domingo, 27 de setembro de 2015

AS VIRGENS BÍBLICAS E A MINHA MÃE

AS VIRGENS BÍBLICAS E A MINHA MÃE

A missa de corpo presente, ontem, na Igreja Matriz da Horta, deu-nos uma muito carinhosa oportunidade de mostrar com limpidez insuperável uma das mais marcantes características da nossa mãe, a Maria de Lourdes.O senhor padre celebrante, quando o momento chegou, fez a leitura do Evangelho. No ritual que os católicos bem conhecem, disse ele, benzendo-se:
«Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus… Naquele tempo, Disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a dez virgens, que, tomando as suas lâmpadas, foram ao encontro do esposo. Cinco eram insensatas e cinco eram prudentes. As insensatas, ao tomarem as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo, enquanto as prudentes, com as lâmpadas, levaram azeite nas almotolias. Como o esposo se demorava, começaram todas a dormitar e adormeceram. No meio da noite ouviu-se um brado: ‘Aí vem o esposo; ide ao seu encontro’. Então, as virgens levantaram-se todas e começaram a preparar as lâmpadas. As insensatas disseram às prudentes: ‘Dai-nos do vosso azeite, que as nossas lâmpadas estão a apagar-se’. Mas as prudentes responderam: ‘Talvez não chegue para nós e para vós. Ide antes comprá-lo aos vendedores’. Mas, enquanto foram comprá-lo, chegou o esposo. As que estavam preparadas entraram com ele para o banquete nupcial; e a porta fechou-se. Mais tarde, chegaram também as outras virgens e disseram: ‘Senhor, senhor, abre-nos a porta’. Mas ele respondeu: ‘Em verdade vos digo: Não vos conheço’. Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora… Palavra da Salvação.»
O que nos diz esta parábola bíblica sobre a nossa mãe?
A nossa mãe seria pessoa para ouvir muito atentamente, com muita fé, todas as mais brilhantes, genuínas e legítimas interpretações simbólicas desta leitura evangélica.
Ora, sem que fosse sequer preciso virar costas às homilíacas palavras, ainda estivessem elas a ressoarem aos seus ouvidos, já ela estaria a repartir o seu azeite, fosse com quem fosse que lho solicitasse, fosse qual fosse a quantidade que lhe restasse – tudo, em qualquer altura, que tivesse e que uma alma aflita lhe pedisse, por mais pequenina que fosse a côdea de pão ou a gota de azeite que a minha mãe tivesse, ela dividiria sempre. Primeiro, dividiria, só depois olhava com o que ficava e o que poderia fazer com o que lhe restasse, nunca se arrependendo de dar, a sua preocupação era que não faltasse a quem estivesse aflito à volta dela; se lhe faltasse a ela um pouco, não havia problema, ela seria capaz de aguentar, melhores dias viriam. Nunca ela faria as coisas assim por despeito ou rebeldia contra as lições das parábolas das Escrituras Sagradas – era apenas guiada pelo instinto cego, prontamente disponível, da sua sociabilidade e sentido de partilha.
Recordo agora, com o mais profundo carinho e sentido de gratidão, esta grande lição que ela nos deu. Éramos nós, os filhos, pequenos, eu lembro-me de uma ou outra vez a minha mãe repartir com outros o que eu pensava que era só nosso. Comandado pelo cruel instinto de sobrevivência infantil, que nos manda, antes de mais, bem cuidar de nós mesmos; ou então, já marcado, na catequese, pelo exemplo das virgens prudentes que as catequistas nos mandavam seguir, eu balbuciava um hesitante e aflito “Então, mãezinha, e nós?... Assim não chega p’ra nós!…” A nossa mãe, o bondoso ser humano que era, respondia-me: “Não te preocupes, filho, ainda há que chegue p’ra todos cá em casa…” Tenho memória de uma ou outra vez perceber tensão no rosto da nossa mãe; mas essa tensão não tinha a ver com o gesto de dar, era já ela a pensar como iria lidar a seguir com as dificuldades da vida para que a nós, aos filhos, não faltasse nada. Como sempre fazia, a parte má das coisas, a nossa mãe guardava para ela, poupando-nos por amor.

sábado, 26 de setembro de 2015

Uma pequenina homenagem à avó Lourdes, «uma abrantina de gema»

Meus queridos sobrinhos, que posso eu dizer-vos hoje, marcado pela angústia do futuro próximo, acerca da vossa avó?
(Texto escrito no avião, viagem Horta-Ponta Delgada-Lisboa, 29 de Agosto de 2015)

           
Fiz questão de, à saída do quarto, olhar bem a avó Lourdes, hoje de manhã, em casa da tia Fatinha, depois de me despedir dela. Mais do que nunca.
            A avó pôs os olhos bem fixados em mim, era um olhar tranquilo e carinhoso. A tia Fatinha perguntou à avó se só olhava e não dizia adeus, que ela bem podia mexer a mão direita (afinal, os sucessivos avc's têm-lhe massacrado é o outro  braço, o esquerdo). A avó ouviu a filha e correspondeu ao seu pedido - fez-me um claro aceno de mão, os dedos bem unidos, só o polegar, certinho, a afastar-se um pouco, compondo o aceno bem como ele deve ser feito.
            Mais do que nunca, ou melhor, pela primeira vez senti, pensei, que poderia ser a última vez que visse a avó Lourdes assim, a olhar-me; e eu a olhá-la. Senti muita ternura, muita paz; uma infinita tranquilidade, mesmo que, ao mesmo tempo, desejasse com muita força que não tivesse sido a última vez ali, ao pé dela, a falar com ela. Quero ouvi-la outra vez a dizer-me, ainda de olhos fechados, com o seu típico bom-humor, “Bom dia, Adriano…”, depois de outra vez eu a provocar com o meu sussurrante “Bom dia, Maria Joaquina!”. Quero ouvi-la dizer, ao chegar-lhe, no desjejum, o copo, que “a água passa”, mas que “deixa-me engasgada”; e que “o iogurte não presta”; e que eu, a dar-lhe estas coisas, não devo gostar nada dela. Se gostasse, levava-lhe era pão com azeitonas, ou café e pão com queijo. (1)
            Mas pode muito bem ter sido a última vez que tenha visto a avó Lourdes viva; como muitas vezes ouvi o avô Pinto e os seus irmãos dizerem, “é a lei da vida”.
            Sei o que quero dizer quando chegar o dia que todos nós temos desejado que chegue o mais tarde possível, ou não chegue mesmo; por isso talvez seja melhor escrevê-lo já, que, por enquanto, tenho controlo sobre as emoções, controlo esse que muito provavelmente não terei quando for confrontado com a necessidade, imposta pelo desiderato inelutável, de o fazer:
            Queridos netos da avó Lourdes, a minha mãe não foi, absolutamente, a melhor mãe do mundo; essa, tanto a gente a reclama, essa não é a minha mãe, essa não é a vossa avó. A minha mãe é única! A vossa avó é única! Foi uma criança que viveu a sua meninice de maneira muito intensa, foi uma jovem muito alegre e amiga das suas amigas; foi esposa fidelíssima, foi mãe extremosa; foi avó encantadora e foi ainda ‘bivó’ que fascinou a sua ‘Piriquita’ como mais ninguém.
Em contraste com todas estas coisas bonitas que cultivou ou que encontrou, testemunhei, com a angústia em mim bem presa, mais do que uma vez, o ataque, sobre ela, das maldosas doenças, e a nossa Velhitas sempre brincando - gaiatamente, docemente.
A minha mãe, a nossa mãe, a vossa avó, foi uma mulher notável, que passou por todos os desafios que o ciclo da vida lança a cada ser humano da infância à velhice – passou por eles e venceu-os a todos. A todas as meninas do mundo, a todas as mulheres, a todas as velhinhas desejo eu um ciclo de vida assim – assim se fazem as mulheres únicas que espalham à sua volta alegria, paz, amor e atenção ao próximo; sempre desinteressadamente, sempre com o maior dos desvelos.
            Na profunda humanidade dos seus actos, a avó Lourdes viveu céus, experimentou infernos; todos nós pudemos ser testemunhas da invejável capacidade que teve de fazer calarem-se dentro de si os afectos difíceis e as memórias dolorosas e manter vivos, consoladoramente bem audíveis, os saborosos contrários de todas essas coisas más.
            Numa das últimas vezes, agora neste mês de Agosto, que lhe aconcheguei a roupa da cama, ao deitar, perguntei-lhe: “Então, Velhitas, não tens sono?...” A avó olhou-me com um sorriso meigo e respondeu-me com esta tranquilidade toda: “Não tenho agora, mas quando ele chegar eu vou estar pronta para o receber.”
            É, queridos sobrinhos, a avó Lourdes estava pronta. Agora estará ao pé do seu ‘Nino’ a brincar com ele o saboroso segredo de que só conhecemos a escrita das quatro letras em iniciais maiúsculas – é, o segredo é mesmo deles. Os segredos são assim mesmo - a eles, os deles; a cada um de nós, os nossos. Este de quatro letras, definitivamente, eternamente, é deles, de mais ninguém.
A Lourdes Branco, a minha mãe, a avó Lourdes, a Bivó, vai finalmente poder voltar a partilhar o seu segredo com, como ela dizia, “o meu homem”. Muito doente, neste muito delicado mês de Agosto de 2015, a Velhitas de todos nós confidenciou-me: “Tenho muitas saudades de uma pessoa…” Fingi que não percebi quem era e perguntei-lhe de quem falava; a avó precisava de o dizer: “É do meu homem, o vosso pai…” Finalmente, repito, a avó vai poder voltar a partilhar com o seu homem a cumplicidade daquelas quarto letras, iniciais de qualquer coisa, que só eles os dois conhecem – é, seguramente, o segredo mais puro, mais genuíno, mais bem guardado da família.
Vá, vamos sair de mansinho, vamos deixá-los na intimidade que é deles, que eles souberam inventar para eles mesmos, e a que foram sempre fiéis. Que exemplo para nós todos!
            Beijo grande, Velhitas! Dá por nós um beijo também grande ao Velho! E a todos os familiares queridos que, seguramente, te receberão junto deles com muito carinho, com muita alegria, com muito amor.
Até sempre, querida mãe! Obrigado por tudo o que foste para mim, por tudo o que me deste! Que orgulho tenho em ti! É um privilégio muito grande ser teu filho!


- A minha mãe veio a falecer a 25 de Setembro de 2015, sem que, na verdade, eu a voltasse a ver a olhar-me e a falar comigo.

(1) É claro que a minha mãe me dizia isto com muito carinho, ela sabia que o seu cafezinho e o pão com queijo fresco chegariam pouco depois.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Pedacinho de tesouro, de pai para filho

Pedacinho de tesouro, de pai para filho

O Vítor e o filho. A fotografia já tem alguns aninhos.
O pai é o Vítor e o filho é o... ups!, esqueci-me do nome... :-(
O momento foi testemunhado ontem pelo João; e quem por ele hoje perguntou foi o Marco. Aconteceu, repito, ontem, já depois das oito da noite.
Ainda ontem decidi escrever um apontamento sobre o que aconteceu, mas sem data, sem prazo para o fazer. Ora, o que se passou foi que hoje, a meio da tarde, por um acaso muito feliz, encontrei o Marco (meu aluno de Psicologia há alguns anos) no Chiado, ao pé do Fernando Pessoa; perguntou-me por várias coisas - entre elas, pelas viagens e aventuras. Assim que ele se afastou, decidi: o apontamento iria ser escrito já hoje!

Ei-lo:
O Vítor, eu cruzei-me com ele por acaso no Spacio, nos Olivais; eu estava lá para jantar com o João, meu afilhado, que me tinha desafiado para isso. Ele seguramente certificará a saborosa ocorrência.
Praticamente à entrada, ali ao pé da loja do Pingo Doce, quando nos preparávamos para subir ao segundo andar, reconheci o Vítor a vir na nossa direcção. 
O Vítor vinha com a esposa de um lado e o filho do outro. Velho Traquina (1) - muito traquina mesmo! -, depois de celebrarmos, com um valente abraço, e muito alegremente o encontro, voltou-se para o filho e falou assim com ele: "Lembras-te de eu te falar dum senhor e das viagens e passeios que eu fiz com ele?" E enumerou alguns desses passeios e aventuras. Sim, o filho, ao mesmo tempo que acenava afirmativamente com a cabeça, olhava para tirar as medidas àquele sujeito que, até agora, fora, na sua mente, apenas um fantasioso personagem de memórias gratas do seu pai, do tempo em que o pai tinha a idade que ele tem agora.
E pronto, Marco, é só isto... Mas neste tão pouco há tanto! Há muito mesmo, como tu certamente compreenderás. É claro que imaginas que bem me senti ao ouvir o Vítor e ao ver os olhos do miúdo assim pregados em mim.
É um bem saboroso privilégio este de fazer parte da história do desenvolvimento pessoal de alguém e vermo-nos a fazer parte do que parece ser conversas em casa, em que, pelo simples desfiar de lembranças, conversas de falar de si mesmos, os pais educam os filhos no aconchegante ambiente do lar, em família. É que esta é, muito provavelmente, a mais impressiva forma de educação, na linha do que dizia o meu mestre João dos Santos: "Educar é oferecer-nos como modelos".
Marco, gostei muito de te reencontrar hoje! Que belo abraço! Estás feito um belo moço! (Será do "tratamento" de lama que andas a fazer? ;-) )
Vítor, obrigadinho pela dádiva que me trouxeste hoje! Continuas com o teu tão radioso - e bem maroto! - sorriso.
João, terás consciência que foste o autor deste precioso momento?  Sem o teu convite para jantar o que aconteceu ainda agora estaria por acontecer.
Puto Oliveira, desculpa-me não me lembrar do teu nome! :-/ Tu és a fascinante criança renascida, geração após geração - como o teu pai foi um dia; ele e a tua mãe; a criança que justifica tudo o que fazemos quando nos entregamos à educação das crianças. Por ti e por todas as crianças tudo vale a pena! Grande abraço! E que a gente um dia se encontre numa aventura que depois te apeteça contar aos teus filhos; e aos teus pais, se eles não forem também connosco.

(1) Associado da associação juvenil Os Traquinas da Boa Vida.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

QUE PEQUENO ACASO TÃO SABOROSO !...

QUE PEQUENO ACASO TÃO SABOROSO !...

                Há pouco mais de um ano, de boa-fé, pedi amizade no Facebook a um muito dinâmico músico, que tinha conhecido dias antes, em Miranda do Douro, que colaborou muito empenhadamente num serão musical para os alunos que, com outros colegas professores, levei de Lisboa às terras da Língua Mirandesa. O serão aconteceu no centro de juventude do Barrocal do Douro.
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10152165152198975&set=
a.491624638974.283668.512253974&type=3&theater

                Ora bem, aconteceu que me enganei… O Pedro a quem pedi amizade não era o Pedro que conheci no Barrocal do Douro. Para além de alguma semelhança física, tratava-se também de um artista musical notável. Com a mesma boa-fé, e muito simpaticamente, o Pedro a quem pedi amizade – e que vive em Dublin, na Irlanda -, aceitou imediatamente o meu pedido.
                Depois de ver o seu mural, descobri o meu erro e logo escrevi ao meu novo amigo Facebookiano: «Olá, Pedro! Pedi-te amizade porque te confundi com o Pedro Almeida, da Associação Lérias. Mas, depois do que vi no teu mural, tenho todo o gosto em continuar teu amigo no Facebook! Um abraço!» E o Pedro, boamente, continuou a ser meu amigo no Facebook. Isto passou-se em Abril do ano passado.
                Hoje caminhei para o Cais do Sodré, como faço regularmente às quartas-feiras; só que, contrariando a escolha habitual do estabelecimento para me encontrar com o meu habitual interlocutor, fui para outro. Hoje eu precisava de um estabelecimento que tivesse acesso livre à Internet. Entrei no primeiro que encontrei, mas mesmo no primeiro!
                Assim que entro, vejo o Pedro – de Dublin! - a dirigir-se à saída do estabelecimento!... Reconheci-o imediatamente e percebi logo que ele também me tinha reconhecido; aliás, penso que a iniciativa do muito cordial aperto de mão foi dele, não minha. Tivemos uma breve troca de palavras, ele regressa amanhã à Irlanda!
                Deixei-lhe um repto para o próximo ano lectivo, para colaborar com as minhas aulas de Psicologia. Aceitou imediatamente! É mesmo um rapaz às direitas!!!
                Gente boa, senhores! É verdade, o Pedro faz jus ao que pensamos da gente boa!
                Que sorriso cordial ele fez quando me viu!
                Felizes circunstâncias: do Facebook ao encontro pessoal directo, com erros e acasos, boa-fé e humor a tecerem a história deste tão singelo relacionamento pessoal.

                Grande abraço, Pedro! Desejo-te todos os sucessos na arte que, pelo que tenho visto, tanto te apaixona e tanto pede de ti!

domingo, 31 de maio de 2015

AS AVÓS, O DR. JOÃO DOS SANTOS E A TERRA DO NUNCA

Psicologia - Frase da semana, 31MAI15: AS AVÓS, O DR. JOÃO DOS SANTOS E A TERRA DO NUNCA


"A casa da avó devia ser sempre a gruta dos mistérios – e não a extensão do ATL.
Aqui há dias, ao dar banho à minha neta mais pequenina, oiço-a exclamar:
Alice Vieira
– Avó, o teu champô cheira a morango!
Perguntei-lhe a que cheirava o champô dela, em casa dos pais.
Muito séria, respondeu:
– Avó, em minha casa, cheira tudo a normal.
A casa da avó deveria ser sempre a “anormalidade”, no sentido mágico da palavra: o lugar onde há lobos por entre os cortinados, onde terríveis piratas se escondem na chaminé da sala, onde as coisas têm cheiros estranhos, onde o passado ataca nas páginas dos velhos álbuns de fotografias, onde há sempre um ombro disponível para uma crise de choro adolescente.
Infelizmente, em tempos de crise e desemprego, as coisas nem sempre são o que gostaríamos que fossem – e às vezes a casa da avó é a creche que não se pode pagar… Mas isso é outro assunto.
Seja como for, é evidente que as avós são essenciais. Recordo sempre o professor João dos Santos quando dizia:
“Uma criança não pode viver sem uma avó e sem uma aldeia. Se as não tiver, é preciso inventá-las.”
Na minha infância, de poucos afectos, tive de inventar ambas."
Alice Vieira, "O livro da avó Alice", Lua de Papel, 2011, pp. 15-16.

Um texto que os meus alunos de Psicologia B entenderão de forma, já que:

  1. Toca a essência da aprendizagem e da avaliação - os trabalhos monográficos.
  2. Dá testemunho da espantosa lógica-inteligência-criatividade das crianças.
  3. Cita o meu mestre João dos Santos.
  4. Mostra, na avó e na aldeia que a escritora Alice Vieira inventou, que a ideia da Terra do Nunca é mais comum do que poderíamos pensar; e tem uma capacidade tremenda de ajudar a que pessoas sofridas cheguem ao Bem-Estar pessoal, e o espalhem também à sua volta.

domingo, 28 de setembro de 2014

A importância de andar à procura de nada – parte 2/2

A importância de andar à procura de nada – parte 2/2

Domingo, 28 de Setembro de 2014.

Como disse na primeira parte, passei a sair aos domingos, com frequência, à procura de nada. No mesmo domingo – este - em que reencontrei dois velhos amigos no Vasco da Gama, do nada surgiram mais duas ocorrências significativas. Um pouco mais tarde, a várias estações de Metro de distância.

Do Vasco da Gama fui ao Chiado, a pensar nos livros da rua ali ao lado da Bertrand, as promoções da FNAC, e as novidades da velha Sá da Costa.


A Sá da Costa azafama-se em limpezas dos velhos móveis e dos velhos livros. Hesito; sim, estava mesmo aberta, mas com as limpezas a decorrer, pediram-me paciência. Encontrei rapidamente dois livros interessantíssimos, de folhas por abrir a preços também interessantíssimos; não saíram mais das minhas mãos. Pedi finalmente o que vira na montra, antes de entrar, e me convencera a passar a porta para dentro. Como calculava, era bastante caro; caro para além do que o orçamento mensal para livros do mês me permite. O senhor que me atendeu, funcionário, ouviu o meu pedido de reserva, por um mês; ouviu e calou-se. Chamou o patrão, que estava lá ao fundo da sala; enquanto ele se aproximava, eu tentei logo moldar-lhe a vontade. Não foi difícil, o bom homem aceitou imediatamente.

Enquanto o funcionário preenchia a ficha de reserva, reparei que ele escrevia os números, ora de baixo para cima, ora de cima para baixo. Aparentava 40 anos. Eu não podia deixar passar aquele comportamento inusitado em claro. Acabámos por conversar abertamente, o senhor ficou sensibilizado com a minha capacidade de observação. Tinha de haver história!... E ela veio, enquanto mais nenhum cliente da loja se chegasse ali para perguntar alguma coisa, ou finalizar qualquer compra. Era um esquerdino contrariado desde sempre, desde muito pequeno - contrariado à velha dura maneira. Tentou equilibrar-se numa ambidextria de compromisso entre a natureza espontânea dos gestos e exigência lamentável da escolarização. A criativa ambidextria tem sido eficaz numas vezes, outras vezes não tem sido tão bem sucedida. A idade? 42 anos, sim, eu estava perto. Perguntei-lhe, já à pressa – o tal cliente acabava de chegar ali ao pé de nós, que já só conversávamos, com tudo dos livros já tratado -, se estaria disponível para ser abordado por um aluno meu, para um trabalho monográfico de Psicologia. Disse-me logo que sim. Tomei nota do nome do senhor, agradeci-lhe e saí dali para a Bertrand.

Na Bertrand, e depois na FNAC, nada de especial a assinalar. Voltei ao Metro, a caminho de casa.

Na estação da Alameda, faço o transbordo necessário da linha Verde para a Vermelha. Já no cais desta linha, pego num dos livros que comprei e, ainda não tinha folheado a primeira página sequer, já alguém me tocava no ombro esquerdo, por trás de mim. Volto-me de deparo-me com um bem radioso sorriso. Um aluno de há dois anos - ao que me pareceu, ali acompanhado pela namorada – fez questão de me abraçar e conversar um pouco comigo. Está bem, entusiasmado e confiante no seu projecto universitário. E perguntou-me pelas aulas, ele sabe como eu tento que as aulas sejam sempre. Soube-me bem o carinho que ele me demonstrou ali. A confirmar-me que estou no bom caminho; no caminho de bem ser e bem estar na escola. E, se calhar, na vida…

A composição do metropolitano que me levaria a Chelas já chegava àquele cais e quem estava com o meu querido aluno certamente já o reclamava para ao pé de si.

Manhã de nada, encheu-se de gente e afectos – acontecidos sem serem procurados, mas, todos eles!, com claros sinais de acontecerem empenhadamente.

(fim de “A importância de andar à procura de nada”)

Sobre a importância de andar à procura de nada – parte 1/2

Sobre a importância de andar à procura de nada – parte 1/2

Passei a sair aos domingos, com frequência, à procura de nada. Normalmente, faço-o de manhã. Não tenho crianças que me obriguem a dedicar-me a elas na manhã do dia santo da semana. Com o meu pai, no meu tempo, não sei se me aborreceria com ele se ele não dedicasse as suas manhãs de domingo aos filhos pequenos. E ele sempre o fez com evidente prazer.

A “culpa” da minha recente ocupação domingueira é das chamadas ""grandes superfícies" comerciais. Em vez de ir intencionalmente a uma exposição ou a um evento, vou ao Continente do Vasco da Gama, ou vou os Pingo Doce do Spacio dos Olivais, à procura de nada. A competição pelos clientes traz, por vezes, nas grandes superfícies comerciais, preços muito atractivos de comidas, bebidas, roupas, coisas para a casa, livros, etc.

Então, é assim: não tenho nada para comprar, mas vou à grande superfície, pode ser que encontre lá alguma coisa interessante a bom preço. Por exemplo, na semana passada encontrei um livro, que eu não sabia sequer que existia, a 5 euros! Folheei… revirei a capa, e nela encontrei uma apreciação muito breve, em uma linha só, do professor Marcelo Rebelo de Sousa; voltei a folhear, e conclui que a apreciação do professor Marcelo Rebelo de Sousa é mesmo muito pobre, parece-me ser feita a despachar, por boa educação.

Volto para casa, e começo logo a leitura do livro no Metro. Eh, pá!... O livro é mesmo muito bom, constato eu logo ao final do dia! 2 ou 3 dias depois, volto ao Continente do Vasco da Gama. Restavam lá 4 exemplares, ainda a 5 euros cada um, trouxe-os todos comigo. Todos eles terão dono.

Hoje tornei ao Continente, à mesma banca dos livros a 5 euros – já nenhum para venda; talvez amanhã, a partir do final da tarde, haja reposição, diz-me solicitamente uma funcionária. Agradeci a informação e vim de lá não trazendo nada, nem da secção dos livros, de qualquer outra secção da grande superfície. Mas estou decidido a voltar ao Continente amanhã ao final da tarde.

Quando me vinha embora, já de lado de fora da grande loja, reparo que um velho colega de trabalho, e amigo, estava a acabar de pôr nos sacos as compras; a mulher estava com ele. Afastei-me discretamente, para não ser por ele reconhecido, e disposto a meter-me com ele, de surpresa. Depois de um grande rodeio, cheguei-me por trás dele e tirei-lhe do carro dois sacos de compras sem o deixar ver-me a cara e afastei-me. Ouvi-o a balbuciar qualquer coisa, e antes que ele viesse atrás de mim e me desse algum tabefe, voltei-me para trás e devolvi-lhe os sacos.

Risos, abraços, e conversa em dia; depois, cada um para seu lado. Já a chegar à zona da Gare do Oriente, lamentei-me de não lhe pedir o email ou o número de telemóvel, para actualizar o contacto. Ainda não tinha acabado a auto-censura, já me cruzava com outro velho amigo que não via há bastante tempo. Mais risos e abraços, e conversámos sobre outro velho amigo comum, que foi há pouco tempo trabalhar para Londres.

Enquanto estava à conversa com o segundo amigo reencontrado, vi vir na direcção da Gare o amigo do primeiro encontro, que, antes, quando nos despedimos, tinha tomado o caminho oposto ao meu. Vinha mesmo a ver se ainda me encontrava, para trocarmos contactos actuais!

É assim que pode acontecer quando não se pensa demasiadamente: sai-se de casa por nada, à procura de um hipotético preço mais baixo e volta-se para casa com coisas que valem muito e não têm preço.

(fim de “A importância de andar à procura de nada – parte 1/2; depois virá a parte 2/2)