terça-feira, 1 de julho de 2014

Como podemos viver sem sonhos?...

http://vimeo.com/66331618
Nos campos de refugiados palestinianos há um rapazinho que tem um sonho: ver o Mediterrâneo. Os israelitas não deixam.
"O meu país é um sonho. Como podemos viver sem sonhos?... Chamo-me Tamer e tenho 11 anos. O meu sonho é ir ver o Mediterrâneo."
O pai de Tamer tenta educar o filho nos princípios da tolerância. Tem medo que ele um dia possa tornar-se num mártir. Quando mais uma vez os israelitas lhe negam a autorização para ir ver o mar, o pai desabafa:
- "Eu não quero destruir Israel, eu não quero destruir a América, eu não quero matar, eu só quero ir ver o Mediterrâneo..."
Acabei de ver na TVI24 um extraordinário documentário titulado "Nasci refugiado". Foi de lá que tirei o pequeno excerto.
Há poucas horas, o companheiro com quem eu tinha acabado de partilhar, já de tarde, uma incursão em livros amontoados, tornados de segunda ou terceira importância, trouxe para o seu mural no Facebook a fotografia de uma página de livro em que destaca a afirmação "As guerras começam no coração dos homens".
Lembrei-me da liberdade de um outro rapazinho, tuaregue, que um dia perguntou ao seu pai: "Pai, como é o mar?..."
Escrevi, há pouco mais de um ano, um pequeno apontamento sobre esta outra criança aqui.

domingo, 29 de junho de 2014

Segunda história – À procura do meu avô, encontrei-o e encontrei um pouco mais da minha família. E tomei contacto com outra vida – notável!...

Andei cem metros. E quantas histórias encontrei?...
           
27 de Junho de 2014, sexta-feira. Ali perto da Praça da Armada (em Lisboa).
Segunda história – À procura do meu avô, encontrei-o e encontrei um pouco mais da minha família. E tomei contacto com outra vida – notável!...
A edição da "Ilustração Portuguesa" é
de 19 de Março de 1917. O registo oficial
do meu avô no C.E.P. é de 14 de Março
desse ano. Não mostrando a fotografia
o meu avô, mostra como ele
foi para França, para a Flandres.
A coisa começou por não correr bem. Entrei no Arquivo Histórico da Gê-éne-érre. As escadas são rijas de subir, desagradáveis… A chegar à porta, ansiosamente olhando se os serviços já estariam abertos ou não, sai um sujeito jovem que, assim que me vê, decide ficar à espera que eu vença os últimos degraus e segura-me a porta aberta. Apresso o passo, passo desagradável porque esforçado, agradeço ao jovem tão simpaticamente quanto posso, e entro. Nitidamente, à esquerda, o Arquivo e à direita a Biblioteca; não vejo ninguém, está tudo escuro; chamo por alguém, é um acolhimento que desperta incómodo, redobro a atenção e o cuidado. Finalmente aparece alguém, traz cara de que eu estou onde não devia estar. Cumprimenta-me e pergunta-me o que quero. “Se calhar, entrei antes de tempo… O senhor desculpe-me, mas foram tão simpáticos a segurar a porta e a deixarem-me entrar que eu pensei que os serviços estivessem já abertos, se quiser, eu saio e entro depois à hora de abrir..." ”Não faz mal… já que já cá está, entre, venha comigo aqui para este lado…”
Dali a pouco tempo este senhor iria trazer-me boas notícias, mas por esta altura eu estou um pouco tenso e ainda antes das boas notícias vou ficar angustiado. Tenso porque não gosto de ser apanhado em incumprimento por quem não me conhece, não quero que pensem que sou desrespeitador ou que me sinto mais importante que os outros; angustiado porque o senhor que eu segui demorou muito tempo a trazer-me aquilo que eu queria, eu já temia que, afinal, não iria ter acesso às informações sobre o meu avô.
Foi crucial, para que as coisas corressem bem, a fotografia que tirei no Arquivo Geral do Exército da ficha que é o rasto que o processo do avô Branco lá deixou … O sargento-ajudante que cuidou do meu pedido no velho Convento de São Félix avisou-me que, com a mudança de Arquivo (do Exército para a G.N.R.) poderia não ser fácil encontrar o processo que eu procurava. Foi pensamento que o senhor cabo Pinto Alves me confirmou: “O senhor fez bem em trazer essa informação, se não nos dissesse em que caixa estava, a gente não sabia onde procurar…” Mesmo assim, enquanto esperei, sentado na cadeira que ele me indicou, ali ao pé da sua secretária, o meu nervosismo aumentou. Percebi que o senhor procurava mas não encontrava; e naquela altura ainda não me tinha apercebido se o senhor se ocupava comigo com razoável disponibilidade ou contrariado… Aquela minha entrada antes da hora de abertura ao público talvez o tivesse irritado e prejudicado a disponibilidade em me ajudar.
Finalmente o senhor chegou ao pé de mim. Sim, trazia um pequeno dossier nas mãos! Pediu-me que confirmasse se era aquela pessoa que eu queria. Verifiquei alguns papéis, Sim, era aquele!
O senhor Pinto Alves pediu-me, então, que me identificasse e preenchesse uma ficha para registos de consultas. Foi provavelmente nesta altura que a cordialidade se soltou definitivamente e sobre uma história – o acesso ao registo oficial da vida do avô Branco há cem anos atrás – aconteceu outra história; e é esta história que insinuo agora neste texto. Noutra história, a publicar depois aqui no blogue, contarei a experiência de acesso aos dados da vida do meu avô.
Não, não me podiam dar cópia de todos os documentos do processo; as fotocópias não se pagam – por enquanto! -, por isso eu poderia escolher 2 ou 3 documentos para fotocopiar, mas todos não era possível.
Pedi uma mesa para ver os documentos, lê-los e tomar notas. Foi com emoção que olhei a fotografia, em sépia, do avô Branco fardado! Penso que nunca tinha visto aquela fotografia.
Por razões que nunca sabemos exactamente o que as determina, aconteceu que antes de dar satisfação à ânsia de consultar os documentos do meu avô me vi à conversa com quem sentia ter-se transformado, naquele momento, num muito cordial e disponível anfitrião do Arquivo Histórico. Aos poucos, o meu interlocutor foi desfiando apontamentos de uma vida cheia de histórias que enriquecem o património da diversidade da experiência humana.
A certa altura dou-me conta de estar a pensar que o acesso às informações – tão desejadas! – sobre o meu avô estava garantido e que o essencial da descoberta do dia também estava garantido. Saboreei a consciência de que ali poderia voltar noutra altura. O momento que estava ali a acontecer – a conversa com o cabo Pinto Alves – era, em si, um tesouro que valia a pena fruir; e poderia não voltar a haver outra oportunidade como esta .
Momentos de infância, de sonho de jovem empenhado na construção do seu futuro, as reacções pessoais aos acontecimentos impostos pela vida, a marca do 25 de Abril; a família, os filhos e as traições da saúde. A valorização académica e profissional; e as opções pessoais inevitáveis. O futuro. Sim, o futuro ainda é muito amplo e proporcionador de muitas oportunidades.
“Senhor Pinto Alves, espero bem que depois das férias, no próximo ano escolar, se concretize a oportunidade de um dos meus alunos o ter como sujeito do seu trabalho monográfico. Pessoalmente, vou empenhar-me nisso.”
Por isso eu disse que agora apenas "insinuaria" a história: o desenvolvimento que ela merece, se tudo correr bem, acontecerá a partir de Setembro, na forma de um trabalho monográfico de um aluno de Psicologia da Escola Secundária Eça de Queirós.

sábado, 28 de junho de 2014

Primeira história – Atraído Por Velhos Grãos De Café

Andei cem metros. E quantas histórias encontrei?...

27 de Junho de 2014, sexta-feira. Ali perto da Praça da Armada (em Lisboa).

Primeira história – Atraído Por Velhos Grãos De Café

Sinalizada com um discreto rectângulo vermelho
está a casa dos meus avós em Abrantes
Fui ao Arquivo Histórico da G.N.R. Fui à procura da história do meu avô Branco na Primeira Grande Guerra. (1)
Foi fácil arrumar o carro, quer dizer, ali, naquela zona de Alcântara, foi milagre! Em rua de lojas velhas, entrei, por curiosidade, num pequeno café que apresentava, na montra, café para venda, modesto café em grão, sem o artificialismo das modernas lojas que sofisticam a aparência para parecer que o industrial é tradicional. A montra misturava o modesto café com tradicionais rebuçados para a tosse; o que me fez redobrar a vontade para entrar. Pedi um café. O dono, conversava com um cliente, claramente um cliente habitual; e tossia, sem parar de tossir. Puxei de força na voz e interrompi a conversa: “O senhor desculpe-me, mas acha bem o que está a fazer?... A tossir dessa maneira com tantos rebuçados para a tosse para vender?... E depois quer que os clientes os comprem, homessa!...” Os dois senhores interromperam a conversa. O dono do estabelecimento ficou feito estátua com o manípulo da máquina do café na mão – ainda por cima, era o meu café! -; e eu fiquei a olhar para ele, sem o deixar adivinhar se estava sério ou a brincar. “Olhe, disse-me ele, a apontar-me o indicador da mão que tinha livre, a tosse desapareceu!... O senhor tem razão!...” E desatámo-nos os três a rir. E lá veio o café, acompanhado com um saborosíssimo pau de canela.
“O senhor é de Abrantes?” perguntei eu, a seguir, ao senhor. “Não, sou mais para cima… bem mais lá para cima, Viseu… São Pedro do Sul…” “Mas é mesmo de São Pedro do Sul?...” perguntou o cliente habitual. “Não, sou da Aldeia de Sul, estou é cá há muitos anos… Lá há muita água boa para as tosses… e há muitos géneros de águas”, disse-me o senhor, rindo-se, e fazendo, com muita cumplicidade, o gesto de emborcar o vermelho néctar com o indicador a apontar-se à boca. O cliente habitual e eu rimo-nos também. “Perguntei-lhe se era de Abrantes porque estes bolos todos que aqui tem são, todos eles, iguais aos que a minha mãe fazia em Abrantes, este… este… este… são todos!” “Ah, não!... Os bolos não são de Abrantes, nem são de Viseu; os bolos vêm do Alentejo, são de Pias.” “Olhe, se tudo correr bem, daqui a dias ainda venho cá buscar alguns para irem até aos Açores…”
Se calhar, estas conversas são coisas de nada. Só que quando cheguei pouco depois ao Arquivo Histórico da Guarda Nacional Republicana e o senhor que me atendeu depois abundantemente me falou da vida que fez em Portalegre, no “mundo rural” (repetiu várias vezes esta expressão), em Pegões; e, sobretudo, quando me disse, a propósito da afinidade dos nossos apelidos – eu, Alves Pinto; e ele, Pinto Alves – que "era de cima de Viseu, lá para Bragança", eu pensei que haveria ensejo para uma primeira história e uma segunda história – que irei contar noutro texto.
As duas histórias juntas abrem justificação para a terceira, que encontrei quando saída desse imenso Mundo de menos de cem metros! Nos interstícios, ainda passei por marcas da minha terra numa loja de antiguidades e de lá peguei a colecção dos 10 sábios chineses. Do outro lado da rua, num velho alfarrabista, peguei, tirado do pó com muito esforço, um exemplar dos livros que a minha mãe devorava. “Eu sei que é literatura de cordel, mas eu gostava tanto de os ler, o que queres tu que eu faça?...” disse-me ela ainda há bem pouco. O senhor que procurou, procurou, procurou um livro da autora que eu procurava - Corin Tellado - não me deu o livro sem que antes lhe limpasse bem o pó. Sempre com muita dedicação e cordialidade, no fim pediu-me setenta e cinco cêntimos. Ainda pensei em dar-lhe um euro pelo livro, mas tive medo que se sentisse desrespeitado. Fiz questão de lhe dizer que o livro ia dar uma alegria muito grande a uma senhora que, quando nova, tinha lido muitos outros daquela autora; e disse-lhe que lhe falaria do senhor que me tinha ajudado tanto a encontrar o livro.
Ah, a terceira história! É de um senhor - o senhor Bernardo - que me “ataca” retorquindo à minha provocação: “Olhe, o senhor pode achar que não são bons, mas há pelo menos cinquenta e três anos que eu os vendo aqui e as pessoas não se queixam…” Mas, pronto, essa é só mesmo a terceira história. Que se fixa ao pé das outras pelo contraponto que delas faz.
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(1) Curiosamente, há uma densidade de ocorrências na vida do meu avô à volta dos dias 26, 27 e 28 de Junho. Por exemplo, meu avô nasceu a 26 de Junho; a Guerra começou a 28; há um registo (aparentemente contendo um erro), na sua Folha de Matrícula da G.N.R., de uma licença a 28 de Junho de 1917. Enfim... Que fique claro, não sou sensível a explicações místicas destas "coincidências"; ou simplesmente coincidências (sem aspas), como se queira.

domingo, 30 de março de 2014

"Os três «imortais» princípios da educação"

Psicologia - Frase da semana, 31mar14, "Os três «imortais» princípios da educação"



Segundo Cícero, os três princípios da Educação tradicional romana eram os seguintes: gravitas, pietas, simplicitas.
  • Gravitas representava o sentido da responsabilidade;
  • Pietas funcionava como o vínculo, por excelência, que ligava o homem romano: aos deuses, aos membros da sua família - vivos e mortos -, e à Cidade.
  • Simplicitas devia incutir o sentido do valor autêntico de cada pessoa e de cada coisa.


"«Imortais» chamámos aos princípios que Cícero nos transmitiu como constitutivos básicos da formação dos seus compatriotas. E não o serão, de facto? Não representarão eles valores permanentes, na sua essência, uma vez despojados, na medida em que isso é possível, das circunstancialidades de tempo e de espaço? Embora formulados numa sociedade «arcaica», não serão eles aptos - uma vez mais, na sua essência - a formar homens, que o sejam, na verdade, pertencentes a uma sociedade industrial?"
Estas interrogações - provavelmente, mais atuais que nunca -, encontramo-las deixadas pelo padre Manuel Antunes, em 30 de julho de 1970.
(padre Manuel Antunes, Obra Completa, tomo II, Paideia e Sociedade, 2.ª ed., 2008. F.C.G., p. 105-106.)
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"Behind such heroines were the nameless wives whose marital fidelity and maternal sacrifices sustained the whole structure of Roman life. The old Roman virtues — pietas, gravitas, simplicitas — the mutual devotion of parents and children, a sober sense of responsibility, an avoidance of extravagance or display—still survived in Roman homes."
(Will Durant, Caesar and Christ, 2011)

domingo, 9 de março de 2014

"Qual a origem do sucesso da espécie humana?"

 Psicologia - Frase da semana, 09mar14, "Qual a origem do sucesso da espécie humana?"


http://sociedadedospoetasamigos.blogspot.pt/
2012/11/mia-couto-professorbiologopoeta-e.html
Qual a origem do sucesso da espécie humana?
Mia Couto, tendo em mente o terreno da sua nacionalidade - Moçambique - afirma:
"(...) Essa habilidade em produzir diversidade, esse é o segredo da nossa vitalidade e das nossas artes de sobrevivência. (...)"

Um texto extraordinário a falar-nos de identidade e alteridade; discriminação e exclusão; estereótipos e preconceitos; criar, viver e morrer. Ser em harmonia com todas as formas e manifestações de vida.
´
POR UM MUNDO ESCULTURADO
(Mia Couto, Pensatempos, 2005, pp. 155-7)
Não existe alternativa: a globalização começou com o primeiro homem. O primeiro homem (se é que alguma vez existiu «um primeiro» homem) era já a humanidade inteira.
Essa humanidade produziu infinitas respostas adaptativas. O que podemos fazer, nos dias de hoje, é responder à globalização desumanizante com outra globalização, feita à nossa maneira e com os nossos propósitos. Não tanto para contrapor. Mas para criar um mundo plural em que todos possam mundializar e ser mundializados. Sem hegemonia, sem dominação. Um mundo que escuta as vozes diversas, em que todos são, em simultâneo, centro e periferia.
Só há um caminho. Que não é o da imposição. Mas o da sedução. Os outros necessitam conhecer-nos. Porque até aqui «eles» conhecem uma miragem. O nosso retrato - o retrato feito pelos «outros» - foi produzido pela sedimentação de estereótipos. Pior do que a ignorância é essa presunção de saber. O que se globalizou foi, antes de mais, essa ignorância disfarçada de arrogância. Não é o rosto mas a máscara que se veicula no retrato.
A questão é, portanto, a de um outro conhecimento. Se os outros nos conhecerem, se escutarem a nossa voz e, sobretudo, se encontrarem nessa descoberta um motivo de prazer, só então estaremos criando esse território da diversidade e da particularidade.
O problema parece ser que o de que nós próprios – os do Terceiro Mundo – nos conhecemos mal. Mais grave ainda: muitos de nós nos olhamos com os olhos dos outros. Um velho ditado africano avisa: não necessitamos de espelho para olhar o que trazemos no pulso. A visão que temos da nossa História e das nossas dinâmicas não foi por nós construída. Não é nossa. Pedimos emprestado aos outros a lógica que levou à nossa própria exclusão e à mistificação de nosso mundo periférico. Temos de aprender a pensar e a sentir de acordo com uma racionalidade que seja nossa e que exprima a nossa individualidade.
Fomos empurrados para definir aquilo que se chamam «identidades». Deram-nos para isso um espelho viciado. Só parece refletir a “nossa” 'imagem porque o nosso olhar foi educado identificarmo-nos de uma certa maneira. O espelho deforma o que temos amarrado no pulso. Pior que isso: amarra-nos o pulso. E aprisiona o olhar. Onde deveríamos ver dinâmicas vislumbramos essências, onde deveríamos descobrir processos apenas notamos imobilidades.
Em vez de tirarmos proveito das mestiçagens que historicamente fomos produzindo, contentámo-nos com essa ilusão estéril que é a procura de identidades «puras». Trocamos um namoro produtivo por uma cruzada infecunda. Em nome da ciência se esqueceram outras sabedorias, outras aproximações. A ciência se foi convertendo em algo muito pouco científico, uma acomodada certificação daquilo que se pensa ser a «realidade». Perdeu-se inquietação, arrojo e, sobretudo, perdeu-se a disponibilidade para experimentar outras vias de conhecimento.
No que este projeto deste grupo de cientistas sociais acredita é na possibilidade de uma ciência plural que aceite outros caminhos para se chegar a algo que deve ser entendido sempre de modo relacional e contextual – a verdade. Para isso, é preciso que nos deixemos encantar com a descoberta que fizermos das nossas próprias realidades em movimento.
Sou biólogo por formação. Os que estudam a evolução da nossa espécie sabem que não foi exatamente a inteligência que nos fez resistir à extinção. A glorificação do saber que se consagrou na forma como a nós mesmos nos designamos enquanto espécie traduz apenas uma parte da verdade.
A capacidade de produzir diversidade genética foi, sim, a caraterística humana que mais e melhor nos permitiu sobreviver. O sermos suficientemente diferentes entre nós mesmos (e as diferenças de uma para outra geração) ofereceu à evolução um leque de escolhas genéticas e produziu respostas adaptativas suficientemente diversas para que a Vida pudesse sempre escolher. Demos essa liberdade à Vida.
Essa habilidade em produzir diversidade, esse é o segredo da nossa vitalidade e das nossas artes de sobrevivência. Temos que saber manter essa capacidade – agora no plano cultural e civilizacional – para respondermos às novas ameaças que sobre todos nós pesam. As saídas que nos restam pedem-nos não o olhar do lince mas o olhar composto da mosca.
(Texto para o livro Moçambique e a Reinvenção da Emancipação Social, organizado por Boaventura Sousa Santos e Teresa Cruz e Silva, e publicado pelo Centro de Formação Jurídica e Judiciária, Maputo, março de 2005)




terça-feira, 3 de setembro de 2013

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Esta história, que peguei do mural do Facebook do meu velho amigo e companheiro Passarinho Brunheta é, muito provavelmente, uma ficção, como se fosse uma parábola.
Acontece que, sendo-o ou não, tem muito a ver com o espírito assertivo e ativo que a minha irmã, a Fátima Pinto, quis imprimir durante o seu mandato à frente da Associação de Pais da ESMA, na Horta, no Faial.
Por isso - e também porque a acho muito oportuna para o início de um ano escolar - reproduzo-a aqui, com algumas correções linguísticas e ajustamentos literários que tomo a liberdade de considerar pertinentes.
Um abraço de agradecimento ao Brunheta, e um beijinho de renovados parabéns à minha mana pelo trabalho muito interessante que fez à frente da sua associação de pais.

- PAI, MÃE: ACORDAI ENQUANTO TENDES TEMPO!

LEIAM ESTE TEXTO COM MUITA ATENÇÃO!!!


      - Era quarta-feira, 08H00 . Cheguei a tempo à escola do meu filho. «Não se esqueçam de vir à reunião de amanhã, é obrigatória», foi o que a professora tinha dito no dia anterior. - “Que é o que essa professora pensa? Acha que podemos dispor facilmente do tempo que ela diz? Se ela soubesse quanto era importante a reunião que eu tinha às 8h30!...” Dela dependia uma boa negociação... e tive que cancelá-la!
      Lá estávamos nós - mães e pais; e a professora. Começou a tempo, agradeceu nossa presença e começou a falar. Não lembro o que ela dizia, a minha cabeça estava pensando em como iria resolver esse negócio tão importante, já me imaginava comprando aquela série de coisas, o dinheiro não seria problema.
      - “João Rodrigues!” – escutei ao longe – “Não está o pai de João?” – diz a professora.
      - “Sim, estou aqui.” – contestei, indo para receber o boletim escolar do meu filho.
      Voltei p'ró meu lugar e disse ao abrir o boletim: -“Foi para isto que eu vim?... Que é isto?...” O boletim estava cheio de seis e setes. Guardei rapidamente o boletim, para que ninguém pudesse ver como tinha se saído o meu filho.
      De volta para casa, aumentava ainda mais minha raiva, cada vez que pensava: - “Mas, se eu lhe dou tudo o que ele quer e mais o que não quer, não tem faltando nada!..." Agora é que ele ia ver como era! Cheguei, entrei a casa, fechei a porta de uma batida e gritei: “Vem aqui, João!”
      O João estava no quintal, veio logo, correndo para abraçar-me. - “Pai!” 
       "Nada de pai, nem meio pai!” e afastei-o logo de mim. Tirei o meu cinturão e não lembro quantas vezes bati ao mesmo tempo em que lhe dizia o que pensava dele. Quando me cansei, gritei-lhe: - “Agora vai para o teu quarto!” O João foi, chorando desconsoladamente, a cara toda vermelha, toda a boca lhe tremia. Só nessa altura a minha esposa se chegou a mim. Não me disse nada, só mexeu a cabeça num gesto de desaprovação e voltou para a cozinha.
      Quando fui para a cama, já mais tranquilo, a minha querida esposa entregou-me o boletim do João, que tinha ficado dentro do meu casaco, e disse-me: - “Lê devagar, tudo, e depois pensa no que vais fazer...”

      Bem no começo estava escrito: 'BOLETIM DO PAI'.

  1. Pelo tempo que o teu pai dedica a conversar contigo antes de dormir: 6
  2. Pelo tempo que o teu pai dedica a brincar contigo durante o dia: 6
  3. Pelo tempo que o teu pai dedica a ajudar-te nos trabalhos de casa: 6
  4. Pelo tempo que o teu pai dedica a levar-te a dar um passeio com a família: 7
  5. Pelo tempo que o teu pai dedica a ler-te um livro antes de dormir antes de adormeceres: 6
  6. Pelo tempo que o teu pai dedica a abraçar-te e a beijar-te: 6
  7. Pelo tempo que o teu pai dedica a ver televisão contigo: 7
  8. Pelo tempo que o teu pai dedica para ouvir as tuas dúvidas ou problemas: 6
  9. Pelo tempo que o teu pai dedica a ensinar-te coisas: 7
  10. MÉDIA FINAL: 6,22

      As crianças, a pedido da professora, tinham  classificado os seus pais. O meu filho deu-me seis e setes... Sinceramente, eu tinha merecido cincos ou menos.
      Levantei-me e corri para o quarto dele, abracei-o e chorei. Queria poder voltar atrás no tempo... mas isso não era já possível. O João abriu os olhos, ainda os tinha inchados pelas lágrimas, sorriu-me, abraçou-me e disse-me: - “Gosto muito de ti, pai!" Fechou os olhos e adormeceu outra vez. Fiz-lhe uma festa assim muito de mansinho e beijei-o com toda a ternura que pude. Lembrei-me dos versos do António Nobre, "O sono do João"... Ah! Se António Nobre não os tivesse escrito, eu hoje seria seguramente capaz de os escrever!... O meu filho merecia isso e mais ainda todos os versos lindos do mundo!...

Acordemos pais!!! Aprendamos a dar o valor certo aquilo que é mais importante em relação aos nossos filhos, já que disso depende o sucesso ou fracasso na suas vidas.

- Já pensou qual seria a 'nota' que o seu filho lhe daria hoje?...
(Autor desconhecido.)

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Acabei de escrever assim no Facebook "SOU DO PEGO, SOU PEGACHA…"

Acabei de escrever assim no Facebook:
"SOU DO PEGO, SOU PEGACHA Não nego a minha nação Não sou como o meu amor Qu' é do Pego e diz que não." Tomo a ousadia de reclamar para a minha mãe, conhecida na sua terra como a Lourdes Branco, ou a Lourdes Pinto, a primazia de trazer para a Net esta quadra popular. A minha mãe tem agora 85 anos. A razão da lembrança destes versos será publicada já a seguir, num blogue que logo deixarei indicado. Por agora, submeto a minha ousadia à consideração de entidades que muito respeito, como são a TUBUCCI assoc.defesa património região ABRANTES, a ESCOLA INDUSTRIAL E COMERCIAL DE ABRANTES-ANTIGOS ESTUDANTES E FUNCIONÁRIOS, a Salvem da demolição o Real Convento S. Domingos de Abrantes e a Abrantes.
Na nossa família, fosse no círculo mais estreito da relações entre pai, mãe e os três filhos; fosse na família mais alargada, era frequente o meu pai provocar a minha mãe com a "acusação", desdenhosa, de que ela era pegacha. A minha mãe reagia com protesto vivo, exuberante.Esta disputa no casal era sempre sinal de boa disposição, contagiante a todos que estavam à volta do casal. Tornou-se claramente um marco da cultura familiar, que não foi esquecida em 2004, quando os filhos dedicaram aos pais uma linda festa de celebração das suas bodas de ouro.
A minha mãe é a segunda jovem costureira, de sorriso matreiro, da
esquerda para a direita na fotografia, que foi tirada
nos inícios dos anos 50 do século XX.
Hoje, estávamos (a minha mãe, a D. Luísa e eu) ao jantar, na casa da filha Maria de Fátima, lar que é uma das mais genuínas versões atuais do Solar das Azeiteiras (o mítico lugar de encontro da alegre Pintalhada), na Horta, no Faial. A televisão estava ligada e o telejornal passava uma notícia sobre Mação, que é da área geográfica das vivências, dos afetos e das memórias abrantinas da família.  A "Dona Lourdes" captou a referência a Mação; eu aproveitei para a provocar: perguntei-lhe se ela, como era pegacha, tinha ido muitas vezes do Pego a Mação.
É claro que o efeito foi diferente do que havia no jogo que ela jogava com o seu parceiro de vida, com nuances, rituais e cumplicidades que só eles conheciam e sabiam saborear. Espantosamente, e deixando-me imensamente contente por constatar uma notável agilidade mental -  e humor, muito humor! - a sempre negada pegacha olha-me bem nos olhos e com ar bem divertido, dando a volta por cima (porque sabia que eu a queria ver perder o controlo e "irritar-se" como fazia em saborosos tempos idos, com o seu maridinho),  recita-me a quadra... que eu nunca lhe tinha ouvido! Nem sei se os meus irmãos alguma vez a ouviram!... Mas não deixou de rematar, com o dedo indicador direito a exibir uma firme negativa: "Mas eu não sou pegacha!"