 3 documentos para fotocopiar, mas todos não era possível.
Pedi uma mesa para ver os documentos, lê-los e tomar notas. Foi com emoção que olhei a fotografia, em sépia, do avô Branco fardado! Penso que nunca tinha visto aquela fotografia.
Por razões que nunca sabemos exactamente o que as determina, aconteceu que antes de dar satisfação à ânsia de consultar os documentos do meu avô me vi à conversa com quem sentia ter-se transformado, naquele momento, num muito cordial e disponível anfitrião do Arquivo Histórico. Aos poucos, o meu interlocutor foi desfiando apontamentos de uma vida cheia de histórias que enriquecem o património da diversidade da experiência humana.
A certa altura dou-me conta de estar a pensar que o acesso às informações – tão desejadas! – sobre o meu avô estava garantido e que o essencial da descoberta do dia também estava garantido. Saboreei a consciência de que ali poderia voltar noutra altura. O momento que estava ali a acontecer – a conversa com o cabo Pinto Alves – era, em si, um tesouro que valia a pena fruir; e poderia não voltar a haver outra oportunidade como esta .
Momentos de infância, de sonho de jovem empenhado na construção do seu futuro, as reacções pessoais aos acontecimentos impostos pela vida, a marca do 25 de Abril; a família, os filhos e as traições da saúde. A valorização académica e profissional; e as opções pessoais inevitáveis. O futuro. Sim, o futuro ainda é muito amplo e proporcionador de muitas oportunidades.
“Senhor Pinto Alves, espero bem que depois das férias, no próximo ano escolar, se concretize a oportunidade de um dos meus alunos o ter como sujeito do seu trabalho monográfico. Pessoalmente, vou empenhar-me nisso.”
Por isso eu disse que agora apenas "insinuaria" a história: o desenvolvimento que ela merece, se tudo correr bem, acontecerá a partir de Setembro, na forma de um trabalho monográfico de um aluno de Psicologia da Escola Secundária Eça de Queirós.

sábado, 28 de junho de 2014

Primeira história – Atraído Por Velhos Grãos De Café

Andei cem metros. E quantas histórias encontrei?...

27 de Junho de 2014, sexta-feira. Ali perto da Praça da Armada (em Lisboa).

Primeira história – Atraído Por Velhos Grãos De Café

Sinalizada com um discreto rectângulo vermelho
está a casa dos meus avós em Abrantes
Fui ao Arquivo Histórico da G.N.R. Fui à procura da história do meu avô Branco na Primeira Grande Guerra. (1)
Foi fácil arrumar o carro, quer dizer, ali, naquela zona de Alcântara, foi milagre! Em rua de lojas velhas, entrei, por curiosidade, num pequeno café que apresentava, na montra, café para venda, modesto café em grão, sem o artificialismo das modernas lojas que sofisticam a aparência para parecer que o industrial é tradicional. A montra misturava o modesto café com tradicionais rebuçados para a tosse; o que me fez redobrar a vontade para entrar. Pedi um café. O dono, conversava com um cliente, claramente um cliente habitual; e tossia, sem parar de tossir. Puxei de força na voz e interrompi a conversa: “O senhor desculpe-me, mas acha bem o que está a fazer?... A tossir dessa maneira com tantos rebuçados para a tosse para vender?... E depois quer que os clientes os comprem, homessa!...” Os dois senhores interromperam a conversa. O dono do estabelecimento ficou feito estátua com o manípulo da máquina do café na mão – ainda por cima, era o meu café! -; e eu fiquei a olhar para ele, sem o deixar adivinhar se estava sério ou a brincar. “Olhe, disse-me ele, a apontar-me o indicador da mão que tinha livre, a tosse desapareceu!... O senhor tem razão!...” E desatámo-nos os três a rir. E lá veio o café, acompanhado com um saborosíssimo pau de canela.
“O senhor é de Abrantes?” perguntei eu, a seguir, ao senhor. “Não, sou mais para cima… bem mais lá para cima, Viseu… São Pedro do Sul…” “Mas é mesmo de São Pedro do Sul?...” perguntou o cliente habitual. “Não, sou da Aldeia de Sul, estou é cá há muitos anos… Lá há muita água boa para as tosses… e há muitos géneros de águas”, disse-me o senhor, rindo-se, e fazendo, com muita cumplicidade, o gesto de emborcar o vermelho néctar com o indicador a apontar-se à boca. O cliente habitual e eu rimo-nos também. “Perguntei-lhe se era de Abrantes porque estes bolos todos que aqui tem são, todos eles, iguais aos que a minha mãe fazia em Abrantes, este… este… este… são todos!” “Ah, não!... Os bolos não são de Abrantes, nem são de Viseu; os bolos vêm do Alentejo, são de Pias.” “Olhe, se tudo correr bem, daqui a dias ainda venho cá buscar alguns para irem até aos Açores…”
Se calhar, estas conversas são coisas de nada. Só que quando cheguei pouco depois ao Arquivo Histórico da Guarda Nacional Republicana e o senhor que me atendeu depois abundantemente me falou da vida que fez em Portalegre, no “mundo rural” (repetiu várias vezes esta expressão), em Pegões; e, sobretudo, quando me disse, a propósito da afinidade dos nossos apelidos – eu, Alves Pinto; e ele, Pinto Alves – que "era de cima de Viseu, lá para Bragança", eu pensei que haveria ensejo para uma primeira história e uma segunda história – que irei contar noutro texto.
As duas histórias juntas abrem justificação para a terceira, que encontrei quando saída desse imenso Mundo de menos de cem metros! Nos interstícios, ainda passei por marcas da minha terra numa loja de antiguidades e de lá peguei a colecção dos 10 sábios chineses. Do outro lado da rua, num velho alfarrabista, peguei, tirado do pó com muito esforço, um exemplar dos livros que a minha mãe devorava. “Eu sei que é literatura de cordel, mas eu gostava tanto de os ler, o que queres tu que eu faça?...” disse-me ela ainda há bem pouco. O senhor que procurou, procurou, procurou um livro da autora que eu procurava - Corin Tellado - não me deu o livro sem que antes lhe limpasse bem o pó. Sempre com muita dedicação e cordialidade, no fim pediu-me setenta e cinco cêntimos. Ainda pensei em dar-lhe um euro pelo livro, mas tive medo que se sentisse desrespeitado. Fiz questão de lhe dizer que o livro ia dar uma alegria muito grande a uma senhora que, quando nova, tinha lido muitos outros daquela autora; e disse-lhe que lhe falaria do senhor que me tinha ajudado tanto a encontrar o livro.
Ah, a terceira história! É de um senhor - o senhor Bernardo - que me “ataca” retorquindo à minha provocação: “Olhe, o senhor pode achar que não são bons, mas há pelo menos cinquenta e três anos que eu os vendo aqui e as pessoas não se queixam…” Mas, pronto, essa é só mesmo a terceira história. Que se fixa ao pé das outras pelo contraponto que delas faz.
________________________
(1) Curiosamente, há uma densidade de ocorrências na vida do meu avô à volta dos dias 26, 27 e 28 de Junho. Por exemplo, meu avô nasceu a 26 de Junho; a Guerra começou a 28; há um registo (aparentemente contendo um erro), na sua Folha de Matrícula da G.N.R., de uma licença a 28 de Junho de 1917. Enfim... Que fique claro, não sou sensível a explicações místicas destas "coincidências"; ou simplesmente coincidências (sem aspas), como se queira.

domingo, 30 de março de 2014

"Os três «imortais» princípios da educação"

Psicologia - Frase da semana, 31mar14, "Os três «imortais» princípios da educação"



Segundo Cícero, os três princípios da Educação tradicional romana eram os seguintes: gravitas, pietas, simplicitas.
  • Gravitas representava o sentido da responsabilidade;
  • Pietas funcionava como o vínculo, por excelência, que ligava o homem romano: aos deuses, aos membros da sua família - vivos e mortos -, e à Cidade.
  • Simplicitas devia incutir o sentido do valor autêntico de cada pessoa e de cada coisa.


"«Imortais» chamámos aos princípios que Cícero nos transmitiu como constitutivos básicos da formação dos seus compatriotas. E não o serão, de facto? Não representarão eles valores permanentes, na sua essência, uma vez despojados, na medida em que isso é possível, das circunstancialidades de tempo e de espaço? Embora formulados numa sociedade «arcaica», não serão eles aptos - uma vez mais, na sua essência - a formar homens, que o sejam, na verdade, pertencentes a uma sociedade industrial?"
Estas interrogações - provavelmente, mais atuais que nunca -, encontramo-las deixadas pelo padre Manuel Antunes, em 30 de julho de 1970.
(padre Manuel Antunes, Obra Completa, tomo II, Paideia e Sociedade, 2.ª ed., 2008. F.C.G., p. 105-106.)
________________________
"Behind such heroines were the nameless wives whose marital fidelity and maternal sacrifices sustained the whole structure of Roman life. The old Roman virtues — pietas, gravitas, simplicitas — the mutual devotion of parents and children, a sober sense of responsibility, an avoidance of extravagance or display—still survived in Roman homes."
(Will Durant, Caesar and Christ, 2011)

domingo, 9 de março de 2014

"Qual a origem do sucesso da espécie humana?"

 Psicologia - Frase da semana, 09mar14, "Qual a origem do sucesso da espécie humana?"


http://sociedadedospoetasamigos.blogspot.pt/
2012/11/mia-couto-professorbiologopoeta-e.html
Qual a origem do sucesso da espécie humana?
Mia Couto, tendo em mente o terreno da sua nacionalidade - Moçambique - afirma:
"(...) Essa habilidade em produzir diversidade, esse é o segredo da nossa vitalidade e das nossas artes de sobrevivência. (...)"

Um texto extraordinário a falar-nos de identidade e alteridade; discriminação e exclusão; estereótipos e preconceitos; criar, viver e morrer. Ser em harmonia com todas as formas e manifestações de vida.
´
POR UM MUNDO ESCULTURADO
(Mia Couto, Pensatempos, 2005, pp. 155-7)
Não existe alternativa: a globalização começou com o primeiro homem. O primeiro homem (se é que alguma vez existiu «um primeiro» homem) era já a humanidade inteira.
Essa humanidade produziu infinitas respostas adaptativas. O que podemos fazer, nos dias de hoje, é responder à globalização desumanizante com outra globalização, feita à nossa maneira e com os nossos propósitos. Não tanto para contrapor. Mas para criar um mundo plural em que todos possam mundializar e ser mundializados. Sem hegemonia, sem dominação. Um mundo que escuta as vozes diversas, em que todos são, em simultâneo, centro e periferia.
Só há um caminho. Que não é o da imposição. Mas o da sedução. Os outros necessitam conhecer-nos. Porque até aqui «eles» conhecem uma miragem. O nosso retrato - o retrato feito pelos «outros» - foi produzido pela sedimentação de estereótipos. Pior do que a ignorância é essa presunção de saber. O que se globalizou foi, antes de mais, essa ignorância disfarçada de arrogância. Não é o rosto mas a máscara que se veicula no retrato.
A questão é, portanto, a de um outro conhecimento. Se os outros nos conhecerem, se escutarem a nossa voz e, sobretudo, se encontrarem nessa descoberta um motivo de prazer, só então estaremos criando esse território da diversidade e da particularidade.
O problema parece ser que o de que nós próprios – os do Terceiro Mundo – nos conhecemos mal. Mais grave ainda: muitos de nós nos olhamos com os olhos dos outros. Um velho ditado africano avisa: não necessitamos de espelho para olhar o que trazemos no pulso. A visão que temos da nossa História e das nossas dinâmicas não foi por nós construída. Não é nossa. Pedimos emprestado aos outros a lógica que levou à nossa própria exclusão e à mistificação de nosso mundo periférico. Temos de aprender a pensar e a sentir de acordo com uma racionalidade que seja nossa e que exprima a nossa individualidade.
Fomos empurrados para definir aquilo que se chamam «identidades». Deram-nos para isso um espelho viciado. Só parece refletir a “nossa” 'imagem porque o nosso olhar foi educado identificarmo-nos de uma certa maneira. O espelho deforma o que temos amarrado no pulso. Pior que isso: amarra-nos o pulso. E aprisiona o olhar. Onde deveríamos ver dinâmicas vislumbramos essências, onde deveríamos descobrir processos apenas notamos imobilidades.
Em vez de tirarmos proveito das mestiçagens que historicamente fomos produzindo, contentámo-nos com essa ilusão estéril que é a procura de identidades «puras». Trocamos um namoro produtivo por uma cruzada infecunda. Em nome da ciência se esqueceram outras sabedorias, outras aproximações. A ciência se foi convertendo em algo muito pouco científico, uma acomodada certificação daquilo que se pensa ser a «realidade». Perdeu-se inquietação, arrojo e, sobretudo, perdeu-se a disponibilidade para experimentar outras vias de conhecimento.
No que este projeto deste grupo de cientistas sociais acredita é na possibilidade de uma ciência plural que aceite outros caminhos para se chegar a algo que deve ser entendido sempre de modo relacional e contextual – a verdade. Para isso, é preciso que nos deixemos encantar com a descoberta que fizermos das nossas próprias realidades em movimento.
Sou biólogo por formação. Os que estudam a evolução da nossa espécie sabem que não foi exatamente a inteligência que nos fez resistir à extinção. A glorificação do saber que se consagrou na forma como a nós mesmos nos designamos enquanto espécie traduz apenas uma parte da verdade.
A capacidade de produzir diversidade genética foi, sim, a caraterística humana que mais e melhor nos permitiu sobreviver. O sermos suficientemente diferentes entre nós mesmos (e as diferenças de uma para outra geração) ofereceu à evolução um leque de escolhas genéticas e produziu respostas adaptativas suficientemente diversas para que a Vida pudesse sempre escolher. Demos essa liberdade à Vida.
Essa habilidade em produzir diversidade, esse é o segredo da nossa vitalidade e das nossas artes de sobrevivência. Temos que saber manter essa capacidade – agora no plano cultural e civilizacional – para respondermos às novas ameaças que sobre todos nós pesam. As saídas que nos restam pedem-nos não o olhar do lince mas o olhar composto da mosca.
(Texto para o livro Moçambique e a Reinvenção da Emancipação Social, organizado por Boaventura Sousa Santos e Teresa Cruz e Silva, e publicado pelo Centro de Formação Jurídica e Judiciária, Maputo, março de 2005)




terça-feira, 3 de setembro de 2013

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Esta história, que peguei do mural do Facebook do meu velho amigo e companheiro Passarinho Brunheta é, muito provavelmente, uma ficção, como se fosse uma parábola.
Acontece que, sendo-o ou não, tem muito a ver com o espírito assertivo e ativo que a minha irmã, a Fátima Pinto, quis imprimir durante o seu mandato à frente da Associação de Pais da ESMA, na Horta, no Faial.
Por isso - e também porque a acho muito oportuna para o início de um ano escolar - reproduzo-a aqui, com algumas correções linguísticas e ajustamentos literários que tomo a liberdade de considerar pertinentes.
Um abraço de agradecimento ao Brunheta, e um beijinho de renovados parabéns à minha mana pelo trabalho muito interessante que fez à frente da sua associação de pais.

- PAI, MÃE: ACORDAI ENQUANTO TENDES TEMPO!

LEIAM ESTE TEXTO COM MUITA ATENÇÃO!!!


      - Era quarta-feira, 08H00 . Cheguei a tempo à escola do meu filho. «Não se esqueçam de vir à reunião de amanhã, é obrigatória», foi o que a professora tinha dito no dia anterior. - “Que é o que essa professora pensa? Acha que podemos dispor facilmente do tempo que ela diz? Se ela soubesse quanto era importante a reunião que eu tinha às 8h30!...” Dela dependia uma boa negociação... e tive que cancelá-la!
      Lá estávamos nós - mães e pais; e a professora. Começou a tempo, agradeceu nossa presença e começou a falar. Não lembro o que ela dizia, a minha cabeça estava pensando em como iria resolver esse negócio tão importante, já me imaginava comprando aquela série de coisas, o dinheiro não seria problema.
      - “João Rodrigues!” – escutei ao longe – “Não está o pai de João?” – diz a professora.
      - “Sim, estou aqui.” – contestei, indo para receber o boletim escolar do meu filho.
      Voltei p'ró meu lugar e disse ao abrir o boletim: -“Foi para isto que eu vim?... Que é isto?...” O boletim estava cheio de seis e setes. Guardei rapidamente o boletim, para que ninguém pudesse ver como tinha se saído o meu filho.
      De volta para casa, aumentava ainda mais minha raiva, cada vez que pensava: - “Mas, se eu lhe dou tudo o que ele quer e mais o que não quer, não tem faltando nada!..." Agora é que ele ia ver como era! Cheguei, entrei a casa, fechei a porta de uma batida e gritei: “Vem aqui, João!”
      O João estava no quintal, veio logo, correndo para abraçar-me. - “Pai!” 
       "Nada de pai, nem meio pai!” e afastei-o logo de mim. Tirei o meu cinturão e não lembro quantas vezes bati ao mesmo tempo em que lhe dizia o que pensava dele. Quando me cansei, gritei-lhe: - “Agora vai para o teu quarto!” O João foi, chorando desconsoladamente, a cara toda vermelha, toda a boca lhe tremia. Só nessa altura a minha esposa se chegou a mim. Não me disse nada, só mexeu a cabeça num gesto de desaprovação e voltou para a cozinha.
      Quando fui para a cama, já mais tranquilo, a minha querida esposa entregou-me o boletim do João, que tinha ficado dentro do meu casaco, e disse-me: - “Lê devagar, tudo, e depois pensa no que vais fazer...”

      Bem no começo estava escrito: 'BOLETIM DO PAI'.

  1. Pelo tempo que o teu pai dedica a conversar contigo antes de dormir: 6
  2. Pelo tempo que o teu pai dedica a brincar contigo durante o dia: 6
  3. Pelo tempo que o teu pai dedica a ajudar-te nos trabalhos de casa: 6
  4. Pelo tempo que o teu pai dedica a levar-te a dar um passeio com a família: 7
  5. Pelo tempo que o teu pai dedica a ler-te um livro antes de dormir antes de adormeceres: 6
  6. Pelo tempo que o teu pai dedica a abraçar-te e a beijar-te: 6
  7. Pelo tempo que o teu pai dedica a ver televisão contigo: 7
  8. Pelo tempo que o teu pai dedica para ouvir as tuas dúvidas ou problemas: 6
  9. Pelo tempo que o teu pai dedica a ensinar-te coisas: 7
  10. MÉDIA FINAL: 6,22

      As crianças, a pedido da professora, tinham  classificado os seus pais. O meu filho deu-me seis e setes... Sinceramente, eu tinha merecido cincos ou menos.
      Levantei-me e corri para o quarto dele, abracei-o e chorei. Queria poder voltar atrás no tempo... mas isso não era já possível. O João abriu os olhos, ainda os tinha inchados pelas lágrimas, sorriu-me, abraçou-me e disse-me: - “Gosto muito de ti, pai!" Fechou os olhos e adormeceu outra vez. Fiz-lhe uma festa assim muito de mansinho e beijei-o com toda a ternura que pude. Lembrei-me dos versos do António Nobre, "O sono do João"... Ah! Se António Nobre não os tivesse escrito, eu hoje seria seguramente capaz de os escrever!... O meu filho merecia isso e mais ainda todos os versos lindos do mundo!...

Acordemos pais!!! Aprendamos a dar o valor certo aquilo que é mais importante em relação aos nossos filhos, já que disso depende o sucesso ou fracasso na suas vidas.

- Já pensou qual seria a 'nota' que o seu filho lhe daria hoje?...
(Autor desconhecido.)

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Acabei de escrever assim no Facebook "SOU DO PEGO, SOU PEGACHA…"

Acabei de escrever assim no Facebook:
"SOU DO PEGO, SOU PEGACHA Não nego a minha nação Não sou como o meu amor Qu' é do Pego e diz que não." Tomo a ousadia de reclamar para a minha mãe, conhecida na sua terra como a Lourdes Branco, ou a Lourdes Pinto, a primazia de trazer para a Net esta quadra popular. A minha mãe tem agora 85 anos. A razão da lembrança destes versos será publicada já a seguir, num blogue que logo deixarei indicado. Por agora, submeto a minha ousadia à consideração de entidades que muito respeito, como são a TUBUCCI assoc.defesa património região ABRANTES, a ESCOLA INDUSTRIAL E COMERCIAL DE ABRANTES-ANTIGOS ESTUDANTES E FUNCIONÁRIOS, a Salvem da demolição o Real Convento S. Domingos de Abrantes e a Abrantes.
Na nossa família, fosse no círculo mais estreito da relações entre pai, mãe e os três filhos; fosse na família mais alargada, era frequente o meu pai provocar a minha mãe com a "acusação", desdenhosa, de que ela era pegacha. A minha mãe reagia com protesto vivo, exuberante.Esta disputa no casal era sempre sinal de boa disposição, contagiante a todos que estavam à volta do casal. Tornou-se claramente um marco da cultura familiar, que não foi esquecida em 2004, quando os filhos dedicaram aos pais uma linda festa de celebração das suas bodas de ouro.
A minha mãe é a segunda jovem costureira, de sorriso matreiro, da
esquerda para a direita na fotografia, que foi tirada
nos inícios dos anos 50 do século XX.
Hoje, estávamos (a minha mãe, a D. Luísa e eu) ao jantar, na casa da filha Maria de Fátima, lar que é uma das mais genuínas versões atuais do Solar das Azeiteiras (o mítico lugar de encontro da alegre Pintalhada), na Horta, no Faial. A televisão estava ligada e o telejornal passava uma notícia sobre Mação, que é da área geográfica das vivências, dos afetos e das memórias abrantinas da família.  A "Dona Lourdes" captou a referência a Mação; eu aproveitei para a provocar: perguntei-lhe se ela, como era pegacha, tinha ido muitas vezes do Pego a Mação.
É claro que o efeito foi diferente do que havia no jogo que ela jogava com o seu parceiro de vida, com nuances, rituais e cumplicidades que só eles conheciam e sabiam saborear. Espantosamente, e deixando-me imensamente contente por constatar uma notável agilidade mental -  e humor, muito humor! - a sempre negada pegacha olha-me bem nos olhos e com ar bem divertido, dando a volta por cima (porque sabia que eu a queria ver perder o controlo e "irritar-se" como fazia em saborosos tempos idos, com o seu maridinho),  recita-me a quadra... que eu nunca lhe tinha ouvido! Nem sei se os meus irmãos alguma vez a ouviram!... Mas não deixou de rematar, com o dedo indicador direito a exibir uma firme negativa: "Mas eu não sou pegacha!"

quarta-feira, 3 de julho de 2013

«O que quer Deus ainda mais de mim?»

Hoje fui ao encontro de um jovem nigeriano que ando há vários dias a tentar ajudar. Caiu do céu, a queda foi amortecida por um anjo que depois mo deixou nos braços.

O rapaz tem um projecto de vida que, num meio envolvente cheio de escolhos e interesses mesquinhos, ele procura, com esforço denodado, manter vivo,numa experiência de desenvolvimento pessoal  que merece todo o nosso apoio e suporte amigo; voluntarioso e fraternal.

À entrada do prédio onde ele está agora a pernoitar com a solidariedade de um amigo, uma senhora, sobrecarregada com o peso das compras, desconfiou da ajuda que lhe ofereci enquanto esperava que, lá de cima, do 7.º andar, respondessem ao meu toque de campainha:

- “O senhor desculpe-me, mas hoje há tanta gente a invadir os nossos prédios… Tocam, só querem vir às nossas casas, é para pedirem-nos coisas, sei lá, são tantos!… Pensei que fosse desses.”


A senhora acabou por aceitar a minha ajuda. Fiquei com os sacos ali ao pé de mim e ela foi ver se tinha correio. Já idosa, apercebi-me, pelo peso dos sacos, que aquilo era um esforço físico muito exigente para ela. Entrou no elevador, eu segurava a porta. -”Qual é o andar?”, – “É o terceiro, obrigada…” Quando saiu do elevador já sorria. Olhou-me com cordialidade e agradeceu-me a ajuda.

O elevador retomou a subida, do 3.º ao 7.º andar. Depois de estar com o rapaz da Nigéria, saí pela mesma porta – antes de entrada, agora de saída – em que me cruzara com a senhora idosa. Lá à frente, em baixo, um velhote tentava, com a ajuda de uma bengala, subir os poucos degraus do passeio até à porta. Deixei-me ficar ali, segurando-a bem aberta para que o senhor entrasse. Trazia na mão livre da bengala uma pasta de documentos azul transparente. Apoiava o cotovelo desta mão no corrimão, em ajuda à subida dos degraus. Quando me viu à porta, a segurá-la, sorriu imediatamente e agradeceu-me.

Ao pé de mim, parou, suspirou fundo, ajeitou os óculos, olhou-me bem nos olhos e voltou a agradecer-me. Fiz-lhe uma festa discreta no braço, sorri-lhe e perguntei se precisava de mais alguma ajuda.

Não, não precisava, mas a minha pergunta – eu sabia que, com o meu gesto, me dispunha a que isso acontecesse – foi para o senhor apenas o pretexto para me falar; e eu, sem que tal me custasse,  fiquei ali a olhá-lo e a ouvi-lo. Ele que falasse o que quisesse!…

- “Isto está tão difícil… porque vive uma pessoa assim até à minha idade?…” E a conversa foi fluindo; admiravelmente com uma dignidade exemplar! “Porque cheguei eu a esta idade assim?… Sabe, senhor, eu não sabia porquê, mas agora já sei… Os homens na minha família morrem todos muito cedo… o meu pai morreu com 53 anos, o meu tio com quarenta e tal… só as mulheres chegam aos 85, aos 87 anos… Eu, se não houver nada antes, vou chegar aos 85 em novembro… E eu não sabia porquê… A vida está tão difícil, e eu estou tão fraco!… Eu perguntava-me muitas vezes «O que quer Deus ainda mais de mim?» Agora já sei, senhor… A minha mulher teve, durante muitos anos, uma grande depressão, andou anos num psiquiatra; depois disso veio o parkinson, passou para um neurologista, a seguir veio um acidente vascular cerebral… as reformas são o que são, tanto que nos têm tirado!… Andei a pagar um euro por dia para alugar a cadeira de rodas para a minha mulher, até que comprei uma cadeira de rodas só para ela… as sessões de fisioterapia andei a pagá-las a 50 euros cada uma, eram 500 euros por mês… depois, como não aguentava, e ela estava um bocadinho melhor, reduzimos o número de sessões mas ainda continuava a pagar 300 euros por mês… e tudo sem ajudas, sem a Segurança Social pagar nada!… Depois disseram-me para ir pedir ajuda social…Ó senhor, eu fui, mas para quê?… E tive de parar… A certa altura, da igreja só lá iam a casa por causa da roupa, era só para lavar a roupa, e todos os meses aumentava o preço!… Só para lavar a roupa, e já ia nos 60 euros por mês… Que faço eu, senhor?… A minha filha reformou-se como professora e a situação dela é cada vez pior com o que agora lhe vêm buscar à reforma. Estamos aqui em casa dela, se fosse na nossa casa, era mais difícil ter as consultas de fisioterapia e as outras coisas… Fui torneiro-mecânico e fazia as escalas de trabalho… dei o que pude no meu trabalho… Porque não me levou Deus como levou o meu pai, o meu tio e os outros homens da família? Agora já percebi porque ele quis que eu ficasse mais tempo que eles, a minha mulher precisa de mim… mas que vida é esta em que andamos, para quê fazer o que fazemos na vida, sempre a dar tudo o que temos?… Temos mesmo de acabar assim?…"

Falou-me sempre com muita firmeza e não se deixou abater pelas emoções, olhando-me frontalmente, por detrás dos óculos de velho. Os olhos mostravam sinais da vida que tão dramaticamente me resumiu. Pediu-me desculpa pelo tempo que me tinha tomado e agradeceu-me com renovado sorriso, também este, admiravelmente sereno.

Tentei também continuar a sorrir-lhe,  com muita ternura, e fiz-lhe outro gesto de carinho no braço direito. Ambos largámos a porta que ele segurava pelo lado de dentro e eu pelo lado de fora; a porta fechou-se brutalmente entre nós, separando-nos definitivamente. Olhámos ainda mais uma vez um para o outro e dissemos adeus com a mão. Fiquei a ver o senhor a virar-se lentamente, na direcção dos elevadores, arrastando os pés, curvado sobre a bengala na mão direita e a pasta azul na mão esquerda. Junto ao cotovelo, eram ainda visíveis no braço as marcas do esforço feito sobre o corrimão a subir os degraus.

Hoje não podia evitar o que senti e pensei a seguir: odiei com muita força os passos coelhos, os paulos portas, os antónios josés seguros, os durãos (sim, não são durões)  barrosos, os josés sócrates,  e toda essa corja de gente indigna!