sábado, 14 de julho de 2012

A idade, os idosos e os velhos

Tornou-se uma das minhas motivações principais:
- ter a sabedoria para conseguir chegar a velho.
Um dos documentários em vídeo que mais me marcou como pessoa, como psicólogo, como educador e como professor começa com a morte solitária (ficcionada) de um avô que era muito acarinhado pelo seu neto. Já passaram muitos anos desde que vi o vídeo e lembro-me dele constantemente.
Há pouco tempo, tempo, afinal, tardio, tomei conhecimento da morte de Janey Cuttler, a extraordinária idosa que um dia foi à aventura do Britain's Got Talent, em 2010 (http://www.youtube.com/watch?v=8ADvp6fkMyQ). Quando o presidente do júri lhe perguntou quantos anos tinha esperado por aquele momento, notavelmente, num hino à sabedoria humana, a senhora respondeu: "Estou apenas grata por poder estar aqui esta noite..." Antes de responder, a senhora de 80 anos calou-se e pensou por breves instantes. Aposto o que terá passado pelo pensamento e pelo coração da maravilhosa senhora: toda uma vida em que muito provavelmente familiares e amigos não resistiram à Segunda Guerra e a tantos outros dramas da existência humana. A espontaneidade da senhora a dizer repetidamente, sinceramente, "Obrigado!" toca-nos profundamente. O humor da senhora é cativante e exemplar. Senhora mãe, avó e bisavó... Depois da fama, absurdamente, passo apenas pouco mais de um ano, Janey Cuttler morreu sozinha em sua casa. Só consigo desejar que a tivessem encontrado como encontrei, com o meu irmão, a nossa avó materna, na manhã que começava o dia triste: face absolutamente serena, tranquila, toda ela bem tapadinha, na cama que as extremosas filhas sempre aconchegavam quando a beijavam, à noite, e, enquanto desligavam o pequeno candeeiro, desejavam que tivesse um bom descanso.
Quer dizer, a ficção do documentário serve, em espelho fiel, a realidade social em que todos participamos.
Há velhotes que morrem sozinhos, uns aconchegados, outros não.
Parar e pensar. Valorizar, amar e respeitar. Porque é merecido. Porque assim se faz melhor a saúde e o bem-estar dos grupos humanos. É disto que se fala no texto que transcrevo. Um alerta magnífico para a nossa organização social. Vale para o presente, é precioso para o futuro.
Gostei muito de ler a entrevista, Professor Villaverde Cabral, meu caro amigo. Muito obrigado!
Vou divulgar como merece!

VER - Artigo


ENVELHECIMENTO ACTIVO
Secretaria de Estado para a 3ª Idade precisa-se

Quem o diz é Manuel Villaverde Cabral, do alto dos seus 70 activos anos, a propósito das políticas, ou da sua ausência, de envelhecimento. O presidente do Instituto do Envelhecimento considera a longevidade uma “bênção universal”, mas defende que o que faz realmente falta são manifestações e movimentos de expressão dos interesses e desejos dos próprios seniores, que podem não corresponder ao que defendem aqueles que falam em nome dos “idosos”
POR HELENA OLIVEIRA
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© Victor Machado
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Há cerca de três anos e a propósito da criação do Instituto do Envelhecimento, afirmou que “a política portuguesa para o envelhecimento é pensões e saúde”. Com a actual conjuntura económica a não dar margem para investir em “novas políticas”, é possível descortinar alguma melhoria na situação dos mais velhos em Portugal ou, pelo contrário, as notícias são ainda mais desoladoras?
As políticas públicas são mais uma questão de prioridades – conceitos, análises, finalidades, etc. – do que uma simples questão de dinheiro. Em termos estatísticos, as pessoas mais velhas, nomeadamente os reformados, são destinatários de fatias financeiras muitíssimo significativas (saúde, pensões, segurança social, onde se incluem, por exemplo, os chamados lares e os cuidados pessoais), mas esses recursos são, por assim dizer, inertes, contribuindo muito pouco para a activação dos seniores.
A isso acresce a falta de qualquer movimento de auto-organização por parte dos próprios seniores, de modo que a minha proposta é que seja criada uma secretaria de Estado para a 3.ª Idade, a fim, não de “dar dinheiro” aos idosos só porque são idosos, mas sim para coordenar as políticas existentes, identificar prioridades (cuidados prolongados, cuidados domiciliários de reabilitação, activação em geral, ensino ao longo da vida, mas também institucionalização, demências, etc.) e auscultar a voz dos mais velhos.
O tema do envelhecimento tem vindo a ganhar um interesse crescente, nomeadamente depois de a Comissão Europeia ter proclamado 2012 como o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações (AEEA&SG). Que resultados se podem esperar, na prática e para além de uma maior atenção para a temática, com este tipo de proclamações?
O Ano Europeu do EA&SG, em cujas actividades tenho participado regularmente, tem sobretudo servido para colocar o tema na agenda, mas ainda não vi – talvez ainda seja cedo, veremos o que acontece até ao fim do ano – que as políticas públicas no campo estejam a ser estudadas de maneira a tentar fazer melhor com o dinheiro que temos e a prevenir algumas das tendências negativas do crescente envelhecimento da população portuguesa, incluindo a questão, cada vez mais óbvia, do declínio drástico da natalidade (Portugal tem um índice de fertilidade dos mais baixos do mundo)!
Por enquanto, do ponto de vista das políticas, parece-me que se continua a laborar em dois grandes equívocos, para não dizer dois enormes erros: (1) colocar tudo o que não são pensões nem saúde, no sentido mais restrito, nas mãos da chamada “sociedade civil”, ou seja, nas mãos das IPSS; (2) confiar nas relações intergeracionais familiares para que os mais novos tratem dos mais velhos se e quando estes perderem a autonomia, seja física, mental ou financeira, e excluindo, sequer, debater a questão da institucionalização de “fim de vida”.
Ora, na minha opinião, qualquer destas “estratégias” (?), parecendo bem-intencionadas, não deixam de estar condenadas ao fracasso diante das tarefas gigantescas que se avizinham e da própria “inversão da pirâmide demográfica” a prazo de duas ou três décadas!
Quando ouvimos a expressão “envelhecimento activo”, a imagem que habitualmente vem à ideia é a de seniores a fazerem ginástica ou a correr alegremente com os netos. Todavia, o conceito implica novas perspectivas de emprego para os mais idosos, um maior envolvimento na sociedade e também as questões de autonomia. Sendo Portugal um dos países mais envelhecidos da Europa, até que ponto é que a nossa sociedade está preparada para olhar para os mais velhos como uma mais-valia e não como “um peso”?
Do ponto de vista mental, é óbvio que a velhice é vista pela generalidade da população, incluindo os seniores, como um “peso”! Toda a gente dirá o contrário, mas é isso que pensam(os). O envelhecimento activo existe, é benéfico, mas tem o inconveniente de ser condicionado exactamente pelos mesmo determinantes que o estado de saúde das pessoas, ou seja, a idade, o género, a escolaridade e o estatuto socioeconómico; portanto, as práticas de envelhecimento activo – entre as quais as actividades intelectuais são tão importantes ou mais do que as físicas! – não deixam de repristinar, replicar, o próprio estado de saúde. Dito isto, as futuras coortes seniores, a partir já daqueles que hoje têm 60 anos e, por maioria de razão, os que estão na casa dos 50, chegarão à idade maior com atributos escolares e até socioprofissionais muito superiores aos das pessoas que têm hoje 70 ou 80 anos. Portanto, deste último ponto de vista, as coisas vão melhorar por si, sobretudo no plano da(s) autonomia(s).
Já quanto aos conflitos intergeracionais em torno, em primeiro lugar, do emprego e da reforma e, em segundo, do investimento social em saúde+segurança social vs educação, esses só ganhariam em ser explicitados e debatidos, e não varridos para debaixo do tapete, o que só nos faz incorrer no grave risco da desconfiança geracional entre “jovens” e “velhos”.
Afirmou também, numa conferência recente, que é necessário desconstruir o paradoxo do envelhecimento. Pode explicitar melhor?
Acabo de falar desse paradoxo, a saber: se é verdade que o aumento da esperança de vida e dos anos de vida com qualidade constitui uma “bênção universal” para cada um de nós, não deixa de ser exacto, também, que o envelhecimento demográfico, este aumento da longevidade combinado como decréscimo acentuado da natalidade (muito abaixo da chamada taxa de reposição: 2,1 filhos por mulher em idade fértil), traz consigo toda uma série de riscos aos quais aludi acima: dependência dos muito idosos, insustentabilidade dos sistemas de segurança social e de saúde, conflitos intergeracionais, etc.
A solidão e o isolamento continuam a ser a face mais visível dos idosos em Portugal, sobretudo nas cidades, onde as redes de interajuda parecem ser quase inexistentes?
Não é verdade. Pelo contrário, as redes sociais dos seniores são tendencialmente fechadas sobre a família e a vizinhança próxima, mas são extremamente eficazes e resilientes. Na verdade, segundo o estudo que fizemos a este respeito, há mais seniores a ajudar outros seniores (e crianças) do que o contrário, isto é, pessoas idosas a receberem apoio regular de outras pessoas, incluindo ajuda profissional. O velho só e abandonado é, literalmente, um “mito urbano” que renasce cada vez que uma pessoa de idade morre efectivamente sozinha, coisa que a nossa demografia dificilmente evitará, mas que só prova que essa pessoa faleceu de causas associadas à própria idade, pois se estivesse doente e necessitasse de cuidados diários, a sua morte teria sido descoberta mais cedo ou teria mesmo sido acompanhada. O que é verdade é que se morre cada vez mais nos hospitais e nos chamados “lares”.
Que tipo de reflexão advoga para os “seniores do futuro” e que novas questões terão de ser abordadas?
A principal coisa que está a faltar, até por comparação com países como a Espanha, é algo a que chamo a biopolítica do envelhecimento, a saber, a emergência de manifestações e movimentos de expressão, por parte dos próprios seniores, dos seus interesses e desejos, os quais talvez nem sempre correspondam àqueles que são defendidos pelas instituições e as pessoas que, actualmente, falam em nome dos “idosos”.
Envelhecimento activo: problema ou realidade com tomada de consciência tardia?
© DR
O Instituto do Envelhecimento (IE) da Universidade de Lisboa tem parcerias firmadas com a Fundação Calouste Gulbenkian e com a Fundação Francisco Manuel dos Santos. A funcionar há quase três anos, são já várias as iniciativas que constam do seu currículo.

Como exemplificou Villaverde Cabral, “já fizemos uma série de estudos importantes, de que são exemplo um sobre os Seniores (50+) de Lisboa; outro sobre o preconceito e a discriminação etária, o “idadismo”; e um último sobre “os usos do tempo e as redes sociais dos seniores portugueses”. Está também em curso um estudo retrospectivo e prospectivo sobre o envelhecimento demográfico.

Entretanto, fizemos já vários workshops abertos e um Curso de Formação para Decisores e Responsáveis no campo do envelhecimento. O IE tem ainda protocolos com as câmaras municipais de Lisboa e Loures, para apoiar as suas actividades para a 3ª Idade, nomeadamente o programa das “Cidades Amigas dos Seniores”. Temos igualmente participado em inúmeros eventos, de todos os tipos e dimensões, realizados por todo o país, sobre os mais variados aspectos da problemática do envelhecimento populacional e individual.

E, como sublinha o seu presidente, “temos, creio, contribuído para chamar a atenção da opinião pública e da comunicação social para este ‘problema’, se é que se trata de um problema e não, simplesmente, de uma realidade da qual estamos a tomar consciência, aliás tardiamente, como é costume”.

Questionado igualmente sobre o tipo de práticas de envelhecimento activo já comprovadamente benéficas, o investigador é peremptório: “Essas práticas estão hoje perfeitamente identificadas e têm vindo a ser gradualmente aperfeiçoadas pela investigação biomédica, mas também sócio demográfica, como aquela que nós próprios fazemos no IE”, diz, elencando as mais conhecidas: “desde os estilos de vida saudáveis e os bons hábitos de saúde até à actividade intelectual, à intensificação das redes sociais (mais as efectivas do que as virtuais…) e à manutenção da vida profissional, tudo isso é conhecido; só que a adopção dessas práticas não depende apenas da vontade das pessoas nem das próprias políticas”. O professor alerta ainda que “faltam as políticas de envelhecimento activo, de que são exemplo o ensino ao longo da vida, a flexibilização da aposentação e do trabalho em part-time, entre outras”.

Villaverde Cabral: o professor dos sete ofícios
Nascido nos Açores em 1940, Manuel Villaverde Cabral tem tido uma vida particularmente activa e diversificada, tanto a nível académico, enquanto professor e investigador, como também na vida pública, enquanto colaborador regular na comunicação social escrita, radiofónica e televisiva. Licenciado em Letras pela Universidade de Paris, foi também em terras francesas que tirou o seu doutoramento em História, com posterior equivalência a doutoramento em Sociologia do Desenvolvimento. Investigador e docente em várias universidades portuguesas e estrangeiras, o homem que foi exilado político durante 11 anos antes do 25 de abril, é igualmente prolífico na escrita e na oratória, tendo organizado e co-editado mais de 20 livros, publicado mais de 70 artigos científicos e participado em inúmeras conferências.
Entrevista originalmente publicada no suplemento Mais Responsável do jornal OJE

VER© 2012 - Todos os direitos reservados. Publicado em 12 de Julho de 2012

domingo, 1 de maio de 2011

A avó é a mãe duas vezes?

O tema "Mãe" foi um dos temas dominantes das minhas conversas diretas e das minhas interações virtuais na Internet. O outro tema foi a beatificação de João Paulo II. Sobre este segundo tema escreverei noutro lugar, oportunamente.
No que ao tema da Mãe diz respeito, pude, por diversas circunstâncias, umas mais felizes e outras menos felizes, aperceber-me da frequência da reunião, ou da simples menção, das três gerações: a avó, a mãe e a neta, a fazer lembrar o desafio que há muito anos ouvi e a que achei logo muita piada: "Duas mães e duas filhas vão à missa com três mantilhas. Como é isso possível?..."
No meio do que foi a minha experiência pessoal de hoje, qual cereja no topo do bolo, tive a satisfação de encontrar num livro de Alice Vieira, a valorizar a cultura familiar tradicional, uma afirmação do meu mestre João dos Santos:
- Uma criança não pode viver sem uma avó e sem uma aldeia; se não as tiver, é preciso inventá-las.
Alice Vieira expõe claramente no livro as suas ideias sobre o papel e - vigorosamente - os direitos da avó.
Recomendo a discussão, no seio das famílias e dentro das escolas, das ideias expostas pela escritora portuguesa; e a afirmação de João dos Santos, só por si, justifica outro serão, e outros workshops, habitualmente vespertinos.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

"Padre Motard", um livro extraordinário de Pedagogia

Dediquei todos  os bocadinhos que a Sexta-Feira Santa me permitiu, a continuar a leitura do livro do Padre José Fernando Lambelho, "Padre Motard".  Hoje, só "roubei" à leitura do livro do meu amigo-irmão Lambelho a fugida ao cimo do Monte Queimado, aqui no Faial. A graciosidade do dia, em evidente contraste com o cinzentão e o "ventosão" dos dias anteriores (todos, desde que cheguei à Horta, há mais de uma semana), foi uma tentação irresistível.
Agora é hora de saudar e dar as boas-vindas ao fantástico livro de Pedagogia que é o livro do Padre José Lambelho! O "Diário" de Sebastião da Gama e os textos do meu querido Mestre e amigo João dos Santos são minhas preciosas companhias de todos os dias. A um e outros, a partir de hoje, estará sempre junto o "Padre Motard". São os exemplos reais, são as sugestões, são as perspetivas, são as opções, são as crenças... Parabéns, Padre José Fernando, irmão e amigo! Que toque mágico o de Rosa Ramos! Que obra criaram, que riqueza nos trouxeram! Bem-hajam!
Deixo aqui um pequeno exemplo, quase pegado ao acaso, no meio de tantos!
"- Ouça lá, como é que uma pessoa tão inteligente como você ainda pode acreditar nessas coisas?  [em Deus, na religião]
Não lhes podia responder com palavras. Tinha de lhes responder com a vida, com factos e tão reais quanto possível. Enfrentava-os com um sorriso e recordava-se sobretudo da cena de Tomé, um dos apóstolos. Tinha que levá-los a crer por si próprios. Houve casos que demoraram anos. Muitos deles, só quando o viram com o mesmo entusiasmo a falar de Deus, quando ficou canceroso."
(in "Padre Motard", pág. 127. Editora Estrelapolar, 2011)

domingo, 5 de dezembro de 2010

Somos a nossa história, e a nossa história é sempre única

Na semana passada (foi no dia 23 de Novembro), quando ainda se ouviam os últimos ecos dos parabéns cantados ao Miguel, eu fui visitá-lo. Ao jantar, a mana, a Nicole, ainda a dois mesitos do primeiro aniversário, mesmo sentada lá ao fundo, na cadeira mais longe de mim, esticou firmemente, as vezes que pode, o indicador direito, claramente apontando as batatas fritas que a mãe acabara de tirar da sertã. Foi mesmo assim, todos tivemos de comer menos dois ou três palitos de batata porque ela também já aprendeu a gostar de batatas fritas e a reclamá-las quando o cheiro ou a forma estão ali por perto.
O Miguel, que agora já está bem mais crescido;
mas ele era assim quando me chamou "histórico".
Depois do jantar, fomos para a sala e andei com o Miguel às voltas na Inquisição e no reinado de alguns reis, que seriam tema para um teste de História dali a dois dias.
Pouco antes de os deixar, pedi ao Miguel que me autografasse o seu CD, Eu Nasci para Cantar, que foi recentemente lançado. O Miguel logo tratou de satisfazer o meu pedido, ali joelhado no chão da sala, com o CD posto em cima do sofá, entre mim e o pai. Quando acabou, levantou-se, empertigou-se, colocou a voz e leu-nos o que tinha escrito, terminando com um triunfal sorriso: "... Miguel Guerreiro!" "Miguel", pedi-lhe eu, enquanto ele tinha o CD e a esferográfica nas mãos, "põe a data, se fazes favor." Quase sem me deixar acabar a frase, o Miguel virou-se para mim, fez um largo sorriso, e exclamou: "Ah... O Fernando é um histórico!..."
Fui apanhado desprevenido pelo tão espontâneo comentário do Miguel (talvez feito em resultado, não sei, do assunto que antes nos ocupara), mas logo tomei consciência do que ele me queria dizer. E o que pensei agradou-me sinceramente, pelo que foi com redobrada cordialidade que lhe agradeci o autógrafo e o comentário. O Miguel Guerreiro tem razão, sou um "histórico"! Sim, gosto - eu preciso mesmo! - de marcar os acontecimentos, as coisas, mesmo que sejam momentos de nada, todos os que acontecem nalguma parte, nalgum momento das nossas vidas. O que faz a nossa individualidade é a singularidade das coisas que nos acontecem na vida. Podemos ter muitos acontecimentos idênticos nas vidas de todos nós (estudar, casar, adoecer, ficar triste; ganhar e perder, etc.), mas a maneira como tudo decorre, a sequência que  acontece, tornando causa nuns o que é consequência noutros, tudo isso é absolutamente único.
Na poeira cósmica que todos somos, há um pequeno grão dessa poeira, e só mesmo um, que conta a história de um jantar com o Miguel Guerreiro e a sua família, em que ele assinou um autógrafo e disse, a quem lho pediu, que ele era um histórico. Num tempo de poeira cósmica em que, por muito que se apele à reciclagem, o que domina ainda é o usa e deita fora; num tempo em que o jeito social é tocar e andar, e partir para outra; digo, num tempo assim, dizer como o Miguel disse, "Ah!... O Fernando é um histórico!..." é sinal de parar, olhar, e consciencializar que as coisas se sucedem numa sequência que dá sentido à vida de cada um.
A história é o que liga, é o que dá sentido. Obrigado, querido Miguel por este autógrafo tão especial!... Parabéns por essa sensibilidade! No fundo, tu, ingenuamente, espontaneamente, foste capaz de intuir essa condição que é a que torna a nossa espécie distinta de, quase seguramente, das outras: nós produzimos história. Provavelmente, no momento do meu pedido, tiveste tu primeiro consciência disso mesmo, eu só tive depois. Ainda bem que a tiveste, querido Miguel. Nem sabias tu que, dois dias depois, na minha escola, a celebração a que não pudeste ir estava precisamente centrada na história de pessoas que se juntam, se separam e depois têm vontade de se juntar outra vez; e levar outros consigo. Tantas vezes se veio a dizer, na minha escola, nesse tal dia dois dias depois do nosso jantar e do teu autógrafo, "... há trinta e dois anos..." Também um dia o teu autógrafo terá trinta e dois anos, e, nessa altura, terá uma história para contar. Uma história única. Se é ou será  importante essa história?...  Volto à poeira: na poeira cósmica que todos somos ou seremos, que história no Mundo há ou haverá história ou acontecimento mais importante que a do autógrafo que assim me deste?... Lamentável é que,  hoje em dia, tanta gente no Mudo, tantos políticos que nos governam, parecem esquecidos de essa nossa tão fundamental condição, a da história da vida pessoal de cada um e de todos. Condição de verdadeira humanidade.

sábado, 6 de junho de 2009

Saudação aos alunos finalistas da ESEQ em 2008/09

Saudação aos alunos finalistas da ESEQ em 2008/09

Não pude estar, ao contrário do que era meu desejo, na Festa de Finalistas dos alunos da minha Escola, a Secundária Eça de Queirós, nos Olivais, em Lisboa.
Deixei-lhes uma saudação. Que agora aqui torno pública. No geral, estes alunos foram cepa que produziu bons frutos. Frutos de bom alimento para os professores e para as pessoas que os professores são. Garanto-o com o meu testemunho pessoal.
SAUDAÇÃO AOS ALUNOS FINALISTAS DA E.S.E.Q., ANO LECTIVO 2008/09
Queridos alunos,
            Sei que alguns de vocês gostariam, muito sinceramente, que eu estivesse aí nesse jantar, convosco. Mas não posso.
            O professor Acúrcio, meu mano, mesmo que filhos de pais diferentes, sabe as razões. Se vocês as soubessem também, sei que me compreenderiam. O meu mano, esse, já me perdoou a falta.
            Esta ocasião é uma ocasião muito oportuna para citar o versículo bíblico de que tanto gosto, que tanto me diz:
            – Fala, ancião, porque isso te compete; mas com discrição, não perturbes a música.
            Tenho mantido, nos últimos tempos, uma troca epistolar muito interessante com um jovem aluno da nossa escola, que, eventualmente, estará presente nesse jantar. Ele é um rapaz magnífico, e as cartas que temos trocado têm sido para mim um prazer muito grande.
            Mas, como lhe disse numa das últimas cartas que lhe mandei, houve tempos em que andei muito zangado com as palavras, odiei Fernando Pessoa e abominei tudo aquilo que ele escreveu.
            A razão foi que, por causa das suas palavras (palavras arrumadas por quem tem jeito em mexer com elas), o meu grande ídolo daquela altura, o nadador português Rui Abreu se suicidou estupidamente, sozinho, numa banheira, no quarto da sua universidade, nos Estados Unidos, onde chegara com mérito e quando parecia que a vida lhe sorria e prometia um futuro de sonho. Ao lado da banheira, aberto, estava o livro com as terríveis palavras de Fernando Pessoa.
            A solidão é mesmo uma coisa terrível! É da solidão que um grande amigo meu, um pouco mais velho do que eu, tem agora um medo cada vez maior.
            Contudo, um dia destes, aconteceu-lhe uma coisa inesperada, que lhe trouxe apaziguamento e outra coragem para enfrentar os anos que antecipa à sua frente. Ele reencontrou um antigo aluno, que não via há cerca de 20 anos. E saudou-o tocando-lhe no ombro esquerdo com a sua mão direita, como sempre fazia com os seus alunos, olhando-os de frente.
            O aluno, agora homem crescido, pousou a sua mão direita sobre a mão do seu antigo professor e, num suspiro que lhe veio do fundo da alma, disse para o meu amigo:
            - Que bom, professor!… As saudades que eu tinha desse seu gesto!… Esse seu gesto é único, fez-me sempre tanto bem.
            Quando o meu amigo me contou este episódio, eu falei-lhe dos gestos em que tocamos nos outros para nos excitarmos com esse toque; e nos gestos em que tocamos para, pelo contrário, podermos sentir nos outros a sua alegria de estarem connosco. E a nossa alegria de estarmos com eles.
            As citações de autores e personagens célebres são coisas complicadas. São bonitas, podem ser profundas, mas podem também ter o encanto das serpentes tentadoras. Há frases lindíssimas escritas por homens tenebrosos!
            Muito recentemente, recebi da minha colega Ermelinda uma daquelas citações que agora, recorrentemente, aparecem nas nossas caixas de correio da Internet. Só que, desta vez, vinha magnificamente ilustrada por uma aguarela lindíssima que ela própria pintou.
            A citação é de… Charles Chaplin?… Saint-Exupéry?… ou… Diz assim:
“Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha,
porque cada pessoa é única e nenhuma outra a substitui.
Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha,
e não nos deixa só, porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós.
Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova
de que as pessoas não se encontram por acaso.” 
            Queridos alunos, queridos colegas,
 Permitam-me a fantasia de vos fazer uma proposta:
            - Mano Acúrcio, orienta aí o pessoal!… 
            Passem o vosso braço por detrás de quem tiverem à vossa direita e poisem a vossa mão sobre o seu ombro. Deixem-se estar assim um bocadinho, sintam esse bocadinho e guardem-no na vossa memória. Procurem tomar consciência da alegria que neste momento vos percorre. Só da alegria mesmo! Porque a tristeza e a saudade também estarão hoje aí no meio de vocês. Seguramente. Por isso, repito, dêem primazia à alegria e tentem tomar consciência da alegria e do prazer que é estarem assim juntos.
(…)
            Vamos ver quem se lembrará deste gesto daqui a 20 anos.
            Desejo a todos um bom jantar, desejo a todos uma festa linda!
            Como dizem os Trovante, num poema dedicado a uma pessoa muito especial, que tive a felicidade de conhecer e de quem fui grande amigo,
Há quem espere por nós assim
mesmo ao meio da rota do fim
há quem tenha os braços abertos
para nos aquecer
e acenar no fim.
            Queridos alunos finalistas, na Escola Secundária Eça de Queirós haverá sempre alguém de braços abertos à vossa espera, para vos receber com alegria e companheirismo.
            Numa dádiva que me esforçarei sempre por merecer, recebi do nosso querido aluno João Soares Matos, já nesta semana, uma mensagem no meu blogue que diz assim, entre outras coisas belas e deliciosas:Com esforço e dedicação, todas as estrelas estão à distância de um abraço. (…) Sinto-me privilegiado por frequentar a Eça de Queirós, que brilha sob o céu azul todos os dias.”           
Queridos alunos,
- Felicidades nas vossas vidas, vão dando notícias!
            – Até sempre, queridos alunos!
            – Até um dia destes na Escola, queridos colegas e amigos!

quinta-feira, 19 de março de 2009

O papel do pai, no Dia do Pai

No Ciência Hoje, hoje precisamente:

Papel do pai é fundamental para desenvolvimento sócio-emocional da criança: 2009-03-19

«Pai, conta-me uma história»
Estudos recentes, feitos por investigadores do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), concluem que "a presença do pai na vida da criança tem um papel fundamental para o seu desenvolvimento sócio-emocional a vários níveis".
Na sua tese de mestrado intitulada "Pai, conta-me uma história - A importância do Pai no Desenvolvimento da Auto-estima na Criança", apresentada em Março, a psicóloga Inês Rito concluiu que "as crianças que têm um pai presente, com o qual coabitam na mesma casa, têm um nível de auto-estima superior àquelas que têm um pai ausente, com o qual não vivem".
Para este estudo, a investigadora inquiriu 81 crianças, com idades entre os oito e os doze anos, das quais 51 têm um pai presente e 30 têm um pai ausente. Para medir o desenvolvimento da sua auto-estima, utilizou o método de Susan Harter, um instrumento científico utilizado para este fim nas crianças, através de perguntas que têm uma escala de auto-avaliação. O método diz respeito a vários domínios, nomeadamente a competência escolar, que mede o quão competente a criança se sente, a aceitação escolar, que mede o quão popular ou socialmente aceite a criança se auto-avalia, entre outros aspectos.
"Depois de analisar todas as respostas nos dois grupos de crianças, concluí que as crianças com pai presente têm os seus níveis de auto-estima bastante superiores àquelas não vivem com o pai", disse à Agência Lusa Inês Rito. A psicóloga defende que "o pai é um pilar muito importante no desenvolvimento de qualquer criança", mas assume que "nem sempre os pais presentes são uma mais-valia", referindo-se àqueles que, embora presentes, não convivem directamente com os filhos.
Melhora a qualidade da relaçãoEnvolvimento do pai é fundamental
Um outro estudo feito na Unidade de Psicologia Cognitiva do Desenvolvimento e da Educação do ISPA e também divulgado neste mês de Março concluiu, de forma semelhante, que "quanto maior é a participação e o envolvimento do pai no crescimento e educação da criança melhor é a qualidade da relação que se estabelece entre ambos".
Segundo a psicóloga Manuela Veríssimo, uma das responsáveis pela investigação e docente do ISPA, "a figura do pai tem uma grande importância na vinculação com o progenitor e a sua imagem na família, enquanto um ser um pouco esquecido, começa a ser encarada de outra forma".
A amostra deste estudo consistiu em entrevistas a 44 díades mãe/criança e pai/criança, tendo as crianças, em média, 31,91 meses, sendo 23 do sexo feminino e 21 do sexo masculino, com mães e pais a trabalhar a tempo inteiro. Foram feitas análises à participação do pai nas actividades e à qualidade da vinculação pai/filho, que permitiram chegar a estas conclusões.
"Apesar de, hoje em dia, ser quase sempre a mãe a realizar as tarefas domésticas, a ir às reuniões da escola ou a ficar em casa quando os filhos estão doentes, o pai participa de forma igualitária nas actividades lúdicas da criança", pode ler-se nas conclusões da investigação. Ainda na área das actividades lúdicas, estes investigadores concluíram que "quanto mais elevadas as habilitações literárias do pai maior a sua participação nas actividades de brincadeira/lazer".
O Dia do Pai assinala-se hoje, dia 19 de Março.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Saudação e agradecimento aos meus alunos finalistas

Saudação e agradecimento aos meus alunos finalistas

Hoje queimaram-se as cábulas lá na Escola. E os alunos fizeram a entrega dos óscares aos professores.
Depois do ritual, deixei a Escola e fui para casa. Almocei e pus-me à frente do computador. Quis mandar logo a seguinte mensagem aos meus alunos:
Caros alunos e queridas alunas,
A Queima das Cábulas e a Entrega dos Óscares são brincadeiras recorrentes nas escolas. Por isso tornam-se rituais que estabelecem fronteiras entre um antes e um depois, mas são fronteiras que não separam, antes pelo contrário. Estas brincadeiras ritualizadas têm o condão de confirmar laços afectivos que perdurarão mesmo para além das separações físicas inevitáveis entre os professores, que ficam, e os alunos, que partem, porque é da natureza do seu desenvolvimento partirem. Com estas brincadeiras, um cantinho novo se aconchega e consolida nos corações de todos.
Este ano foi, sem dúvida, um dos meus anos escolares mais conseguidos. Estou muito contente do trabalho que fiz com todos vós e, como sou um emotivo secundário, haverá um dia, dentro de pouco tempo, em que, liberto da pressão das avaliações, dos exames e dos relatórios, pensarei em vós. E nessa altura deixarei, tranquilamente, que os meus olhos se humedeçam e os meus lábios desenhem o sorriso que a memória das coisas que fiz convosco vai seguramente e deliciosamente produzir.
As coisas são o que são, os professores não são indiferentes às apreciações e comentários dos seus alunos.
Ser baptizado “Sr. Ecológico”, é claro que fico imensamente contente. Quer dizer, entre outras coisas, que fui capaz de deixar uma mensagem sobre a terrível doença de que a velha Gaia, a Deusa da Terra, padece nos tempos que vivemos; o que, nos dias de hoje, é vitalmente importante para todos nós.
Ser baptizado “Charlot”, é outro motivo de grande contentamento. Será que deixei a mensagem de que não sou indiferente à condição seja de quem seja e que a força da solidariedade está, não nas roupas que se vestem, não da riqueza material que se possui, mas simplesmente no olhar atento e no coração que se enternece?
Ser, no mesmo ano, baptizado Sr. Ecológico e Charlot, é, porventura, o dois em um que eu alguma vez poderia ambicionar!
Obrigado a todos! Com alguns de vós, eu tive momentos difíceis. Mas nunca o confronto tolheu a nossa capacidade de aprender, nunca abafou o diálogo; pelo contrário, com o confronto crescemos e desenvolvemo-nos. Também eu cresci e me desenvolvi, podem crer.
Desejo-vos as maiores felicidades. O Charlot do baptizado de hoje é o Charlot do quadro que os meus colegas de trabalho numa escola de ensino especial me ofereceram há cerca de 30 anos, dizendo “Contigo, nunca alguém continuará sozinho ou sem esperança…” Como vêem, o Charlot continua vivo!
Contem sempre comigo ao vosso lado!
Beijos e abraços para todos!