segunda-feira, 24 de junho de 2013

Aprender, educar, eduquês


O dr. Nuno Crato, ministro da Educação, vai ter de voltar aos livros, vai ter de estudar mais um bocadinho

BRAVO, NICO!... QUE TEXTO TÃO CLARO, QUE TEXTO TÃO DESAFIANTE PARA AS IDEIAS OFICIAIS DO NOSSO MINISTRO DA EDUCAÇÃO!...

"De acordo com notícia publicada no sítio electrónico do jornal PÚBLICO, em 5 de Junho de 2013, o ministro da Educação e Ciência referiu que é “contra o “eduquês” e as teorias de Jean Piaget”. Quando “questionado sobre o modo como as crianças aprendem, o ministro afasta a ideia do gosto pela aprendizagem”.
http://www.radiocampanario.com/r/index.php/
regional/134-federacao-ps-evora-bravo-nico-na-calha-
para-suceder-a-capoulas-santos

As anteriores palavras devem convocar-nos para uma reflexão séria e construtiva. Pode negar-se o contributo de alguém como Jean Piaget para compreender o que é e como se processa a aprendizagem? Pode negar-se o direito ao prazer de aprender, como se isso fosse incompatível com trabalho, rigor e esforço? Pode estar-se amarrado a pensamentos, cientificamente tão limitados e politicamente tão capturados de preconceitos?

Saberá o autor das palavras citadas anteriormente que o maior prazer de um estudante é sentir que o seu esforço é real, bem sucedido, valorizado e lhe proporciona felicidade quando ele: (i) sente que progride; (ii) coloca as questões certas e procura, criativa e sistematicamente, as suas respostas; (iii) recebe as críticas construtivas e beneficia do contraditório; (iv) é ambicioso nos seus objectivos de aprendizagem; (v) é capaz de inovar, arriscar, pensar fora da caixa e criar o inédito; (vi) tenta, erra e reformula o caminho, avaliando e melhorando as suas decisões; (vii) sente o incentivo e a confiança dos seus professores; (viii) constrói laços nos grupos onde coopera e cultiva a amizade; (ix) sente a vanguarda do conhecimento; (x) sente que tudo o que vive nas escolas e nas aulas contribui para a sua felicidade, como pessoa?

Sabe, sr. ministro, não se pode ordenar a alguém para que aprenda. Simplesmente, não resulta. As escolas não são prisões e a aprendizagem não é um castigo. De facto, aprendemos, mais e melhor, quando alguém nos lidera pelo exemplo, nos conquista pelos argumentos, nos impõe regras e critérios com justiça e equidade, nos incentiva pelos desafios, nos premeia pelos sucessos, nos ajuda nas dificuldades, nos estabelece bitolas ambiciosas, nos torna autónomos, nos ajuda a sentir a felicidade do esforço bem sucedido. Por outras palavras, sr. ministro, aprendemos, mais e melhor, quando nos sabem educar.

As neurociências têm evidenciado a relação entre a emoção e cognição. Na realidade, as palavras que entram directamente para o nosso coração são alavancas mais potentes para trabalharmos e nos sacrificarmos do que as ordens e as directivas, por mais autoritárias que sejam. É por isso que pessoas motivadas trabalham mais e se entregam mais às suas tarefas, projectos e responsabilidades. A aprendizagem, nestas condições, é mais profunda e edificante do que a que resulta exclusivamente da imposição externa.

A educação – tal como a matemática, a psicologia ou a economia – é uma ciência. Convém sermos humildes e aceitarmos o contributo de muitos dos que estudaram e estudam neste campo científico. Não podemos ignorar os contributos de Jean Piaget (o tal da aprendizagem), Georges Snyders (que estudou e escreveu umas coisas acerca da importância da felicidade na educação), António Damásio (que, entre outras coisas, tem estudado a relação entre emoção e cognição), Paulo Freire (para percebermos o que será a felicidade de se aprender a ser gente que conta e que tem direitos) ou Coménio, que, há 375 anos, já defendia uma escola promotora de uma educação global e, consequentemente, de uma sociedade mais justa. Devemos ainda revisitar a Teoria das Necessidades de Maslow, para compreendermos por que é que, hoje, as nossas crianças, mal alimentadas ou oriundas de famílias em grandes dificuldades sociais e económicas, têm muitas dificuldades em aprender a ler ou a calcular. Por último, a leitura de Amartya Sen permite-nos perceber por que é que a actual política de extinção da educação e formação de adultos condenará, irreversivelmente, o nosso país à pobreza.

Acredito que o sr. ministro sabe, certamente, isto tudo, porque teve professores que o fizeram sentir tudo isto. Foram estes professores que nos marcaram e nos ajudaram a construir, como pessoas e profissionais, porque – não nos subtraindo a trabalhos ou sacrifícios – nunca nos negaram o direito ao prazer de aprender.

Eduquês é negar, ignorar ou deixar capturar, por preconceitos ideológicos, a evolução científica na educação e os resultados de estudos científicos rigorosos realizados por instituições nacionais e internacionais credíveis e reconhecidas, acerca dos resultados das recentes políticas educativas em Portugal.

Bravo Nico
Ex- deputado do PS e professor da Univ. de Évora
Público on line, Opinião, terça-feira, 18 Junho 2013, às 00h00
BEIJINHO GRANDE À COLEGA MARIA EDUARDA LUZ PELA PISTA!

sábado, 14 de julho de 2012

A idade, os idosos e os velhos

Tornou-se uma das minhas motivações principais:
- ter a sabedoria para conseguir chegar a velho.
Um dos documentários em vídeo que mais me marcou como pessoa, como psicólogo, como educador e como professor começa com a morte solitária (ficcionada) de um avô que era muito acarinhado pelo seu neto. Já passaram muitos anos desde que vi o vídeo e lembro-me dele constantemente.
Há pouco tempo, tempo, afinal, tardio, tomei conhecimento da morte de Janey Cuttler, a extraordinária idosa que um dia foi à aventura do Britain's Got Talent, em 2010 (http://www.youtube.com/watch?v=8ADvp6fkMyQ). Quando o presidente do júri lhe perguntou quantos anos tinha esperado por aquele momento, notavelmente, num hino à sabedoria humana, a senhora respondeu: "Estou apenas grata por poder estar aqui esta noite..." Antes de responder, a senhora de 80 anos calou-se e pensou por breves instantes. Aposto o que terá passado pelo pensamento e pelo coração da maravilhosa senhora: toda uma vida em que muito provavelmente familiares e amigos não resistiram à Segunda Guerra e a tantos outros dramas da existência humana. A espontaneidade da senhora a dizer repetidamente, sinceramente, "Obrigado!" toca-nos profundamente. O humor da senhora é cativante e exemplar. Senhora mãe, avó e bisavó... Depois da fama, absurdamente, passo apenas pouco mais de um ano, Janey Cuttler morreu sozinha em sua casa. Só consigo desejar que a tivessem encontrado como encontrei, com o meu irmão, a nossa avó materna, na manhã que começava o dia triste: face absolutamente serena, tranquila, toda ela bem tapadinha, na cama que as extremosas filhas sempre aconchegavam quando a beijavam, à noite, e, enquanto desligavam o pequeno candeeiro, desejavam que tivesse um bom descanso.
Quer dizer, a ficção do documentário serve, em espelho fiel, a realidade social em que todos participamos.
Há velhotes que morrem sozinhos, uns aconchegados, outros não.
Parar e pensar. Valorizar, amar e respeitar. Porque é merecido. Porque assim se faz melhor a saúde e o bem-estar dos grupos humanos. É disto que se fala no texto que transcrevo. Um alerta magnífico para a nossa organização social. Vale para o presente, é precioso para o futuro.
Gostei muito de ler a entrevista, Professor Villaverde Cabral, meu caro amigo. Muito obrigado!
Vou divulgar como merece!

VER - Artigo


ENVELHECIMENTO ACTIVO
Secretaria de Estado para a 3ª Idade precisa-se

Quem o diz é Manuel Villaverde Cabral, do alto dos seus 70 activos anos, a propósito das políticas, ou da sua ausência, de envelhecimento. O presidente do Instituto do Envelhecimento considera a longevidade uma “bênção universal”, mas defende que o que faz realmente falta são manifestações e movimentos de expressão dos interesses e desejos dos próprios seniores, que podem não corresponder ao que defendem aqueles que falam em nome dos “idosos”
POR HELENA OLIVEIRA
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© Victor Machado
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Há cerca de três anos e a propósito da criação do Instituto do Envelhecimento, afirmou que “a política portuguesa para o envelhecimento é pensões e saúde”. Com a actual conjuntura económica a não dar margem para investir em “novas políticas”, é possível descortinar alguma melhoria na situação dos mais velhos em Portugal ou, pelo contrário, as notícias são ainda mais desoladoras?
As políticas públicas são mais uma questão de prioridades – conceitos, análises, finalidades, etc. – do que uma simples questão de dinheiro. Em termos estatísticos, as pessoas mais velhas, nomeadamente os reformados, são destinatários de fatias financeiras muitíssimo significativas (saúde, pensões, segurança social, onde se incluem, por exemplo, os chamados lares e os cuidados pessoais), mas esses recursos são, por assim dizer, inertes, contribuindo muito pouco para a activação dos seniores.
A isso acresce a falta de qualquer movimento de auto-organização por parte dos próprios seniores, de modo que a minha proposta é que seja criada uma secretaria de Estado para a 3.ª Idade, a fim, não de “dar dinheiro” aos idosos só porque são idosos, mas sim para coordenar as políticas existentes, identificar prioridades (cuidados prolongados, cuidados domiciliários de reabilitação, activação em geral, ensino ao longo da vida, mas também institucionalização, demências, etc.) e auscultar a voz dos mais velhos.
O tema do envelhecimento tem vindo a ganhar um interesse crescente, nomeadamente depois de a Comissão Europeia ter proclamado 2012 como o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações (AEEA&SG). Que resultados se podem esperar, na prática e para além de uma maior atenção para a temática, com este tipo de proclamações?
O Ano Europeu do EA&SG, em cujas actividades tenho participado regularmente, tem sobretudo servido para colocar o tema na agenda, mas ainda não vi – talvez ainda seja cedo, veremos o que acontece até ao fim do ano – que as políticas públicas no campo estejam a ser estudadas de maneira a tentar fazer melhor com o dinheiro que temos e a prevenir algumas das tendências negativas do crescente envelhecimento da população portuguesa, incluindo a questão, cada vez mais óbvia, do declínio drástico da natalidade (Portugal tem um índice de fertilidade dos mais baixos do mundo)!
Por enquanto, do ponto de vista das políticas, parece-me que se continua a laborar em dois grandes equívocos, para não dizer dois enormes erros: (1) colocar tudo o que não são pensões nem saúde, no sentido mais restrito, nas mãos da chamada “sociedade civil”, ou seja, nas mãos das IPSS; (2) confiar nas relações intergeracionais familiares para que os mais novos tratem dos mais velhos se e quando estes perderem a autonomia, seja física, mental ou financeira, e excluindo, sequer, debater a questão da institucionalização de “fim de vida”.
Ora, na minha opinião, qualquer destas “estratégias” (?), parecendo bem-intencionadas, não deixam de estar condenadas ao fracasso diante das tarefas gigantescas que se avizinham e da própria “inversão da pirâmide demográfica” a prazo de duas ou três décadas!
Quando ouvimos a expressão “envelhecimento activo”, a imagem que habitualmente vem à ideia é a de seniores a fazerem ginástica ou a correr alegremente com os netos. Todavia, o conceito implica novas perspectivas de emprego para os mais idosos, um maior envolvimento na sociedade e também as questões de autonomia. Sendo Portugal um dos países mais envelhecidos da Europa, até que ponto é que a nossa sociedade está preparada para olhar para os mais velhos como uma mais-valia e não como “um peso”?
Do ponto de vista mental, é óbvio que a velhice é vista pela generalidade da população, incluindo os seniores, como um “peso”! Toda a gente dirá o contrário, mas é isso que pensam(os). O envelhecimento activo existe, é benéfico, mas tem o inconveniente de ser condicionado exactamente pelos mesmo determinantes que o estado de saúde das pessoas, ou seja, a idade, o género, a escolaridade e o estatuto socioeconómico; portanto, as práticas de envelhecimento activo – entre as quais as actividades intelectuais são tão importantes ou mais do que as físicas! – não deixam de repristinar, replicar, o próprio estado de saúde. Dito isto, as futuras coortes seniores, a partir já daqueles que hoje têm 60 anos e, por maioria de razão, os que estão na casa dos 50, chegarão à idade maior com atributos escolares e até socioprofissionais muito superiores aos das pessoas que têm hoje 70 ou 80 anos. Portanto, deste último ponto de vista, as coisas vão melhorar por si, sobretudo no plano da(s) autonomia(s).
Já quanto aos conflitos intergeracionais em torno, em primeiro lugar, do emprego e da reforma e, em segundo, do investimento social em saúde+segurança social vs educação, esses só ganhariam em ser explicitados e debatidos, e não varridos para debaixo do tapete, o que só nos faz incorrer no grave risco da desconfiança geracional entre “jovens” e “velhos”.
Afirmou também, numa conferência recente, que é necessário desconstruir o paradoxo do envelhecimento. Pode explicitar melhor?
Acabo de falar desse paradoxo, a saber: se é verdade que o aumento da esperança de vida e dos anos de vida com qualidade constitui uma “bênção universal” para cada um de nós, não deixa de ser exacto, também, que o envelhecimento demográfico, este aumento da longevidade combinado como decréscimo acentuado da natalidade (muito abaixo da chamada taxa de reposição: 2,1 filhos por mulher em idade fértil), traz consigo toda uma série de riscos aos quais aludi acima: dependência dos muito idosos, insustentabilidade dos sistemas de segurança social e de saúde, conflitos intergeracionais, etc.
A solidão e o isolamento continuam a ser a face mais visível dos idosos em Portugal, sobretudo nas cidades, onde as redes de interajuda parecem ser quase inexistentes?
Não é verdade. Pelo contrário, as redes sociais dos seniores são tendencialmente fechadas sobre a família e a vizinhança próxima, mas são extremamente eficazes e resilientes. Na verdade, segundo o estudo que fizemos a este respeito, há mais seniores a ajudar outros seniores (e crianças) do que o contrário, isto é, pessoas idosas a receberem apoio regular de outras pessoas, incluindo ajuda profissional. O velho só e abandonado é, literalmente, um “mito urbano” que renasce cada vez que uma pessoa de idade morre efectivamente sozinha, coisa que a nossa demografia dificilmente evitará, mas que só prova que essa pessoa faleceu de causas associadas à própria idade, pois se estivesse doente e necessitasse de cuidados diários, a sua morte teria sido descoberta mais cedo ou teria mesmo sido acompanhada. O que é verdade é que se morre cada vez mais nos hospitais e nos chamados “lares”.
Que tipo de reflexão advoga para os “seniores do futuro” e que novas questões terão de ser abordadas?
A principal coisa que está a faltar, até por comparação com países como a Espanha, é algo a que chamo a biopolítica do envelhecimento, a saber, a emergência de manifestações e movimentos de expressão, por parte dos próprios seniores, dos seus interesses e desejos, os quais talvez nem sempre correspondam àqueles que são defendidos pelas instituições e as pessoas que, actualmente, falam em nome dos “idosos”.
Envelhecimento activo: problema ou realidade com tomada de consciência tardia?
© DR
O Instituto do Envelhecimento (IE) da Universidade de Lisboa tem parcerias firmadas com a Fundação Calouste Gulbenkian e com a Fundação Francisco Manuel dos Santos. A funcionar há quase três anos, são já várias as iniciativas que constam do seu currículo.

Como exemplificou Villaverde Cabral, “já fizemos uma série de estudos importantes, de que são exemplo um sobre os Seniores (50+) de Lisboa; outro sobre o preconceito e a discriminação etária, o “idadismo”; e um último sobre “os usos do tempo e as redes sociais dos seniores portugueses”. Está também em curso um estudo retrospectivo e prospectivo sobre o envelhecimento demográfico.

Entretanto, fizemos já vários workshops abertos e um Curso de Formação para Decisores e Responsáveis no campo do envelhecimento. O IE tem ainda protocolos com as câmaras municipais de Lisboa e Loures, para apoiar as suas actividades para a 3ª Idade, nomeadamente o programa das “Cidades Amigas dos Seniores”. Temos igualmente participado em inúmeros eventos, de todos os tipos e dimensões, realizados por todo o país, sobre os mais variados aspectos da problemática do envelhecimento populacional e individual.

E, como sublinha o seu presidente, “temos, creio, contribuído para chamar a atenção da opinião pública e da comunicação social para este ‘problema’, se é que se trata de um problema e não, simplesmente, de uma realidade da qual estamos a tomar consciência, aliás tardiamente, como é costume”.

Questionado igualmente sobre o tipo de práticas de envelhecimento activo já comprovadamente benéficas, o investigador é peremptório: “Essas práticas estão hoje perfeitamente identificadas e têm vindo a ser gradualmente aperfeiçoadas pela investigação biomédica, mas também sócio demográfica, como aquela que nós próprios fazemos no IE”, diz, elencando as mais conhecidas: “desde os estilos de vida saudáveis e os bons hábitos de saúde até à actividade intelectual, à intensificação das redes sociais (mais as efectivas do que as virtuais…) e à manutenção da vida profissional, tudo isso é conhecido; só que a adopção dessas práticas não depende apenas da vontade das pessoas nem das próprias políticas”. O professor alerta ainda que “faltam as políticas de envelhecimento activo, de que são exemplo o ensino ao longo da vida, a flexibilização da aposentação e do trabalho em part-time, entre outras”.

Villaverde Cabral: o professor dos sete ofícios
Nascido nos Açores em 1940, Manuel Villaverde Cabral tem tido uma vida particularmente activa e diversificada, tanto a nível académico, enquanto professor e investigador, como também na vida pública, enquanto colaborador regular na comunicação social escrita, radiofónica e televisiva. Licenciado em Letras pela Universidade de Paris, foi também em terras francesas que tirou o seu doutoramento em História, com posterior equivalência a doutoramento em Sociologia do Desenvolvimento. Investigador e docente em várias universidades portuguesas e estrangeiras, o homem que foi exilado político durante 11 anos antes do 25 de abril, é igualmente prolífico na escrita e na oratória, tendo organizado e co-editado mais de 20 livros, publicado mais de 70 artigos científicos e participado em inúmeras conferências.
Entrevista originalmente publicada no suplemento Mais Responsável do jornal OJE

VER© 2012 - Todos os direitos reservados. Publicado em 12 de Julho de 2012

domingo, 1 de maio de 2011

A avó é a mãe duas vezes?

O tema "Mãe" foi um dos temas dominantes das minhas conversas diretas e das minhas interações virtuais na Internet. O outro tema foi a beatificação de João Paulo II. Sobre este segundo tema escreverei noutro lugar, oportunamente.
No que ao tema da Mãe diz respeito, pude, por diversas circunstâncias, umas mais felizes e outras menos felizes, aperceber-me da frequência da reunião, ou da simples menção, das três gerações: a avó, a mãe e a neta, a fazer lembrar o desafio que há muito anos ouvi e a que achei logo muita piada: "Duas mães e duas filhas vão à missa com três mantilhas. Como é isso possível?..."
No meio do que foi a minha experiência pessoal de hoje, qual cereja no topo do bolo, tive a satisfação de encontrar num livro de Alice Vieira, a valorizar a cultura familiar tradicional, uma afirmação do meu mestre João dos Santos:
- Uma criança não pode viver sem uma avó e sem uma aldeia; se não as tiver, é preciso inventá-las.
Alice Vieira expõe claramente no livro as suas ideias sobre o papel e - vigorosamente - os direitos da avó.
Recomendo a discussão, no seio das famílias e dentro das escolas, das ideias expostas pela escritora portuguesa; e a afirmação de João dos Santos, só por si, justifica outro serão, e outros workshops, habitualmente vespertinos.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

"Padre Motard", um livro extraordinário de Pedagogia

Dediquei todos  os bocadinhos que a Sexta-Feira Santa me permitiu, a continuar a leitura do livro do Padre José Fernando Lambelho, "Padre Motard".  Hoje, só "roubei" à leitura do livro do meu amigo-irmão Lambelho a fugida ao cimo do Monte Queimado, aqui no Faial. A graciosidade do dia, em evidente contraste com o cinzentão e o "ventosão" dos dias anteriores (todos, desde que cheguei à Horta, há mais de uma semana), foi uma tentação irresistível.
Agora é hora de saudar e dar as boas-vindas ao fantástico livro de Pedagogia que é o livro do Padre José Lambelho! O "Diário" de Sebastião da Gama e os textos do meu querido Mestre e amigo João dos Santos são minhas preciosas companhias de todos os dias. A um e outros, a partir de hoje, estará sempre junto o "Padre Motard". São os exemplos reais, são as sugestões, são as perspetivas, são as opções, são as crenças... Parabéns, Padre José Fernando, irmão e amigo! Que toque mágico o de Rosa Ramos! Que obra criaram, que riqueza nos trouxeram! Bem-hajam!
Deixo aqui um pequeno exemplo, quase pegado ao acaso, no meio de tantos!
"- Ouça lá, como é que uma pessoa tão inteligente como você ainda pode acreditar nessas coisas?  [em Deus, na religião]
Não lhes podia responder com palavras. Tinha de lhes responder com a vida, com factos e tão reais quanto possível. Enfrentava-os com um sorriso e recordava-se sobretudo da cena de Tomé, um dos apóstolos. Tinha que levá-los a crer por si próprios. Houve casos que demoraram anos. Muitos deles, só quando o viram com o mesmo entusiasmo a falar de Deus, quando ficou canceroso."
(in "Padre Motard", pág. 127. Editora Estrelapolar, 2011)

domingo, 5 de dezembro de 2010

Somos a nossa história, e a nossa história é sempre única

Na semana passada (foi no dia 23 de Novembro), quando ainda se ouviam os últimos ecos dos parabéns cantados ao Miguel, eu fui visitá-lo. Ao jantar, a mana, a Nicole, ainda a dois mesitos do primeiro aniversário, mesmo sentada lá ao fundo, na cadeira mais longe de mim, esticou firmemente, as vezes que pode, o indicador direito, claramente apontando as batatas fritas que a mãe acabara de tirar da sertã. Foi mesmo assim, todos tivemos de comer menos dois ou três palitos de batata porque ela também já aprendeu a gostar de batatas fritas e a reclamá-las quando o cheiro ou a forma estão ali por perto.
O Miguel, que agora já está bem mais crescido;
mas ele era assim quando me chamou "histórico".
Depois do jantar, fomos para a sala e andei com o Miguel às voltas na Inquisição e no reinado de alguns reis, que seriam tema para um teste de História dali a dois dias.
Pouco antes de os deixar, pedi ao Miguel que me autografasse o seu CD, Eu Nasci para Cantar, que foi recentemente lançado. O Miguel logo tratou de satisfazer o meu pedido, ali joelhado no chão da sala, com o CD posto em cima do sofá, entre mim e o pai. Quando acabou, levantou-se, empertigou-se, colocou a voz e leu-nos o que tinha escrito, terminando com um triunfal sorriso: "... Miguel Guerreiro!" "Miguel", pedi-lhe eu, enquanto ele tinha o CD e a esferográfica nas mãos, "põe a data, se fazes favor." Quase sem me deixar acabar a frase, o Miguel virou-se para mim, fez um largo sorriso, e exclamou: "Ah... O Fernando é um histórico!..."
Fui apanhado desprevenido pelo tão espontâneo comentário do Miguel (talvez feito em resultado, não sei, do assunto que antes nos ocupara), mas logo tomei consciência do que ele me queria dizer. E o que pensei agradou-me sinceramente, pelo que foi com redobrada cordialidade que lhe agradeci o autógrafo e o comentário. O Miguel Guerreiro tem razão, sou um "histórico"! Sim, gosto - eu preciso mesmo! - de marcar os acontecimentos, as coisas, mesmo que sejam momentos de nada, todos os que acontecem nalguma parte, nalgum momento das nossas vidas. O que faz a nossa individualidade é a singularidade das coisas que nos acontecem na vida. Podemos ter muitos acontecimentos idênticos nas vidas de todos nós (estudar, casar, adoecer, ficar triste; ganhar e perder, etc.), mas a maneira como tudo decorre, a sequência que  acontece, tornando causa nuns o que é consequência noutros, tudo isso é absolutamente único.
Na poeira cósmica que todos somos, há um pequeno grão dessa poeira, e só mesmo um, que conta a história de um jantar com o Miguel Guerreiro e a sua família, em que ele assinou um autógrafo e disse, a quem lho pediu, que ele era um histórico. Num tempo de poeira cósmica em que, por muito que se apele à reciclagem, o que domina ainda é o usa e deita fora; num tempo em que o jeito social é tocar e andar, e partir para outra; digo, num tempo assim, dizer como o Miguel disse, "Ah!... O Fernando é um histórico!..." é sinal de parar, olhar, e consciencializar que as coisas se sucedem numa sequência que dá sentido à vida de cada um.
A história é o que liga, é o que dá sentido. Obrigado, querido Miguel por este autógrafo tão especial!... Parabéns por essa sensibilidade! No fundo, tu, ingenuamente, espontaneamente, foste capaz de intuir essa condição que é a que torna a nossa espécie distinta de, quase seguramente, das outras: nós produzimos história. Provavelmente, no momento do meu pedido, tiveste tu primeiro consciência disso mesmo, eu só tive depois. Ainda bem que a tiveste, querido Miguel. Nem sabias tu que, dois dias depois, na minha escola, a celebração a que não pudeste ir estava precisamente centrada na história de pessoas que se juntam, se separam e depois têm vontade de se juntar outra vez; e levar outros consigo. Tantas vezes se veio a dizer, na minha escola, nesse tal dia dois dias depois do nosso jantar e do teu autógrafo, "... há trinta e dois anos..." Também um dia o teu autógrafo terá trinta e dois anos, e, nessa altura, terá uma história para contar. Uma história única. Se é ou será  importante essa história?...  Volto à poeira: na poeira cósmica que todos somos ou seremos, que história no Mundo há ou haverá história ou acontecimento mais importante que a do autógrafo que assim me deste?... Lamentável é que,  hoje em dia, tanta gente no Mudo, tantos políticos que nos governam, parecem esquecidos de essa nossa tão fundamental condição, a da história da vida pessoal de cada um e de todos. Condição de verdadeira humanidade.

sábado, 6 de junho de 2009

Saudação aos alunos finalistas da ESEQ em 2008/09

Saudação aos alunos finalistas da ESEQ em 2008/09

Não pude estar, ao contrário do que era meu desejo, na Festa de Finalistas dos alunos da minha Escola, a Secundária Eça de Queirós, nos Olivais, em Lisboa.
Deixei-lhes uma saudação. Que agora aqui torno pública. No geral, estes alunos foram cepa que produziu bons frutos. Frutos de bom alimento para os professores e para as pessoas que os professores são. Garanto-o com o meu testemunho pessoal.
SAUDAÇÃO AOS ALUNOS FINALISTAS DA E.S.E.Q., ANO LECTIVO 2008/09
Queridos alunos,
            Sei que alguns de vocês gostariam, muito sinceramente, que eu estivesse aí nesse jantar, convosco. Mas não posso.
            O professor Acúrcio, meu mano, mesmo que filhos de pais diferentes, sabe as razões. Se vocês as soubessem também, sei que me compreenderiam. O meu mano, esse, já me perdoou a falta.
            Esta ocasião é uma ocasião muito oportuna para citar o versículo bíblico de que tanto gosto, que tanto me diz:
            – Fala, ancião, porque isso te compete; mas com discrição, não perturbes a música.
            Tenho mantido, nos últimos tempos, uma troca epistolar muito interessante com um jovem aluno da nossa escola, que, eventualmente, estará presente nesse jantar. Ele é um rapaz magnífico, e as cartas que temos trocado têm sido para mim um prazer muito grande.
            Mas, como lhe disse numa das últimas cartas que lhe mandei, houve tempos em que andei muito zangado com as palavras, odiei Fernando Pessoa e abominei tudo aquilo que ele escreveu.
            A razão foi que, por causa das suas palavras (palavras arrumadas por quem tem jeito em mexer com elas), o meu grande ídolo daquela altura, o nadador português Rui Abreu se suicidou estupidamente, sozinho, numa banheira, no quarto da sua universidade, nos Estados Unidos, onde chegara com mérito e quando parecia que a vida lhe sorria e prometia um futuro de sonho. Ao lado da banheira, aberto, estava o livro com as terríveis palavras de Fernando Pessoa.
            A solidão é mesmo uma coisa terrível! É da solidão que um grande amigo meu, um pouco mais velho do que eu, tem agora um medo cada vez maior.
            Contudo, um dia destes, aconteceu-lhe uma coisa inesperada, que lhe trouxe apaziguamento e outra coragem para enfrentar os anos que antecipa à sua frente. Ele reencontrou um antigo aluno, que não via há cerca de 20 anos. E saudou-o tocando-lhe no ombro esquerdo com a sua mão direita, como sempre fazia com os seus alunos, olhando-os de frente.
            O aluno, agora homem crescido, pousou a sua mão direita sobre a mão do seu antigo professor e, num suspiro que lhe veio do fundo da alma, disse para o meu amigo:
            - Que bom, professor!… As saudades que eu tinha desse seu gesto!… Esse seu gesto é único, fez-me sempre tanto bem.
            Quando o meu amigo me contou este episódio, eu falei-lhe dos gestos em que tocamos nos outros para nos excitarmos com esse toque; e nos gestos em que tocamos para, pelo contrário, podermos sentir nos outros a sua alegria de estarem connosco. E a nossa alegria de estarmos com eles.
            As citações de autores e personagens célebres são coisas complicadas. São bonitas, podem ser profundas, mas podem também ter o encanto das serpentes tentadoras. Há frases lindíssimas escritas por homens tenebrosos!
            Muito recentemente, recebi da minha colega Ermelinda uma daquelas citações que agora, recorrentemente, aparecem nas nossas caixas de correio da Internet. Só que, desta vez, vinha magnificamente ilustrada por uma aguarela lindíssima que ela própria pintou.
            A citação é de… Charles Chaplin?… Saint-Exupéry?… ou… Diz assim:
“Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha,
porque cada pessoa é única e nenhuma outra a substitui.
Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha,
e não nos deixa só, porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós.
Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova
de que as pessoas não se encontram por acaso.” 
            Queridos alunos, queridos colegas,
 Permitam-me a fantasia de vos fazer uma proposta:
            - Mano Acúrcio, orienta aí o pessoal!… 
            Passem o vosso braço por detrás de quem tiverem à vossa direita e poisem a vossa mão sobre o seu ombro. Deixem-se estar assim um bocadinho, sintam esse bocadinho e guardem-no na vossa memória. Procurem tomar consciência da alegria que neste momento vos percorre. Só da alegria mesmo! Porque a tristeza e a saudade também estarão hoje aí no meio de vocês. Seguramente. Por isso, repito, dêem primazia à alegria e tentem tomar consciência da alegria e do prazer que é estarem assim juntos.
(…)
            Vamos ver quem se lembrará deste gesto daqui a 20 anos.
            Desejo a todos um bom jantar, desejo a todos uma festa linda!
            Como dizem os Trovante, num poema dedicado a uma pessoa muito especial, que tive a felicidade de conhecer e de quem fui grande amigo,
Há quem espere por nós assim
mesmo ao meio da rota do fim
há quem tenha os braços abertos
para nos aquecer
e acenar no fim.
            Queridos alunos finalistas, na Escola Secundária Eça de Queirós haverá sempre alguém de braços abertos à vossa espera, para vos receber com alegria e companheirismo.
            Numa dádiva que me esforçarei sempre por merecer, recebi do nosso querido aluno João Soares Matos, já nesta semana, uma mensagem no meu blogue que diz assim, entre outras coisas belas e deliciosas:Com esforço e dedicação, todas as estrelas estão à distância de um abraço. (…) Sinto-me privilegiado por frequentar a Eça de Queirós, que brilha sob o céu azul todos os dias.”           
Queridos alunos,
- Felicidades nas vossas vidas, vão dando notícias!
            – Até sempre, queridos alunos!
            – Até um dia destes na Escola, queridos colegas e amigos!

quinta-feira, 19 de março de 2009

O papel do pai, no Dia do Pai

No Ciência Hoje, hoje precisamente:

Papel do pai é fundamental para desenvolvimento sócio-emocional da criança: 2009-03-19

«Pai, conta-me uma história»
Estudos recentes, feitos por investigadores do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), concluem que "a presença do pai na vida da criança tem um papel fundamental para o seu desenvolvimento sócio-emocional a vários níveis".
Na sua tese de mestrado intitulada "Pai, conta-me uma história - A importância do Pai no Desenvolvimento da Auto-estima na Criança", apresentada em Março, a psicóloga Inês Rito concluiu que "as crianças que têm um pai presente, com o qual coabitam na mesma casa, têm um nível de auto-estima superior àquelas que têm um pai ausente, com o qual não vivem".
Para este estudo, a investigadora inquiriu 81 crianças, com idades entre os oito e os doze anos, das quais 51 têm um pai presente e 30 têm um pai ausente. Para medir o desenvolvimento da sua auto-estima, utilizou o método de Susan Harter, um instrumento científico utilizado para este fim nas crianças, através de perguntas que têm uma escala de auto-avaliação. O método diz respeito a vários domínios, nomeadamente a competência escolar, que mede o quão competente a criança se sente, a aceitação escolar, que mede o quão popular ou socialmente aceite a criança se auto-avalia, entre outros aspectos.
"Depois de analisar todas as respostas nos dois grupos de crianças, concluí que as crianças com pai presente têm os seus níveis de auto-estima bastante superiores àquelas não vivem com o pai", disse à Agência Lusa Inês Rito. A psicóloga defende que "o pai é um pilar muito importante no desenvolvimento de qualquer criança", mas assume que "nem sempre os pais presentes são uma mais-valia", referindo-se àqueles que, embora presentes, não convivem directamente com os filhos.
Melhora a qualidade da relaçãoEnvolvimento do pai é fundamental
Um outro estudo feito na Unidade de Psicologia Cognitiva do Desenvolvimento e da Educação do ISPA e também divulgado neste mês de Março concluiu, de forma semelhante, que "quanto maior é a participação e o envolvimento do pai no crescimento e educação da criança melhor é a qualidade da relação que se estabelece entre ambos".
Segundo a psicóloga Manuela Veríssimo, uma das responsáveis pela investigação e docente do ISPA, "a figura do pai tem uma grande importância na vinculação com o progenitor e a sua imagem na família, enquanto um ser um pouco esquecido, começa a ser encarada de outra forma".
A amostra deste estudo consistiu em entrevistas a 44 díades mãe/criança e pai/criança, tendo as crianças, em média, 31,91 meses, sendo 23 do sexo feminino e 21 do sexo masculino, com mães e pais a trabalhar a tempo inteiro. Foram feitas análises à participação do pai nas actividades e à qualidade da vinculação pai/filho, que permitiram chegar a estas conclusões.
"Apesar de, hoje em dia, ser quase sempre a mãe a realizar as tarefas domésticas, a ir às reuniões da escola ou a ficar em casa quando os filhos estão doentes, o pai participa de forma igualitária nas actividades lúdicas da criança", pode ler-se nas conclusões da investigação. Ainda na área das actividades lúdicas, estes investigadores concluíram que "quanto mais elevadas as habilitações literárias do pai maior a sua participação nas actividades de brincadeira/lazer".
O Dia do Pai assinala-se hoje, dia 19 de Março.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Saudação e agradecimento aos meus alunos finalistas

Saudação e agradecimento aos meus alunos finalistas

Hoje queimaram-se as cábulas lá na Escola. E os alunos fizeram a entrega dos óscares aos professores.
Depois do ritual, deixei a Escola e fui para casa. Almocei e pus-me à frente do computador. Quis mandar logo a seguinte mensagem aos meus alunos:
Caros alunos e queridas alunas,
A Queima das Cábulas e a Entrega dos Óscares são brincadeiras recorrentes nas escolas. Por isso tornam-se rituais que estabelecem fronteiras entre um antes e um depois, mas são fronteiras que não separam, antes pelo contrário. Estas brincadeiras ritualizadas têm o condão de confirmar laços afectivos que perdurarão mesmo para além das separações físicas inevitáveis entre os professores, que ficam, e os alunos, que partem, porque é da natureza do seu desenvolvimento partirem. Com estas brincadeiras, um cantinho novo se aconchega e consolida nos corações de todos.
Este ano foi, sem dúvida, um dos meus anos escolares mais conseguidos. Estou muito contente do trabalho que fiz com todos vós e, como sou um emotivo secundário, haverá um dia, dentro de pouco tempo, em que, liberto da pressão das avaliações, dos exames e dos relatórios, pensarei em vós. E nessa altura deixarei, tranquilamente, que os meus olhos se humedeçam e os meus lábios desenhem o sorriso que a memória das coisas que fiz convosco vai seguramente e deliciosamente produzir.
As coisas são o que são, os professores não são indiferentes às apreciações e comentários dos seus alunos.
Ser baptizado “Sr. Ecológico”, é claro que fico imensamente contente. Quer dizer, entre outras coisas, que fui capaz de deixar uma mensagem sobre a terrível doença de que a velha Gaia, a Deusa da Terra, padece nos tempos que vivemos; o que, nos dias de hoje, é vitalmente importante para todos nós.
Ser baptizado “Charlot”, é outro motivo de grande contentamento. Será que deixei a mensagem de que não sou indiferente à condição seja de quem seja e que a força da solidariedade está, não nas roupas que se vestem, não da riqueza material que se possui, mas simplesmente no olhar atento e no coração que se enternece?
Ser, no mesmo ano, baptizado Sr. Ecológico e Charlot, é, porventura, o dois em um que eu alguma vez poderia ambicionar!
Obrigado a todos! Com alguns de vós, eu tive momentos difíceis. Mas nunca o confronto tolheu a nossa capacidade de aprender, nunca abafou o diálogo; pelo contrário, com o confronto crescemos e desenvolvemo-nos. Também eu cresci e me desenvolvi, podem crer.
Desejo-vos as maiores felicidades. O Charlot do baptizado de hoje é o Charlot do quadro que os meus colegas de trabalho numa escola de ensino especial me ofereceram há cerca de 30 anos, dizendo “Contigo, nunca alguém continuará sozinho ou sem esperança…” Como vêem, o Charlot continua vivo!
Contem sempre comigo ao vosso lado!
Beijos e abraços para todos!

sábado, 29 de abril de 2006

Amoras em roupa lavada

Ontem ao fim da tarde sentia-me cansadíssimo. Tão cansado que, assim que acabei a última aula, antecipei com redobrada satisfação a ocasião de um jantar de conversa com um bom amigo. Optámos por ir comer grelhados e ele insistiu, já à mesa, que fosse eu a escolher o vinho. A lista era enorme e os preços de alguns eram elevadíssimos. Optei por um que me despertou curiosidade porque provinha de uma região que me trazia recordações agradáveis, a região de Armamar. Não conhecia o vinho, íamos ver o que valia. Além disso, o preço era razoável.
A minha escolha deixou o empregado que recolheu o nosso pedido visivelmente satisfeito, fez um largo sorriso, e fez questão de nos dizer porque ficara tão satisfeito: aquele vinho era da região dele, ele era de Armamar.
Nessa altura dei mais atenção ao rapaz e reparei que ele era muito jovem. Na breve conversa que um restaurante cheio de clientes à hora do jantar permite, trocámos reconhecimentos de sítios que nos eram familiares: Goujoim, Gojim, Travanca…
Talvez tenha sido o sorriso do rapaz que me trouxe à lembrança o Fernando, meu homónimo, rapazinho de família bem modesta que eu conheci em Goujoim há muitos anos. O Fernando não precisa que nada nem ninguém mo traga à memória, recorrentemente ele vem por ele próprio. Na casa da aldeia, a fazerem parte da ambiência familiar que sempre muito acolhedoramente me recebia, eram muitas crianças juntas, todas pequenas, entre irmãos, primos e sobrinhos; com alguns destes mais velhos que os próprios tios. O Fernando, criança e tio, sem o saber, acabou por tornar-se o autor de uma das mais deliciosas memórias de vida que tenho.
Foi assim: nós tínhamos chegado a Goujoim na noite do dia anterior, um dia do Verão de 77, talvez 78. Tão tarde que foi praticamente chegar, cumprimentar a tia Adosinda (outra curiosidade do restaurante de ontem, o vinho que pedimos "puxava" à semelhança no nome, chamava-se Ardosino), que se mantivera de pé para nos receber, e irmos para a cama.
Nessa noite, dormi tão consoladoramente que, ao contrário do que é habitual, não dei conta de nada que se estivesse a passar à minha volta. Entretanto, se normalmente acordo com o Sol, aquele dia não foi excepção. Contudo, também ao contrário do que é habitual, na aparência do meu comportamento físico só os olhos acordaram, o resto do corpo não, não se contorceu nos vulgares movimentos de espreguiçamento matinal e parecia que se mantinha a dormir. E mesmo os olhos acordaram tão devagar que o Fernando, que estava sentado ali à minha cabeceira, não deu conta que eu tinha acabado de acordar. Ele estava de corpo bem voltado para mim, a pouco menos de um metro de distância. Naquele momento, ele olhava pela janela fora, talvez a ver as movimentações de alguém da família, que morava logo ali a seguir, na Casa Preta. Não sei porquê, "instintivamente" cerrei os olhos, tão devagar quanto quando os tinha aberto pouco antes. No fundo, eu não queria que ele ouvisse o barulho dos olhos a fecharem-se outra vez. Cerrei-os o suficiente para que ele não se apercebesse de que eu tinha acordado, mas, ao mesmo tempo, me deixasse manter uma visão nítida do rapaz.
Todo este instintivo cuidado permitiu-me fruir inteiramente o encantamento do momento.
O Fernando, num notável desenho do meu
querido aluno, amigo e companheiro Vasco Lopes
Fixei bem a atenção no Fernando e, aos poucos, fui-me dando conta de todos os elementos sensoriais que faziam parte da sua presença discreta ali ao pé de mim. Era bem evidente que ele já tinha tomado banho nessa manhã e que tinha vestido roupa lavada, da cabeça aos pés. A t-shirt era de um verde-limão muito agradável à vista, e estava toda tingida de gotas de rosa forte, gotas iguais à do vinho que no restaurante de ontem escolhi para o jantar com o meu amigo Rodrigo. Nas mãos, o Fernando segurava um saco de plástico verde-azeitona. As mãos dele estavam também tingidas com a cor do vinho.
Deixei-me ficar ali, fingidamente adormecido, a apreciar aquele delicioso quadro vivo. Vi o Fernando suspirar profundamente... Profundamente, mas silenciosamente, não fosse ele acordar-me, como a cotovia poderia também ter feito ao João no poema de António Nobre. Eu sentia-me bem a vê-lo limpo e tingido, a cheirar a lavado. O tempo passava tão lentamente que pude juntar aos cheiros agradáveis do rapazinho os aromas frescos da manhã na aldeia que entravam pela janela por onde ele olhava quando deixava de olhar para mim. Havia ainda um outro aroma, pregnante, doce, que, pouco depois, me apercebi que vinha de dentro do saco que o Fernando segurava nas mãos.
Finalmente os nossos olhares cruzaram-se. O Fernando fez um sorriso tão grande que a pele da cara se engelhou toda, como sempre acontecia quando ele sorria com muita intensidade. Só a testa continuou lisa, acentuando mesmo o brilho natural, quase espelhando nela o sol que entrava pela janela. Era o sorriso do rapaz a quem pedi o vinho no restaurante, só que o do Fernando era mil vezes mais intenso! O pequeno vizinho da tia Adosinda não me tinha visto chegar na véspera, apenas soubera que eu tinha chegado. “Tome, são para si…” disse o Fernando estendendo-me o saco que tinha nas mãos. Assim mesmo, sem me dizer mais nada. Puxei-me para cima na cama, não tive dúvida nenhuma que tinha de reagir prontamente ao que ele tão decididamente me oferecia. Na posição de sentado, aconcheguei a almofada às costas e aceitei o saco.
O saco estava abundantemente fornecido de amoras prenhes de suco tinto. “Coma, insistiu o Fernando, fui apanhá-las agora.” Sim, eu olhava para ele, outra vez da cabeça aos pés, e não tinha quaisquer dúvidas de que ele tinha acabado de as apanhar! Até conseguia lembrar-me da amoreira em que ele tinha realizado a sua tão matinal - e maravilhosa! - ideia. É que tínhamos parado ali os dois, ficando a conversar ao pé dela, no Verão do ano anterior.
Será que eu poderia simbolicamente dizer que a conversa dos dois tinha dado frutos?... Ou que era o próprio Fernando, meu homónimo, que me estava a dizer isso?... Comi 2 ou 3 amoras e convidei-o a que comesse algumas comigo. “Não, essas são todas para si… Eu depois vou apanhar mais para mim…” Continuei a olhar para ele. O sorriso do Fernando mantinha toda a intensidade. A amoreira ficava ainda longe das casas, a meio do caminho bem declivoso para a ribeira. Realmente, que esforço o dele!... Olhei para dentro do saco e comi mais algumas amoras. Era evidente que naquele momento estávamos os dois muito felizes.
Contei esta história ontem à noite ao Rodrigo, ao jantar, a saborear o vinho, antes de a escrever hoje.

terça-feira, 25 de abril de 2006

O colega de escola... o Estaline

Foi no ano lectivo 1974/75. Foi na Escola Secundária Patrício Prazeres. Estava-se em pleno período de ebulição a seguir ao 25 de Abril. Num dia de aulas qualquer, se calhar, no dia em que fazia anos a morte de José Estaline, e à semelhança de tantos outros dias assim evocativos, lá fomos todos, quase de rebolão, para o ginásio da Escola, para mais uma RGA (reunião geral de alunos). A determinada altura, um dos estudantes líderes da reunião propôs que guardássemos um minuto de silêncio em memória da morte de Estaline. Estávamos ainda todos de braço no ar, de punho cerrado, o minuto ainda não tinha acabado. Baixinho, para não ser ouvida por mais ninguém, uma aluna da escola voltou-se para mim, quase encostou a boca ao meu ouvido e perguntou-me: "Conhecias o aluno que morreu?..." Afastei a minha cabeça de maneira a poder ver bem o rosto dessa colega desconhecida e respondi-lhe, sério por fora e divertido por dentro: "Não colega, nem sei em que ano andava..."

segunda-feira, 24 de abril de 2006

Madrugada de um novo dia. Do outro lado do Tejo, bem lá ao fundo, o disco vermelhão do Sol começou a subir.

Cada apontamento deste blogue constituir-se-á como um relato-testemunho, mais extenso e pormenorizado, ou mais resumido e simplificado, de uma ocorrência actual ou passada na vida de uma criança, ou um jovem, de um crescido ou de um idoso, cujo percurso de vida na escola, ou fora dela, algures, se cruzou com o meu e, um dia, ganhou a forma de um relato ou uma pequena história.

Será também um espaço de encontro ou reencontro com a minha própria família.

Todas as ocorrências de alguma forma me ajudaram a ser a pessoa que que fui e em que me vou transformando.

A outra intenção da publicação deste blogue é a publicação de um livro digital. A todos aqueles que acharem nos meus apontamentos afinidades com histórias suas, convido-os a juntarem essas histórias às minhas e, assim, tal livro tomará a forma de uma autoria colectiva.

terça-feira, 4 de abril de 2006

A primeira aula da Terceira Vaga

Já passaram uns anos valentes desde que li duas obras de Alvin Toffler, para além de ter visto alguns dos seus documentários na televisão. Logo nessa altura me impressionaram bastante, e ainda hoje as suas repercussões na minha maneira de pensar e de tomar perspectivas globais sobre as coisas se fazem sentir.
Quando, durante a semana que passou, procurava na Net sites e materiais sobre portefólios, encontrei, em vários sites que pesquisei, a citação que usei no meu slide da aula de ontem, Os analfabetos do século XXI não serão os que não conseguirem ler e escrever, mas sim aqueles que não conseguirem aprender, desaprender e reaprender. É, na verdade, uma frase à Alvin Toffler.
Também é verdade que, hoje em dia, já se fala abundantemente em "aprender a aprender", mesmo em círculos de pensamento e discussão que, se calhar, nunca tiveram contacto ou conhecimento com as obras de Alvin Toffler, que seguiram outros caminhos.
A aula de ontem - e os comentários finais de todos os alunos participantes na aula deixaram apreciações nesse sentido - foi uma experiência "de terceira vaga" que nos colocou a todos - licenciados da "segunda vaga" - perante a nudez recíproca de todos, em que fomos confrontados com a relatividade da nossa sabedoria tradicional, consagrada nos títulos académicos que ostentamos, e ali estivemos, ignorantes, "desaprendidos", a ter de aprender de novo. E, ironia das ironias, enquanto enfrentávamos, titubiantes, os caminhos novos em que nos tinham colocado, foi do lado do apoio seguro com que contávamos que as coisas revelaram um dos lados frágeis desta modalidade de ensino-aprendizagem de terceira vaga. O professor "caiu" várias vezes. Curiosamente, talvez por isto mesmo, o à-vontade dos alunos foi crescendo aos poucos: é que o professor "caía", mas levantava-se pouco depois; desaparecia e voltava, sem se deixar perturbar pelos impedimentos das maquinarias e dos fluxos de informação que serpenteavam na rede e chegavam ao destino certo ou se tresviavam no caminho. E nós, os alunos ignorantes que ali continuávamos, aos poucos, fomos tomando conta da tecnologia. É que, sem que o planeasse, sem que o previsse, o professor acabou por nos dar uma ajuda preciosíssimo: isto não mata, isto não dá choque, isto não queima as mãos! Por isso, a aula acabou, penso eu, com todos nós a termos a certeza de que a tecnologia é uma coisa que existe para ser posta ao nosso serviço. No fundo, penso que é aquela sensação do condutor automóvel quando finalmente deixa de ter medo do poder de velocidade do carro e sente espalhar-se no corpo a percepção de que a velocidade do veículo será sempre aquela que ele quiser imprimir à máquina.
Ora o que esteve verdadeiramente em questão nas "quedas" do professor foi que os alunos tiveram tempo!... Deixem-me explicar: Penso que o maior problema das tecnologias modernas e das novas aprendizagens tem quase sempre a ver com o tempo... de digestão. É assim: só nos saberá bem o peixinho cozido do jantar depois de termos feito a digestão do lombozinho assado do almoço. As coisas novas, os novos "apports" têm de ser digeridos depois da digestão anterior ter tido o tempo necessário para que se completasse satisfatoriamente. Hoje em dia, as coisas vêm quase sempre em catadupa.
Mas nós ontem tivemos tempo de ir digerindo as coisas aos poucos, uma dentadinha de cada vez. Assim soube muito bem.
É assim que deveria ser sempre com os nossos alunos. E não é, pois não?

sexta-feira, 24 de março de 2006

O Fernando fala do Fernando com a ajuda do Fernando

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
Fernando Pessoa
Provavelmente, o entusiasmo dos alunos (alunos que, de dia, são professores intensamente empenhados no seu fazer profissional e, ao fim da tarde, se sentam nas cadeiras dos alunos), o entusiasmo de alunos sequiosos [Hoje - pelo menos por agora - não falo em avidez] de conhecer mais, de desbravar outros caminhos, constitui-se como uma das dinâmicas de sala de aula de mais difícil manejo. Sobretudo se as aulas são às sextas-feiras, ao fim da tarde, depois do professor ter tido outros alunos, e dos alunos terem tido outros trabalhos ao longo do dia, que é também o último da semana de trabalho.
Aulas assim são de uma tremenda exigência para o professor. É que, se para os alunos os níveis de concentração na tarefa, a capacidade de focalizar e manter a atenção nos temas que estão a ser tratados já não são o que seria desejável serem (e os alunos pouco se importam com isso), no caso do professor, a exigência no seu papel, na sua função docente, é a mesma da primeira hora de aula do dia, ou mesmo da semana.
Terrível condição a do professor que tem de ser capaz de gerir vontades que querem chegar a tudo, às vezes quase sem deixar que as mãos se harmonizem às formas, à textura, ou à temperatura de cada uma das coisas que tocam. É preciso não desapontar. É preciso - como que pegando na terminologia de Eric Erikson, autor de que ando neste momento a falar aos meus alunos - não deixar que os mais ténues sentimentos de culpa, vergonha, inferioridade ou decepção afectiva ensombrem o entusiasmo pulsante, por mais ingénuo que possa parecer.
Quais crianças maravilhadas no mundo mágico dos brinquedos, os alunos são levados, por professores que gostam de o ser , a pedir isto, a querer aquilo, a não querer deixar para trás ainda mais esta ou aquela coisa.
Pois foi assim que eu hoje vi um professor a dar uma aula ao fim da tarde de uma sexta-feira:
Um professor tão fingidor, que porfiou para fingir tão completamente, que chegou a fazer parecer que era coisa, o que na verdade era o modo de a fazer.
Quer dizer, noutra metáfora já vulgarizada, mais uma vez a aula de hoje deu-se naquelas águas agitadas em que se joga a escolha entre dar o peixe ou a cana para o pescar.
Parabéns, Professor Fernando! Hoje ganhou, num terreno e em condições muito difíceis. Mas, cuide-se! Iremos voltar à carga!

sexta-feira, 17 de março de 2006

Ê pá, desculpem lá! É verdade, demorei um bocadinho mais do que tinha dito. O.K., vamos ao que interessa...
Apercebo-me, sem qualquer pontinha de vaidade, sem qualquer pontinha de humildade, que possuo o dom (ou desenvolvi a competência) de, como dizia Konrad Lorenz, me espantar com aquilo que é familiar. Regozijo-me especialmente de constatar que tal dom não tem esmorecido com os anos, se mantém vivo, com aquela energia explosiva e generosa da juventude. A fruição desse espanto perante o que é familiar é frequente, continua a ser frequente. Portanto, intenso e frequente.
Menos frequente, mas igualmente saboroso, é o dom de me entusiasmar com uma ideia ou um projecto, como se entusiasmam os adolescentes perante os ideais nobres próprios da idade. Com jeitos de irreflectido e descuidado, quer dizer, contrários aos mandos da real idade de agora, a que, na verdade, eu deveria estar submetido.
Mas foi neste estado que me pôs a primeira aula da cadeira de mestrado em que, de há algumas semanas a esta parte, tinha posto já muito empenho em participar. O professor, o candidato a mestre, Fernando, meu homónimo, fez-me recursivamente pensar no Sebastião da Gama que há muitos anos me acompanha e orienta no meu trabalho da escola. E fez-me também pensar nos pedagogos clássicos que sempre me fascinaram, originários de uma região da Europa em que confluem mestres franceses, alemães e suíços.
Quanto mais a aula avançava, mais apropriado me parecia o nome da cadeira, em que, realmente, os conceitos de aprender e ensinar dominam sobre técnicas que quase se tornam apenas pretextos... precisamente para ensinar e aprender! "Informática" ou "TIC's" seriam certamente designações redutoras de uma ambição que me parece viável, bem dimensionada. Mesmo que se nos apresente sempre em termos de desafio, mesmo que vá reclamar de nós o que tivermos de melhor em termos de inteligência, imaginação, esforço, capacidade de planeamento e capacidade de sistematização.
Se as outras disciplinas do Mestrado, até agora, exigiram de mim competências e capacidades de adaptação no sentido da "normatividade" da comunidade científica, em geral (Afinal, um desafio que, após um momento em que vacilei, decidi enfrentar), esta nova disciplina, vem desafiar-me pelo lado da criatividade e da inovação pessoal. Duma forma reducionista - mas conveniente para me expressar neste momento - diria que se a ênfase estava mais posta nos produtos, agora ela está mais nos meios ou nos recursos. Se a relação pedagógica punha o pedagogo à frente e o aprendente atrás, agora o aprendente passou para a frente, é ele que marca agora o caminho, e o pedagogo vai atrás. O que não deixa de nos, ou melhor, o que não deixa de me trazer alguma ansiedade. Ansiedade pela perda da segurança inerente à condição de se ser conduzido, como tradicionalmente acontece, em vez da condição de condutor.
Não sei onde chegarei, não sei onde chegaremos. Pouco me importo com isso. De momento, estou entusiasmado e confiante.
Obrigado, Professor, (Obrigado, Fernando, é o que, sinceramente, me vem espontaneamente, pelo retorno de uma identificação e sentimento de partilha há muito adormecido) pelo que, independentemente do que vier a seguir, já me proporcionou. Penso que conseguiu deixar-me clara a ideia de que o que suceder daqui para a frente, de bom ou de mau, fundamentalmente de mim dependerá.
Talvez neste espaço irei eu deixando expressas as minhas perplexidades, interrogações, dúvidas e reflexões; os meus ganhos, sucessos e insucessos; as coisas de partilha com quem comigo se meteu nesta disciplina de aventura.
Professor Albano Estrela, uma palavrinha para si: Senti hoje a sua presença na aula. Nunca lhe disse, Professor Albano, mas o senhor é o único professor que, ainda hoje, me olha e cumprimenta exactamente com a mesma familiaridade com que o fez na primeiríssima aula que consigo tive na minha licenciatura de Psicologia, há muitos anos já! E se agora o interpreto como um sinal de carinho vindo de uma pessoa com uma personalidade muito especial relativamente a um aluno a que, pouco a pouco, se habituou, em contrapartida, nessa primeira aula, a familiaridade só poderia vir de alguém que "instintivamente" se dá numa relação de confiança e de amizade. E isso é um exemplo valiosíssimo para nós! Bem-haja, Professor Albano Estrela!

Com o espanto e o entusiasmo das crianças

Ê pá, desculpem lá! É verdade, demorei um bocadinho mais do que tinha dito. O.K., vamos ao que interessa...
Apercebo-me, sem qualquer pontinha de vaidade, sem qualquer pontinha de humildade, que possuo o dom (ou desenvolvi a competência) de, como dizia Konrad Lorenz, me espantar com aquilo que é familiar. Regozijo-me especialmente de constatar que tal dom não tem esmorecido com os anos, se mantém vivo, com aquela energia explosiva e generosa da juventude. A fruição desse espanto perante o que é familiar é frequente, continua a ser frequente. Portanto, intenso e frequente.
Menos frequente, mas igualmente saboroso, é o dom de me entusiasmar com uma ideia ou um projecto, como se entusiasmam os adolescentes perante os ideais nobres próprios da idade. Com jeitos de irreflectido e descuidado, quer dizer, contrários aos mandos da real idade de agora, a que, na verdade, eu deveria estar submetido.
Mas foi neste estado que me pôs a primeira aula da cadeira de mestrado em que, de há algumas semanas a esta parte, tinha posto já muito empenho em participar. O professor, o candidato a mestre, Fernando, meu homónimo, fez-me recursivamente pensar no Sebastião da Gama que há muitos anos me acompanha e orienta no meu trabalho da escola. E fez-me também pensar nos pedagogos clássicos que sempre me fascinaram, originários de uma região da Europa em que confluem mestres franceses, alemães e suíços.
Quanto mais a aula avançava, mais apropriado me parecia o nome da cadeira, em que, realmente, os conceitos de aprender e ensinar dominam sobre técnicas que quase se tornam apenas pretextos... precisamente para ensinar e aprender! "Informática" ou "TIC's" seriam certamente designações redutoras de uma ambição que me parece viável, bem dimensionada. Mesmo que se nos apresente sempre em termos de desafio, mesmo que vá reclamar de nós o que tivermos de melhor em termos de inteligência, imaginação, esforço, capacidade de planeamento e capacidade de sistematização.
Se as outras disciplinas do Mestrado, até agora, exigiram de mim competências e capacidades de adaptação no sentido da "normatividade" da comunidade científica, em geral (Afinal, um desafio que, após um momento em que vacilei, decidi enfrentar), esta nova disciplina, vem desafiar-me pelo lado da criatividade e da inovação pessoal. Duma forma reducionista - mas conveniente para me expressar neste momento - diria que se a ênfase estava mais posta nos produtos, agora ela está mais nos meios ou nos recursos. Se a relação pedagógica punha o pedagogo à frente e o aprendente atrás, agora o aprendente passou para a frente, é ele que marca agora o caminho, e o pedagogo vai atrás. O que não deixa de nos, ou melhor, o que não deixa de me trazer alguma ansiedade. Ansiedade pela perda da segurança inerente à condição de se ser conduzido, como tradicionalmente acontece, em vez da condição de condutor.
Não sei onde chegarei, não sei onde chegaremos. Pouco me importo com isso. De momento, estou entusiasmado e confiante.
Obrigado, Professor, (Obrigado, Fernando, é o que, sinceramente, me vem espontaneamente, pelo retorno de uma identificação e sentimento de partilha há muito adormecido) pelo que, independentemente do que vier a seguir, já me proporcionou. Penso que conseguiu deixar-me clara a ideia de que o que suceder daqui para a frente, de bom ou de mau, fundamentalmente de mim dependerá.
Talvez neste espaço irei eu deixando expressas as minhas perplexidades, interrogações, dúvidas e reflexões; os meus ganhos, sucessos e insucessos; as coisas de partilha com quem comigo se meteu nesta disciplina de aventura.
Professor Albano Estrela, uma palavrinha para si: Senti hoje a sua presença na aula. Nunca lhe disse, Professor Albano, mas o senhor é o único professor que, ainda hoje, me olha e cumprimenta exactamente com a mesma familiaridade com que o fez na primeiríssima aula que consigo tive na minha licenciatura de Psicologia, há muitos anos já! E se agora o interpreto como um sinal de carinho vindo de uma pessoa com uma personalidade muito especial relativamente a um aluno a que, pouco a pouco, se habituou, em contrapartida, nessa primeira aula, a familiaridade só poderia vir de alguém que "instintivamente" se dá numa relação de confiança e de amizade. E isso é um exemplo valiosíssimo para nós! Bem-haja, Professor Albano Estrela!

Lançar o "Psicologia, Ensino e Aprendizagem"

Pois bem, vou buscar a garrafinha de espumante, já deve estar fresquinho... Sabem como é quando se lança um um barco novo ao mar? A primeira taça, pois é, é para o barco... A segunda é para mim! Tchim-tchim! Boas viagens!
Por mim, volto já. Agora é hora de comemorar a inauguração! Inté!