domingo, 30 de março de 2014

"Os três «imortais» princípios da educação"

Psicologia - Frase da semana, 31mar14, "Os três «imortais» princípios da educação"



Segundo Cícero, os três princípios da Educação tradicional romana eram os seguintes: gravitas, pietas, simplicitas.
  • Gravitas representava o sentido da responsabilidade;
  • Pietas funcionava como o vínculo, por excelência, que ligava o homem romano: aos deuses, aos membros da sua família - vivos e mortos -, e à Cidade.
  • Simplicitas devia incutir o sentido do valor autêntico de cada pessoa e de cada coisa.


"«Imortais» chamámos aos princípios que Cícero nos transmitiu como constitutivos básicos da formação dos seus compatriotas. E não o serão, de facto? Não representarão eles valores permanentes, na sua essência, uma vez despojados, na medida em que isso é possível, das circunstancialidades de tempo e de espaço? Embora formulados numa sociedade «arcaica», não serão eles aptos - uma vez mais, na sua essência - a formar homens, que o sejam, na verdade, pertencentes a uma sociedade industrial?"
Estas interrogações - provavelmente, mais atuais que nunca -, encontramo-las deixadas pelo padre Manuel Antunes, em 30 de julho de 1970.
(padre Manuel Antunes, Obra Completa, tomo II, Paideia e Sociedade, 2.ª ed., 2008. F.C.G., p. 105-106.)
________________________
"Behind such heroines were the nameless wives whose marital fidelity and maternal sacrifices sustained the whole structure of Roman life. The old Roman virtues — pietas, gravitas, simplicitas — the mutual devotion of parents and children, a sober sense of responsibility, an avoidance of extravagance or display—still survived in Roman homes."
(Will Durant, Caesar and Christ, 2011)

domingo, 9 de março de 2014

"Qual a origem do sucesso da espécie humana?"

 Psicologia - Frase da semana, 09mar14, "Qual a origem do sucesso da espécie humana?"


http://sociedadedospoetasamigos.blogspot.pt/
2012/11/mia-couto-professorbiologopoeta-e.html
Qual a origem do sucesso da espécie humana?
Mia Couto, tendo em mente o terreno da sua nacionalidade - Moçambique - afirma:
"(...) Essa habilidade em produzir diversidade, esse é o segredo da nossa vitalidade e das nossas artes de sobrevivência. (...)"

Um texto extraordinário a falar-nos de identidade e alteridade; discriminação e exclusão; estereótipos e preconceitos; criar, viver e morrer. Ser em harmonia com todas as formas e manifestações de vida.
´
POR UM MUNDO ESCULTURADO
(Mia Couto, Pensatempos, 2005, pp. 155-7)
Não existe alternativa: a globalização começou com o primeiro homem. O primeiro homem (se é que alguma vez existiu «um primeiro» homem) era já a humanidade inteira.
Essa humanidade produziu infinitas respostas adaptativas. O que podemos fazer, nos dias de hoje, é responder à globalização desumanizante com outra globalização, feita à nossa maneira e com os nossos propósitos. Não tanto para contrapor. Mas para criar um mundo plural em que todos possam mundializar e ser mundializados. Sem hegemonia, sem dominação. Um mundo que escuta as vozes diversas, em que todos são, em simultâneo, centro e periferia.
Só há um caminho. Que não é o da imposição. Mas o da sedução. Os outros necessitam conhecer-nos. Porque até aqui «eles» conhecem uma miragem. O nosso retrato - o retrato feito pelos «outros» - foi produzido pela sedimentação de estereótipos. Pior do que a ignorância é essa presunção de saber. O que se globalizou foi, antes de mais, essa ignorância disfarçada de arrogância. Não é o rosto mas a máscara que se veicula no retrato.
A questão é, portanto, a de um outro conhecimento. Se os outros nos conhecerem, se escutarem a nossa voz e, sobretudo, se encontrarem nessa descoberta um motivo de prazer, só então estaremos criando esse território da diversidade e da particularidade.
O problema parece ser que o de que nós próprios – os do Terceiro Mundo – nos conhecemos mal. Mais grave ainda: muitos de nós nos olhamos com os olhos dos outros. Um velho ditado africano avisa: não necessitamos de espelho para olhar o que trazemos no pulso. A visão que temos da nossa História e das nossas dinâmicas não foi por nós construída. Não é nossa. Pedimos emprestado aos outros a lógica que levou à nossa própria exclusão e à mistificação de nosso mundo periférico. Temos de aprender a pensar e a sentir de acordo com uma racionalidade que seja nossa e que exprima a nossa individualidade.
Fomos empurrados para definir aquilo que se chamam «identidades». Deram-nos para isso um espelho viciado. Só parece refletir a “nossa” 'imagem porque o nosso olhar foi educado identificarmo-nos de uma certa maneira. O espelho deforma o que temos amarrado no pulso. Pior que isso: amarra-nos o pulso. E aprisiona o olhar. Onde deveríamos ver dinâmicas vislumbramos essências, onde deveríamos descobrir processos apenas notamos imobilidades.
Em vez de tirarmos proveito das mestiçagens que historicamente fomos produzindo, contentámo-nos com essa ilusão estéril que é a procura de identidades «puras». Trocamos um namoro produtivo por uma cruzada infecunda. Em nome da ciência se esqueceram outras sabedorias, outras aproximações. A ciência se foi convertendo em algo muito pouco científico, uma acomodada certificação daquilo que se pensa ser a «realidade». Perdeu-se inquietação, arrojo e, sobretudo, perdeu-se a disponibilidade para experimentar outras vias de conhecimento.
No que este projeto deste grupo de cientistas sociais acredita é na possibilidade de uma ciência plural que aceite outros caminhos para se chegar a algo que deve ser entendido sempre de modo relacional e contextual – a verdade. Para isso, é preciso que nos deixemos encantar com a descoberta que fizermos das nossas próprias realidades em movimento.
Sou biólogo por formação. Os que estudam a evolução da nossa espécie sabem que não foi exatamente a inteligência que nos fez resistir à extinção. A glorificação do saber que se consagrou na forma como a nós mesmos nos designamos enquanto espécie traduz apenas uma parte da verdade.
A capacidade de produzir diversidade genética foi, sim, a caraterística humana que mais e melhor nos permitiu sobreviver. O sermos suficientemente diferentes entre nós mesmos (e as diferenças de uma para outra geração) ofereceu à evolução um leque de escolhas genéticas e produziu respostas adaptativas suficientemente diversas para que a Vida pudesse sempre escolher. Demos essa liberdade à Vida.
Essa habilidade em produzir diversidade, esse é o segredo da nossa vitalidade e das nossas artes de sobrevivência. Temos que saber manter essa capacidade – agora no plano cultural e civilizacional – para respondermos às novas ameaças que sobre todos nós pesam. As saídas que nos restam pedem-nos não o olhar do lince mas o olhar composto da mosca.
(Texto para o livro Moçambique e a Reinvenção da Emancipação Social, organizado por Boaventura Sousa Santos e Teresa Cruz e Silva, e publicado pelo Centro de Formação Jurídica e Judiciária, Maputo, março de 2005)




terça-feira, 3 de setembro de 2013

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=597437656974077&set=
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Esta história, que peguei do mural do Facebook do meu velho amigo e companheiro Passarinho Brunheta é, muito provavelmente, uma ficção, como se fosse uma parábola.
Acontece que, sendo-o ou não, tem muito a ver com o espírito assertivo e ativo que a minha irmã, a Fátima Pinto, quis imprimir durante o seu mandato à frente da Associação de Pais da ESMA, na Horta, no Faial.
Por isso - e também porque a acho muito oportuna para o início de um ano escolar - reproduzo-a aqui, com algumas correções linguísticas e ajustamentos literários que tomo a liberdade de considerar pertinentes.
Um abraço de agradecimento ao Brunheta, e um beijinho de renovados parabéns à minha mana pelo trabalho muito interessante que fez à frente da sua associação de pais.

- PAI, MÃE: ACORDAI ENQUANTO TENDES TEMPO!

LEIAM ESTE TEXTO COM MUITA ATENÇÃO!!!


      - Era quarta-feira, 08H00 . Cheguei a tempo à escola do meu filho. «Não se esqueçam de vir à reunião de amanhã, é obrigatória», foi o que a professora tinha dito no dia anterior. - “Que é o que essa professora pensa? Acha que podemos dispor facilmente do tempo que ela diz? Se ela soubesse quanto era importante a reunião que eu tinha às 8h30!...” Dela dependia uma boa negociação... e tive que cancelá-la!
      Lá estávamos nós - mães e pais; e a professora. Começou a tempo, agradeceu nossa presença e começou a falar. Não lembro o que ela dizia, a minha cabeça estava pensando em como iria resolver esse negócio tão importante, já me imaginava comprando aquela série de coisas, o dinheiro não seria problema.
      - “João Rodrigues!” – escutei ao longe – “Não está o pai de João?” – diz a professora.
      - “Sim, estou aqui.” – contestei, indo para receber o boletim escolar do meu filho.
      Voltei p'ró meu lugar e disse ao abrir o boletim: -“Foi para isto que eu vim?... Que é isto?...” O boletim estava cheio de seis e setes. Guardei rapidamente o boletim, para que ninguém pudesse ver como tinha se saído o meu filho.
      De volta para casa, aumentava ainda mais minha raiva, cada vez que pensava: - “Mas, se eu lhe dou tudo o que ele quer e mais o que não quer, não tem faltando nada!..." Agora é que ele ia ver como era! Cheguei, entrei a casa, fechei a porta de uma batida e gritei: “Vem aqui, João!”
      O João estava no quintal, veio logo, correndo para abraçar-me. - “Pai!” 
       "Nada de pai, nem meio pai!” e afastei-o logo de mim. Tirei o meu cinturão e não lembro quantas vezes bati ao mesmo tempo em que lhe dizia o que pensava dele. Quando me cansei, gritei-lhe: - “Agora vai para o teu quarto!” O João foi, chorando desconsoladamente, a cara toda vermelha, toda a boca lhe tremia. Só nessa altura a minha esposa se chegou a mim. Não me disse nada, só mexeu a cabeça num gesto de desaprovação e voltou para a cozinha.
      Quando fui para a cama, já mais tranquilo, a minha querida esposa entregou-me o boletim do João, que tinha ficado dentro do meu casaco, e disse-me: - “Lê devagar, tudo, e depois pensa no que vais fazer...”

      Bem no começo estava escrito: 'BOLETIM DO PAI'.

  1. Pelo tempo que o teu pai dedica a conversar contigo antes de dormir: 6
  2. Pelo tempo que o teu pai dedica a brincar contigo durante o dia: 6
  3. Pelo tempo que o teu pai dedica a ajudar-te nos trabalhos de casa: 6
  4. Pelo tempo que o teu pai dedica a levar-te a dar um passeio com a família: 7
  5. Pelo tempo que o teu pai dedica a ler-te um livro antes de dormir antes de adormeceres: 6
  6. Pelo tempo que o teu pai dedica a abraçar-te e a beijar-te: 6
  7. Pelo tempo que o teu pai dedica a ver televisão contigo: 7
  8. Pelo tempo que o teu pai dedica para ouvir as tuas dúvidas ou problemas: 6
  9. Pelo tempo que o teu pai dedica a ensinar-te coisas: 7
  10. MÉDIA FINAL: 6,22

      As crianças, a pedido da professora, tinham  classificado os seus pais. O meu filho deu-me seis e setes... Sinceramente, eu tinha merecido cincos ou menos.
      Levantei-me e corri para o quarto dele, abracei-o e chorei. Queria poder voltar atrás no tempo... mas isso não era já possível. O João abriu os olhos, ainda os tinha inchados pelas lágrimas, sorriu-me, abraçou-me e disse-me: - “Gosto muito de ti, pai!" Fechou os olhos e adormeceu outra vez. Fiz-lhe uma festa assim muito de mansinho e beijei-o com toda a ternura que pude. Lembrei-me dos versos do António Nobre, "O sono do João"... Ah! Se António Nobre não os tivesse escrito, eu hoje seria seguramente capaz de os escrever!... O meu filho merecia isso e mais ainda todos os versos lindos do mundo!...

Acordemos pais!!! Aprendamos a dar o valor certo aquilo que é mais importante em relação aos nossos filhos, já que disso depende o sucesso ou fracasso na suas vidas.

- Já pensou qual seria a 'nota' que o seu filho lhe daria hoje?...
(Autor desconhecido.)

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Acabei de escrever assim no Facebook "SOU DO PEGO, SOU PEGACHA…"

Acabei de escrever assim no Facebook:
"SOU DO PEGO, SOU PEGACHA Não nego a minha nação Não sou como o meu amor Qu' é do Pego e diz que não." Tomo a ousadia de reclamar para a minha mãe, conhecida na sua terra como a Lourdes Branco, ou a Lourdes Pinto, a primazia de trazer para a Net esta quadra popular. A minha mãe tem agora 85 anos. A razão da lembrança destes versos será publicada já a seguir, num blogue que logo deixarei indicado. Por agora, submeto a minha ousadia à consideração de entidades que muito respeito, como são a TUBUCCI assoc.defesa património região ABRANTES, a ESCOLA INDUSTRIAL E COMERCIAL DE ABRANTES-ANTIGOS ESTUDANTES E FUNCIONÁRIOS, a Salvem da demolição o Real Convento S. Domingos de Abrantes e a Abrantes.
Na nossa família, fosse no círculo mais estreito da relações entre pai, mãe e os três filhos; fosse na família mais alargada, era frequente o meu pai provocar a minha mãe com a "acusação", desdenhosa, de que ela era pegacha. A minha mãe reagia com protesto vivo, exuberante.Esta disputa no casal era sempre sinal de boa disposição, contagiante a todos que estavam à volta do casal. Tornou-se claramente um marco da cultura familiar, que não foi esquecida em 2004, quando os filhos dedicaram aos pais uma linda festa de celebração das suas bodas de ouro.
A minha mãe é a segunda jovem costureira, de sorriso matreiro, da
esquerda para a direita na fotografia, que foi tirada
nos inícios dos anos 50 do século XX.
Hoje, estávamos (a minha mãe, a D. Luísa e eu) ao jantar, na casa da filha Maria de Fátima, lar que é uma das mais genuínas versões atuais do Solar das Azeiteiras (o mítico lugar de encontro da alegre Pintalhada), na Horta, no Faial. A televisão estava ligada e o telejornal passava uma notícia sobre Mação, que é da área geográfica das vivências, dos afetos e das memórias abrantinas da família.  A "Dona Lourdes" captou a referência a Mação; eu aproveitei para a provocar: perguntei-lhe se ela, como era pegacha, tinha ido muitas vezes do Pego a Mação.
É claro que o efeito foi diferente do que havia no jogo que ela jogava com o seu parceiro de vida, com nuances, rituais e cumplicidades que só eles conheciam e sabiam saborear. Espantosamente, e deixando-me imensamente contente por constatar uma notável agilidade mental -  e humor, muito humor! - a sempre negada pegacha olha-me bem nos olhos e com ar bem divertido, dando a volta por cima (porque sabia que eu a queria ver perder o controlo e "irritar-se" como fazia em saborosos tempos idos, com o seu maridinho),  recita-me a quadra... que eu nunca lhe tinha ouvido! Nem sei se os meus irmãos alguma vez a ouviram!... Mas não deixou de rematar, com o dedo indicador direito a exibir uma firme negativa: "Mas eu não sou pegacha!"

quarta-feira, 3 de julho de 2013

«O que quer Deus ainda mais de mim?»

Hoje fui ao encontro de um jovem nigeriano que ando há vários dias a tentar ajudar. Caiu do céu, a queda foi amortecida por um anjo que depois mo deixou nos braços.

O rapaz tem um projecto de vida que, num meio envolvente cheio de escolhos e interesses mesquinhos, ele procura, com esforço denodado, manter vivo,numa experiência de desenvolvimento pessoal  que merece todo o nosso apoio e suporte amigo; voluntarioso e fraternal.

À entrada do prédio onde ele está agora a pernoitar com a solidariedade de um amigo, uma senhora, sobrecarregada com o peso das compras, desconfiou da ajuda que lhe ofereci enquanto esperava que, lá de cima, do 7.º andar, respondessem ao meu toque de campainha:

- “O senhor desculpe-me, mas hoje há tanta gente a invadir os nossos prédios… Tocam, só querem vir às nossas casas, é para pedirem-nos coisas, sei lá, são tantos!… Pensei que fosse desses.”


A senhora acabou por aceitar a minha ajuda. Fiquei com os sacos ali ao pé de mim e ela foi ver se tinha correio. Já idosa, apercebi-me, pelo peso dos sacos, que aquilo era um esforço físico muito exigente para ela. Entrou no elevador, eu segurava a porta. -”Qual é o andar?”, – “É o terceiro, obrigada…” Quando saiu do elevador já sorria. Olhou-me com cordialidade e agradeceu-me a ajuda.

O elevador retomou a subida, do 3.º ao 7.º andar. Depois de estar com o rapaz da Nigéria, saí pela mesma porta – antes de entrada, agora de saída – em que me cruzara com a senhora idosa. Lá à frente, em baixo, um velhote tentava, com a ajuda de uma bengala, subir os poucos degraus do passeio até à porta. Deixei-me ficar ali, segurando-a bem aberta para que o senhor entrasse. Trazia na mão livre da bengala uma pasta de documentos azul transparente. Apoiava o cotovelo desta mão no corrimão, em ajuda à subida dos degraus. Quando me viu à porta, a segurá-la, sorriu imediatamente e agradeceu-me.

Ao pé de mim, parou, suspirou fundo, ajeitou os óculos, olhou-me bem nos olhos e voltou a agradecer-me. Fiz-lhe uma festa discreta no braço, sorri-lhe e perguntei se precisava de mais alguma ajuda.

Não, não precisava, mas a minha pergunta – eu sabia que, com o meu gesto, me dispunha a que isso acontecesse – foi para o senhor apenas o pretexto para me falar; e eu, sem que tal me custasse,  fiquei ali a olhá-lo e a ouvi-lo. Ele que falasse o que quisesse!…

- “Isto está tão difícil… porque vive uma pessoa assim até à minha idade?…” E a conversa foi fluindo; admiravelmente com uma dignidade exemplar! “Porque cheguei eu a esta idade assim?… Sabe, senhor, eu não sabia porquê, mas agora já sei… Os homens na minha família morrem todos muito cedo… o meu pai morreu com 53 anos, o meu tio com quarenta e tal… só as mulheres chegam aos 85, aos 87 anos… Eu, se não houver nada antes, vou chegar aos 85 em novembro… E eu não sabia porquê… A vida está tão difícil, e eu estou tão fraco!… Eu perguntava-me muitas vezes «O que quer Deus ainda mais de mim?» Agora já sei, senhor… A minha mulher teve, durante muitos anos, uma grande depressão, andou anos num psiquiatra; depois disso veio o parkinson, passou para um neurologista, a seguir veio um acidente vascular cerebral… as reformas são o que são, tanto que nos têm tirado!… Andei a pagar um euro por dia para alugar a cadeira de rodas para a minha mulher, até que comprei uma cadeira de rodas só para ela… as sessões de fisioterapia andei a pagá-las a 50 euros cada uma, eram 500 euros por mês… depois, como não aguentava, e ela estava um bocadinho melhor, reduzimos o número de sessões mas ainda continuava a pagar 300 euros por mês… e tudo sem ajudas, sem a Segurança Social pagar nada!… Depois disseram-me para ir pedir ajuda social…Ó senhor, eu fui, mas para quê?… E tive de parar… A certa altura, da igreja só lá iam a casa por causa da roupa, era só para lavar a roupa, e todos os meses aumentava o preço!… Só para lavar a roupa, e já ia nos 60 euros por mês… Que faço eu, senhor?… A minha filha reformou-se como professora e a situação dela é cada vez pior com o que agora lhe vêm buscar à reforma. Estamos aqui em casa dela, se fosse na nossa casa, era mais difícil ter as consultas de fisioterapia e as outras coisas… Fui torneiro-mecânico e fazia as escalas de trabalho… dei o que pude no meu trabalho… Porque não me levou Deus como levou o meu pai, o meu tio e os outros homens da família? Agora já percebi porque ele quis que eu ficasse mais tempo que eles, a minha mulher precisa de mim… mas que vida é esta em que andamos, para quê fazer o que fazemos na vida, sempre a dar tudo o que temos?… Temos mesmo de acabar assim?…"

Falou-me sempre com muita firmeza e não se deixou abater pelas emoções, olhando-me frontalmente, por detrás dos óculos de velho. Os olhos mostravam sinais da vida que tão dramaticamente me resumiu. Pediu-me desculpa pelo tempo que me tinha tomado e agradeceu-me com renovado sorriso, também este, admiravelmente sereno.

Tentei também continuar a sorrir-lhe,  com muita ternura, e fiz-lhe outro gesto de carinho no braço direito. Ambos largámos a porta que ele segurava pelo lado de dentro e eu pelo lado de fora; a porta fechou-se brutalmente entre nós, separando-nos definitivamente. Olhámos ainda mais uma vez um para o outro e dissemos adeus com a mão. Fiquei a ver o senhor a virar-se lentamente, na direcção dos elevadores, arrastando os pés, curvado sobre a bengala na mão direita e a pasta azul na mão esquerda. Junto ao cotovelo, eram ainda visíveis no braço as marcas do esforço feito sobre o corrimão a subir os degraus.

Hoje não podia evitar o que senti e pensei a seguir: odiei com muita força os passos coelhos, os paulos portas, os antónios josés seguros, os durãos (sim, não são durões)  barrosos, os josés sócrates,  e toda essa corja de gente indigna!

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Aprender, educar, eduquês


O dr. Nuno Crato, ministro da Educação, vai ter de voltar aos livros, vai ter de estudar mais um bocadinho

BRAVO, NICO!... QUE TEXTO TÃO CLARO, QUE TEXTO TÃO DESAFIANTE PARA AS IDEIAS OFICIAIS DO NOSSO MINISTRO DA EDUCAÇÃO!...

"De acordo com notícia publicada no sítio electrónico do jornal PÚBLICO, em 5 de Junho de 2013, o ministro da Educação e Ciência referiu que é “contra o “eduquês” e as teorias de Jean Piaget”. Quando “questionado sobre o modo como as crianças aprendem, o ministro afasta a ideia do gosto pela aprendizagem”.
http://www.radiocampanario.com/r/index.php/
regional/134-federacao-ps-evora-bravo-nico-na-calha-
para-suceder-a-capoulas-santos

As anteriores palavras devem convocar-nos para uma reflexão séria e construtiva. Pode negar-se o contributo de alguém como Jean Piaget para compreender o que é e como se processa a aprendizagem? Pode negar-se o direito ao prazer de aprender, como se isso fosse incompatível com trabalho, rigor e esforço? Pode estar-se amarrado a pensamentos, cientificamente tão limitados e politicamente tão capturados de preconceitos?

Saberá o autor das palavras citadas anteriormente que o maior prazer de um estudante é sentir que o seu esforço é real, bem sucedido, valorizado e lhe proporciona felicidade quando ele: (i) sente que progride; (ii) coloca as questões certas e procura, criativa e sistematicamente, as suas respostas; (iii) recebe as críticas construtivas e beneficia do contraditório; (iv) é ambicioso nos seus objectivos de aprendizagem; (v) é capaz de inovar, arriscar, pensar fora da caixa e criar o inédito; (vi) tenta, erra e reformula o caminho, avaliando e melhorando as suas decisões; (vii) sente o incentivo e a confiança dos seus professores; (viii) constrói laços nos grupos onde coopera e cultiva a amizade; (ix) sente a vanguarda do conhecimento; (x) sente que tudo o que vive nas escolas e nas aulas contribui para a sua felicidade, como pessoa?

Sabe, sr. ministro, não se pode ordenar a alguém para que aprenda. Simplesmente, não resulta. As escolas não são prisões e a aprendizagem não é um castigo. De facto, aprendemos, mais e melhor, quando alguém nos lidera pelo exemplo, nos conquista pelos argumentos, nos impõe regras e critérios com justiça e equidade, nos incentiva pelos desafios, nos premeia pelos sucessos, nos ajuda nas dificuldades, nos estabelece bitolas ambiciosas, nos torna autónomos, nos ajuda a sentir a felicidade do esforço bem sucedido. Por outras palavras, sr. ministro, aprendemos, mais e melhor, quando nos sabem educar.

As neurociências têm evidenciado a relação entre a emoção e cognição. Na realidade, as palavras que entram directamente para o nosso coração são alavancas mais potentes para trabalharmos e nos sacrificarmos do que as ordens e as directivas, por mais autoritárias que sejam. É por isso que pessoas motivadas trabalham mais e se entregam mais às suas tarefas, projectos e responsabilidades. A aprendizagem, nestas condições, é mais profunda e edificante do que a que resulta exclusivamente da imposição externa.

A educação – tal como a matemática, a psicologia ou a economia – é uma ciência. Convém sermos humildes e aceitarmos o contributo de muitos dos que estudaram e estudam neste campo científico. Não podemos ignorar os contributos de Jean Piaget (o tal da aprendizagem), Georges Snyders (que estudou e escreveu umas coisas acerca da importância da felicidade na educação), António Damásio (que, entre outras coisas, tem estudado a relação entre emoção e cognição), Paulo Freire (para percebermos o que será a felicidade de se aprender a ser gente que conta e que tem direitos) ou Coménio, que, há 375 anos, já defendia uma escola promotora de uma educação global e, consequentemente, de uma sociedade mais justa. Devemos ainda revisitar a Teoria das Necessidades de Maslow, para compreendermos por que é que, hoje, as nossas crianças, mal alimentadas ou oriundas de famílias em grandes dificuldades sociais e económicas, têm muitas dificuldades em aprender a ler ou a calcular. Por último, a leitura de Amartya Sen permite-nos perceber por que é que a actual política de extinção da educação e formação de adultos condenará, irreversivelmente, o nosso país à pobreza.

Acredito que o sr. ministro sabe, certamente, isto tudo, porque teve professores que o fizeram sentir tudo isto. Foram estes professores que nos marcaram e nos ajudaram a construir, como pessoas e profissionais, porque – não nos subtraindo a trabalhos ou sacrifícios – nunca nos negaram o direito ao prazer de aprender.

Eduquês é negar, ignorar ou deixar capturar, por preconceitos ideológicos, a evolução científica na educação e os resultados de estudos científicos rigorosos realizados por instituições nacionais e internacionais credíveis e reconhecidas, acerca dos resultados das recentes políticas educativas em Portugal.

Bravo Nico
Ex- deputado do PS e professor da Univ. de Évora
Público on line, Opinião, terça-feira, 18 Junho 2013, às 00h00
BEIJINHO GRANDE À COLEGA MARIA EDUARDA LUZ PELA PISTA!

sábado, 14 de julho de 2012

A idade, os idosos e os velhos

Tornou-se uma das minhas motivações principais:
- ter a sabedoria para conseguir chegar a velho.
Um dos documentários em vídeo que mais me marcou como pessoa, como psicólogo, como educador e como professor começa com a morte solitária (ficcionada) de um avô que era muito acarinhado pelo seu neto. Já passaram muitos anos desde que vi o vídeo e lembro-me dele constantemente.
Há pouco tempo, tempo, afinal, tardio, tomei conhecimento da morte de Janey Cuttler, a extraordinária idosa que um dia foi à aventura do Britain's Got Talent, em 2010 (http://www.youtube.com/watch?v=8ADvp6fkMyQ). Quando o presidente do júri lhe perguntou quantos anos tinha esperado por aquele momento, notavelmente, num hino à sabedoria humana, a senhora respondeu: "Estou apenas grata por poder estar aqui esta noite..." Antes de responder, a senhora de 80 anos calou-se e pensou por breves instantes. Aposto o que terá passado pelo pensamento e pelo coração da maravilhosa senhora: toda uma vida em que muito provavelmente familiares e amigos não resistiram à Segunda Guerra e a tantos outros dramas da existência humana. A espontaneidade da senhora a dizer repetidamente, sinceramente, "Obrigado!" toca-nos profundamente. O humor da senhora é cativante e exemplar. Senhora mãe, avó e bisavó... Depois da fama, absurdamente, passo apenas pouco mais de um ano, Janey Cuttler morreu sozinha em sua casa. Só consigo desejar que a tivessem encontrado como encontrei, com o meu irmão, a nossa avó materna, na manhã que começava o dia triste: face absolutamente serena, tranquila, toda ela bem tapadinha, na cama que as extremosas filhas sempre aconchegavam quando a beijavam, à noite, e, enquanto desligavam o pequeno candeeiro, desejavam que tivesse um bom descanso.
Quer dizer, a ficção do documentário serve, em espelho fiel, a realidade social em que todos participamos.
Há velhotes que morrem sozinhos, uns aconchegados, outros não.
Parar e pensar. Valorizar, amar e respeitar. Porque é merecido. Porque assim se faz melhor a saúde e o bem-estar dos grupos humanos. É disto que se fala no texto que transcrevo. Um alerta magnífico para a nossa organização social. Vale para o presente, é precioso para o futuro.
Gostei muito de ler a entrevista, Professor Villaverde Cabral, meu caro amigo. Muito obrigado!
Vou divulgar como merece!

VER - Artigo


ENVELHECIMENTO ACTIVO
Secretaria de Estado para a 3ª Idade precisa-se

Quem o diz é Manuel Villaverde Cabral, do alto dos seus 70 activos anos, a propósito das políticas, ou da sua ausência, de envelhecimento. O presidente do Instituto do Envelhecimento considera a longevidade uma “bênção universal”, mas defende que o que faz realmente falta são manifestações e movimentos de expressão dos interesses e desejos dos próprios seniores, que podem não corresponder ao que defendem aqueles que falam em nome dos “idosos”
POR HELENA OLIVEIRA
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© Victor Machado
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Há cerca de três anos e a propósito da criação do Instituto do Envelhecimento, afirmou que “a política portuguesa para o envelhecimento é pensões e saúde”. Com a actual conjuntura económica a não dar margem para investir em “novas políticas”, é possível descortinar alguma melhoria na situação dos mais velhos em Portugal ou, pelo contrário, as notícias são ainda mais desoladoras?
As políticas públicas são mais uma questão de prioridades – conceitos, análises, finalidades, etc. – do que uma simples questão de dinheiro. Em termos estatísticos, as pessoas mais velhas, nomeadamente os reformados, são destinatários de fatias financeiras muitíssimo significativas (saúde, pensões, segurança social, onde se incluem, por exemplo, os chamados lares e os cuidados pessoais), mas esses recursos são, por assim dizer, inertes, contribuindo muito pouco para a activação dos seniores.
A isso acresce a falta de qualquer movimento de auto-organização por parte dos próprios seniores, de modo que a minha proposta é que seja criada uma secretaria de Estado para a 3.ª Idade, a fim, não de “dar dinheiro” aos idosos só porque são idosos, mas sim para coordenar as políticas existentes, identificar prioridades (cuidados prolongados, cuidados domiciliários de reabilitação, activação em geral, ensino ao longo da vida, mas também institucionalização, demências, etc.) e auscultar a voz dos mais velhos.
O tema do envelhecimento tem vindo a ganhar um interesse crescente, nomeadamente depois de a Comissão Europeia ter proclamado 2012 como o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações (AEEA&SG). Que resultados se podem esperar, na prática e para além de uma maior atenção para a temática, com este tipo de proclamações?
O Ano Europeu do EA&SG, em cujas actividades tenho participado regularmente, tem sobretudo servido para colocar o tema na agenda, mas ainda não vi – talvez ainda seja cedo, veremos o que acontece até ao fim do ano – que as políticas públicas no campo estejam a ser estudadas de maneira a tentar fazer melhor com o dinheiro que temos e a prevenir algumas das tendências negativas do crescente envelhecimento da população portuguesa, incluindo a questão, cada vez mais óbvia, do declínio drástico da natalidade (Portugal tem um índice de fertilidade dos mais baixos do mundo)!
Por enquanto, do ponto de vista das políticas, parece-me que se continua a laborar em dois grandes equívocos, para não dizer dois enormes erros: (1) colocar tudo o que não são pensões nem saúde, no sentido mais restrito, nas mãos da chamada “sociedade civil”, ou seja, nas mãos das IPSS; (2) confiar nas relações intergeracionais familiares para que os mais novos tratem dos mais velhos se e quando estes perderem a autonomia, seja física, mental ou financeira, e excluindo, sequer, debater a questão da institucionalização de “fim de vida”.
Ora, na minha opinião, qualquer destas “estratégias” (?), parecendo bem-intencionadas, não deixam de estar condenadas ao fracasso diante das tarefas gigantescas que se avizinham e da própria “inversão da pirâmide demográfica” a prazo de duas ou três décadas!
Quando ouvimos a expressão “envelhecimento activo”, a imagem que habitualmente vem à ideia é a de seniores a fazerem ginástica ou a correr alegremente com os netos. Todavia, o conceito implica novas perspectivas de emprego para os mais idosos, um maior envolvimento na sociedade e também as questões de autonomia. Sendo Portugal um dos países mais envelhecidos da Europa, até que ponto é que a nossa sociedade está preparada para olhar para os mais velhos como uma mais-valia e não como “um peso”?
Do ponto de vista mental, é óbvio que a velhice é vista pela generalidade da população, incluindo os seniores, como um “peso”! Toda a gente dirá o contrário, mas é isso que pensam(os). O envelhecimento activo existe, é benéfico, mas tem o inconveniente de ser condicionado exactamente pelos mesmo determinantes que o estado de saúde das pessoas, ou seja, a idade, o género, a escolaridade e o estatuto socioeconómico; portanto, as práticas de envelhecimento activo – entre as quais as actividades intelectuais são tão importantes ou mais do que as físicas! – não deixam de repristinar, replicar, o próprio estado de saúde. Dito isto, as futuras coortes seniores, a partir já daqueles que hoje têm 60 anos e, por maioria de razão, os que estão na casa dos 50, chegarão à idade maior com atributos escolares e até socioprofissionais muito superiores aos das pessoas que têm hoje 70 ou 80 anos. Portanto, deste último ponto de vista, as coisas vão melhorar por si, sobretudo no plano da(s) autonomia(s).
Já quanto aos conflitos intergeracionais em torno, em primeiro lugar, do emprego e da reforma e, em segundo, do investimento social em saúde+segurança social vs educação, esses só ganhariam em ser explicitados e debatidos, e não varridos para debaixo do tapete, o que só nos faz incorrer no grave risco da desconfiança geracional entre “jovens” e “velhos”.
Afirmou também, numa conferência recente, que é necessário desconstruir o paradoxo do envelhecimento. Pode explicitar melhor?
Acabo de falar desse paradoxo, a saber: se é verdade que o aumento da esperança de vida e dos anos de vida com qualidade constitui uma “bênção universal” para cada um de nós, não deixa de ser exacto, também, que o envelhecimento demográfico, este aumento da longevidade combinado como decréscimo acentuado da natalidade (muito abaixo da chamada taxa de reposição: 2,1 filhos por mulher em idade fértil), traz consigo toda uma série de riscos aos quais aludi acima: dependência dos muito idosos, insustentabilidade dos sistemas de segurança social e de saúde, conflitos intergeracionais, etc.
A solidão e o isolamento continuam a ser a face mais visível dos idosos em Portugal, sobretudo nas cidades, onde as redes de interajuda parecem ser quase inexistentes?
Não é verdade. Pelo contrário, as redes sociais dos seniores são tendencialmente fechadas sobre a família e a vizinhança próxima, mas são extremamente eficazes e resilientes. Na verdade, segundo o estudo que fizemos a este respeito, há mais seniores a ajudar outros seniores (e crianças) do que o contrário, isto é, pessoas idosas a receberem apoio regular de outras pessoas, incluindo ajuda profissional. O velho só e abandonado é, literalmente, um “mito urbano” que renasce cada vez que uma pessoa de idade morre efectivamente sozinha, coisa que a nossa demografia dificilmente evitará, mas que só prova que essa pessoa faleceu de causas associadas à própria idade, pois se estivesse doente e necessitasse de cuidados diários, a sua morte teria sido descoberta mais cedo ou teria mesmo sido acompanhada. O que é verdade é que se morre cada vez mais nos hospitais e nos chamados “lares”.
Que tipo de reflexão advoga para os “seniores do futuro” e que novas questões terão de ser abordadas?
A principal coisa que está a faltar, até por comparação com países como a Espanha, é algo a que chamo a biopolítica do envelhecimento, a saber, a emergência de manifestações e movimentos de expressão, por parte dos próprios seniores, dos seus interesses e desejos, os quais talvez nem sempre correspondam àqueles que são defendidos pelas instituições e as pessoas que, actualmente, falam em nome dos “idosos”.
Envelhecimento activo: problema ou realidade com tomada de consciência tardia?
© DR
O Instituto do Envelhecimento (IE) da Universidade de Lisboa tem parcerias firmadas com a Fundação Calouste Gulbenkian e com a Fundação Francisco Manuel dos Santos. A funcionar há quase três anos, são já várias as iniciativas que constam do seu currículo.

Como exemplificou Villaverde Cabral, “já fizemos uma série de estudos importantes, de que são exemplo um sobre os Seniores (50+) de Lisboa; outro sobre o preconceito e a discriminação etária, o “idadismo”; e um último sobre “os usos do tempo e as redes sociais dos seniores portugueses”. Está também em curso um estudo retrospectivo e prospectivo sobre o envelhecimento demográfico.

Entretanto, fizemos já vários workshops abertos e um Curso de Formação para Decisores e Responsáveis no campo do envelhecimento. O IE tem ainda protocolos com as câmaras municipais de Lisboa e Loures, para apoiar as suas actividades para a 3ª Idade, nomeadamente o programa das “Cidades Amigas dos Seniores”. Temos igualmente participado em inúmeros eventos, de todos os tipos e dimensões, realizados por todo o país, sobre os mais variados aspectos da problemática do envelhecimento populacional e individual.

E, como sublinha o seu presidente, “temos, creio, contribuído para chamar a atenção da opinião pública e da comunicação social para este ‘problema’, se é que se trata de um problema e não, simplesmente, de uma realidade da qual estamos a tomar consciência, aliás tardiamente, como é costume”.

Questionado igualmente sobre o tipo de práticas de envelhecimento activo já comprovadamente benéficas, o investigador é peremptório: “Essas práticas estão hoje perfeitamente identificadas e têm vindo a ser gradualmente aperfeiçoadas pela investigação biomédica, mas também sócio demográfica, como aquela que nós próprios fazemos no IE”, diz, elencando as mais conhecidas: “desde os estilos de vida saudáveis e os bons hábitos de saúde até à actividade intelectual, à intensificação das redes sociais (mais as efectivas do que as virtuais…) e à manutenção da vida profissional, tudo isso é conhecido; só que a adopção dessas práticas não depende apenas da vontade das pessoas nem das próprias políticas”. O professor alerta ainda que “faltam as políticas de envelhecimento activo, de que são exemplo o ensino ao longo da vida, a flexibilização da aposentação e do trabalho em part-time, entre outras”.

Villaverde Cabral: o professor dos sete ofícios
Nascido nos Açores em 1940, Manuel Villaverde Cabral tem tido uma vida particularmente activa e diversificada, tanto a nível académico, enquanto professor e investigador, como também na vida pública, enquanto colaborador regular na comunicação social escrita, radiofónica e televisiva. Licenciado em Letras pela Universidade de Paris, foi também em terras francesas que tirou o seu doutoramento em História, com posterior equivalência a doutoramento em Sociologia do Desenvolvimento. Investigador e docente em várias universidades portuguesas e estrangeiras, o homem que foi exilado político durante 11 anos antes do 25 de abril, é igualmente prolífico na escrita e na oratória, tendo organizado e co-editado mais de 20 livros, publicado mais de 70 artigos científicos e participado em inúmeras conferências.
Entrevista originalmente publicada no suplemento Mais Responsável do jornal OJE

VER© 2012 - Todos os direitos reservados. Publicado em 12 de Julho de 2012