sexta-feira, 22 de abril de 2011

"Padre Motard", um livro extraordinário de Pedagogia

Dediquei todos  os bocadinhos que a Sexta-Feira Santa me permitiu, a continuar a leitura do livro do Padre José Fernando Lambelho, "Padre Motard".  Hoje, só "roubei" à leitura do livro do meu amigo-irmão Lambelho a fugida ao cimo do Monte Queimado, aqui no Faial. A graciosidade do dia, em evidente contraste com o cinzentão e o "ventosão" dos dias anteriores (todos, desde que cheguei à Horta, há mais de uma semana), foi uma tentação irresistível.
Agora é hora de saudar e dar as boas-vindas ao fantástico livro de Pedagogia que é o livro do Padre José Lambelho! O "Diário" de Sebastião da Gama e os textos do meu querido Mestre e amigo João dos Santos são minhas preciosas companhias de todos os dias. A um e outros, a partir de hoje, estará sempre junto o "Padre Motard". São os exemplos reais, são as sugestões, são as perspetivas, são as opções, são as crenças... Parabéns, Padre José Fernando, irmão e amigo! Que toque mágico o de Rosa Ramos! Que obra criaram, que riqueza nos trouxeram! Bem-hajam!
Deixo aqui um pequeno exemplo, quase pegado ao acaso, no meio de tantos!
"- Ouça lá, como é que uma pessoa tão inteligente como você ainda pode acreditar nessas coisas?  [em Deus, na religião]
Não lhes podia responder com palavras. Tinha de lhes responder com a vida, com factos e tão reais quanto possível. Enfrentava-os com um sorriso e recordava-se sobretudo da cena de Tomé, um dos apóstolos. Tinha que levá-los a crer por si próprios. Houve casos que demoraram anos. Muitos deles, só quando o viram com o mesmo entusiasmo a falar de Deus, quando ficou canceroso."
(in "Padre Motard", pág. 127. Editora Estrelapolar, 2011)

domingo, 5 de dezembro de 2010

Somos a nossa história, e a nossa história é sempre única

Na semana passada (foi no dia 23 de Novembro), quando ainda se ouviam os últimos ecos dos parabéns cantados ao Miguel, eu fui visitá-lo. Ao jantar, a mana, a Nicole, ainda a dois mesitos do primeiro aniversário, mesmo sentada lá ao fundo, na cadeira mais longe de mim, esticou firmemente, as vezes que pode, o indicador direito, claramente apontando as batatas fritas que a mãe acabara de tirar da sertã. Foi mesmo assim, todos tivemos de comer menos dois ou três palitos de batata porque ela também já aprendeu a gostar de batatas fritas e a reclamá-las quando o cheiro ou a forma estão ali por perto.
O Miguel, que agora já está bem mais crescido;
mas ele era assim quando me chamou "histórico".
Depois do jantar, fomos para a sala e andei com o Miguel às voltas na Inquisição e no reinado de alguns reis, que seriam tema para um teste de História dali a dois dias.
Pouco antes de os deixar, pedi ao Miguel que me autografasse o seu CD, Eu Nasci para Cantar, que foi recentemente lançado. O Miguel logo tratou de satisfazer o meu pedido, ali joelhado no chão da sala, com o CD posto em cima do sofá, entre mim e o pai. Quando acabou, levantou-se, empertigou-se, colocou a voz e leu-nos o que tinha escrito, terminando com um triunfal sorriso: "... Miguel Guerreiro!" "Miguel", pedi-lhe eu, enquanto ele tinha o CD e a esferográfica nas mãos, "põe a data, se fazes favor." Quase sem me deixar acabar a frase, o Miguel virou-se para mim, fez um largo sorriso, e exclamou: "Ah... O Fernando é um histórico!..."
Fui apanhado desprevenido pelo tão espontâneo comentário do Miguel (talvez feito em resultado, não sei, do assunto que antes nos ocupara), mas logo tomei consciência do que ele me queria dizer. E o que pensei agradou-me sinceramente, pelo que foi com redobrada cordialidade que lhe agradeci o autógrafo e o comentário. O Miguel Guerreiro tem razão, sou um "histórico"! Sim, gosto - eu preciso mesmo! - de marcar os acontecimentos, as coisas, mesmo que sejam momentos de nada, todos os que acontecem nalguma parte, nalgum momento das nossas vidas. O que faz a nossa individualidade é a singularidade das coisas que nos acontecem na vida. Podemos ter muitos acontecimentos idênticos nas vidas de todos nós (estudar, casar, adoecer, ficar triste; ganhar e perder, etc.), mas a maneira como tudo decorre, a sequência que  acontece, tornando causa nuns o que é consequência noutros, tudo isso é absolutamente único.
Na poeira cósmica que todos somos, há um pequeno grão dessa poeira, e só mesmo um, que conta a história de um jantar com o Miguel Guerreiro e a sua família, em que ele assinou um autógrafo e disse, a quem lho pediu, que ele era um histórico. Num tempo de poeira cósmica em que, por muito que se apele à reciclagem, o que domina ainda é o usa e deita fora; num tempo em que o jeito social é tocar e andar, e partir para outra; digo, num tempo assim, dizer como o Miguel disse, "Ah!... O Fernando é um histórico!..." é sinal de parar, olhar, e consciencializar que as coisas se sucedem numa sequência que dá sentido à vida de cada um.
A história é o que liga, é o que dá sentido. Obrigado, querido Miguel por este autógrafo tão especial!... Parabéns por essa sensibilidade! No fundo, tu, ingenuamente, espontaneamente, foste capaz de intuir essa condição que é a que torna a nossa espécie distinta de, quase seguramente, das outras: nós produzimos história. Provavelmente, no momento do meu pedido, tiveste tu primeiro consciência disso mesmo, eu só tive depois. Ainda bem que a tiveste, querido Miguel. Nem sabias tu que, dois dias depois, na minha escola, a celebração a que não pudeste ir estava precisamente centrada na história de pessoas que se juntam, se separam e depois têm vontade de se juntar outra vez; e levar outros consigo. Tantas vezes se veio a dizer, na minha escola, nesse tal dia dois dias depois do nosso jantar e do teu autógrafo, "... há trinta e dois anos..." Também um dia o teu autógrafo terá trinta e dois anos, e, nessa altura, terá uma história para contar. Uma história única. Se é ou será  importante essa história?...  Volto à poeira: na poeira cósmica que todos somos ou seremos, que história no Mundo há ou haverá história ou acontecimento mais importante que a do autógrafo que assim me deste?... Lamentável é que,  hoje em dia, tanta gente no Mudo, tantos políticos que nos governam, parecem esquecidos de essa nossa tão fundamental condição, a da história da vida pessoal de cada um e de todos. Condição de verdadeira humanidade.

sábado, 6 de junho de 2009

Saudação aos alunos finalistas da ESEQ em 2008/09

Saudação aos alunos finalistas da ESEQ em 2008/09

Não pude estar, ao contrário do que era meu desejo, na Festa de Finalistas dos alunos da minha Escola, a Secundária Eça de Queirós, nos Olivais, em Lisboa.
Deixei-lhes uma saudação. Que agora aqui torno pública. No geral, estes alunos foram cepa que produziu bons frutos. Frutos de bom alimento para os professores e para as pessoas que os professores são. Garanto-o com o meu testemunho pessoal.
SAUDAÇÃO AOS ALUNOS FINALISTAS DA E.S.E.Q., ANO LECTIVO 2008/09
Queridos alunos,
            Sei que alguns de vocês gostariam, muito sinceramente, que eu estivesse aí nesse jantar, convosco. Mas não posso.
            O professor Acúrcio, meu mano, mesmo que filhos de pais diferentes, sabe as razões. Se vocês as soubessem também, sei que me compreenderiam. O meu mano, esse, já me perdoou a falta.
            Esta ocasião é uma ocasião muito oportuna para citar o versículo bíblico de que tanto gosto, que tanto me diz:
            – Fala, ancião, porque isso te compete; mas com discrição, não perturbes a música.
            Tenho mantido, nos últimos tempos, uma troca epistolar muito interessante com um jovem aluno da nossa escola, que, eventualmente, estará presente nesse jantar. Ele é um rapaz magnífico, e as cartas que temos trocado têm sido para mim um prazer muito grande.
            Mas, como lhe disse numa das últimas cartas que lhe mandei, houve tempos em que andei muito zangado com as palavras, odiei Fernando Pessoa e abominei tudo aquilo que ele escreveu.
            A razão foi que, por causa das suas palavras (palavras arrumadas por quem tem jeito em mexer com elas), o meu grande ídolo daquela altura, o nadador português Rui Abreu se suicidou estupidamente, sozinho, numa banheira, no quarto da sua universidade, nos Estados Unidos, onde chegara com mérito e quando parecia que a vida lhe sorria e prometia um futuro de sonho. Ao lado da banheira, aberto, estava o livro com as terríveis palavras de Fernando Pessoa.
            A solidão é mesmo uma coisa terrível! É da solidão que um grande amigo meu, um pouco mais velho do que eu, tem agora um medo cada vez maior.
            Contudo, um dia destes, aconteceu-lhe uma coisa inesperada, que lhe trouxe apaziguamento e outra coragem para enfrentar os anos que antecipa à sua frente. Ele reencontrou um antigo aluno, que não via há cerca de 20 anos. E saudou-o tocando-lhe no ombro esquerdo com a sua mão direita, como sempre fazia com os seus alunos, olhando-os de frente.
            O aluno, agora homem crescido, pousou a sua mão direita sobre a mão do seu antigo professor e, num suspiro que lhe veio do fundo da alma, disse para o meu amigo:
            - Que bom, professor!… As saudades que eu tinha desse seu gesto!… Esse seu gesto é único, fez-me sempre tanto bem.
            Quando o meu amigo me contou este episódio, eu falei-lhe dos gestos em que tocamos nos outros para nos excitarmos com esse toque; e nos gestos em que tocamos para, pelo contrário, podermos sentir nos outros a sua alegria de estarem connosco. E a nossa alegria de estarmos com eles.
            As citações de autores e personagens célebres são coisas complicadas. São bonitas, podem ser profundas, mas podem também ter o encanto das serpentes tentadoras. Há frases lindíssimas escritas por homens tenebrosos!
            Muito recentemente, recebi da minha colega Ermelinda uma daquelas citações que agora, recorrentemente, aparecem nas nossas caixas de correio da Internet. Só que, desta vez, vinha magnificamente ilustrada por uma aguarela lindíssima que ela própria pintou.
            A citação é de… Charles Chaplin?… Saint-Exupéry?… ou… Diz assim:
“Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha,
porque cada pessoa é única e nenhuma outra a substitui.
Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha,
e não nos deixa só, porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós.
Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova
de que as pessoas não se encontram por acaso.” 
            Queridos alunos, queridos colegas,
 Permitam-me a fantasia de vos fazer uma proposta:
            - Mano Acúrcio, orienta aí o pessoal!… 
            Passem o vosso braço por detrás de quem tiverem à vossa direita e poisem a vossa mão sobre o seu ombro. Deixem-se estar assim um bocadinho, sintam esse bocadinho e guardem-no na vossa memória. Procurem tomar consciência da alegria que neste momento vos percorre. Só da alegria mesmo! Porque a tristeza e a saudade também estarão hoje aí no meio de vocês. Seguramente. Por isso, repito, dêem primazia à alegria e tentem tomar consciência da alegria e do prazer que é estarem assim juntos.
(…)
            Vamos ver quem se lembrará deste gesto daqui a 20 anos.
            Desejo a todos um bom jantar, desejo a todos uma festa linda!
            Como dizem os Trovante, num poema dedicado a uma pessoa muito especial, que tive a felicidade de conhecer e de quem fui grande amigo,
Há quem espere por nós assim
mesmo ao meio da rota do fim
há quem tenha os braços abertos
para nos aquecer
e acenar no fim.
            Queridos alunos finalistas, na Escola Secundária Eça de Queirós haverá sempre alguém de braços abertos à vossa espera, para vos receber com alegria e companheirismo.
            Numa dádiva que me esforçarei sempre por merecer, recebi do nosso querido aluno João Soares Matos, já nesta semana, uma mensagem no meu blogue que diz assim, entre outras coisas belas e deliciosas:Com esforço e dedicação, todas as estrelas estão à distância de um abraço. (…) Sinto-me privilegiado por frequentar a Eça de Queirós, que brilha sob o céu azul todos os dias.”           
Queridos alunos,
- Felicidades nas vossas vidas, vão dando notícias!
            – Até sempre, queridos alunos!
            – Até um dia destes na Escola, queridos colegas e amigos!

quinta-feira, 19 de março de 2009

O papel do pai, no Dia do Pai

No Ciência Hoje, hoje precisamente:

Papel do pai é fundamental para desenvolvimento sócio-emocional da criança: 2009-03-19

«Pai, conta-me uma história»
Estudos recentes, feitos por investigadores do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), concluem que "a presença do pai na vida da criança tem um papel fundamental para o seu desenvolvimento sócio-emocional a vários níveis".
Na sua tese de mestrado intitulada "Pai, conta-me uma história - A importância do Pai no Desenvolvimento da Auto-estima na Criança", apresentada em Março, a psicóloga Inês Rito concluiu que "as crianças que têm um pai presente, com o qual coabitam na mesma casa, têm um nível de auto-estima superior àquelas que têm um pai ausente, com o qual não vivem".
Para este estudo, a investigadora inquiriu 81 crianças, com idades entre os oito e os doze anos, das quais 51 têm um pai presente e 30 têm um pai ausente. Para medir o desenvolvimento da sua auto-estima, utilizou o método de Susan Harter, um instrumento científico utilizado para este fim nas crianças, através de perguntas que têm uma escala de auto-avaliação. O método diz respeito a vários domínios, nomeadamente a competência escolar, que mede o quão competente a criança se sente, a aceitação escolar, que mede o quão popular ou socialmente aceite a criança se auto-avalia, entre outros aspectos.
"Depois de analisar todas as respostas nos dois grupos de crianças, concluí que as crianças com pai presente têm os seus níveis de auto-estima bastante superiores àquelas não vivem com o pai", disse à Agência Lusa Inês Rito. A psicóloga defende que "o pai é um pilar muito importante no desenvolvimento de qualquer criança", mas assume que "nem sempre os pais presentes são uma mais-valia", referindo-se àqueles que, embora presentes, não convivem directamente com os filhos.
Melhora a qualidade da relaçãoEnvolvimento do pai é fundamental
Um outro estudo feito na Unidade de Psicologia Cognitiva do Desenvolvimento e da Educação do ISPA e também divulgado neste mês de Março concluiu, de forma semelhante, que "quanto maior é a participação e o envolvimento do pai no crescimento e educação da criança melhor é a qualidade da relação que se estabelece entre ambos".
Segundo a psicóloga Manuela Veríssimo, uma das responsáveis pela investigação e docente do ISPA, "a figura do pai tem uma grande importância na vinculação com o progenitor e a sua imagem na família, enquanto um ser um pouco esquecido, começa a ser encarada de outra forma".
A amostra deste estudo consistiu em entrevistas a 44 díades mãe/criança e pai/criança, tendo as crianças, em média, 31,91 meses, sendo 23 do sexo feminino e 21 do sexo masculino, com mães e pais a trabalhar a tempo inteiro. Foram feitas análises à participação do pai nas actividades e à qualidade da vinculação pai/filho, que permitiram chegar a estas conclusões.
"Apesar de, hoje em dia, ser quase sempre a mãe a realizar as tarefas domésticas, a ir às reuniões da escola ou a ficar em casa quando os filhos estão doentes, o pai participa de forma igualitária nas actividades lúdicas da criança", pode ler-se nas conclusões da investigação. Ainda na área das actividades lúdicas, estes investigadores concluíram que "quanto mais elevadas as habilitações literárias do pai maior a sua participação nas actividades de brincadeira/lazer".
O Dia do Pai assinala-se hoje, dia 19 de Março.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Saudação e agradecimento aos meus alunos finalistas

Saudação e agradecimento aos meus alunos finalistas

Hoje queimaram-se as cábulas lá na Escola. E os alunos fizeram a entrega dos óscares aos professores.
Depois do ritual, deixei a Escola e fui para casa. Almocei e pus-me à frente do computador. Quis mandar logo a seguinte mensagem aos meus alunos:
Caros alunos e queridas alunas,
A Queima das Cábulas e a Entrega dos Óscares são brincadeiras recorrentes nas escolas. Por isso tornam-se rituais que estabelecem fronteiras entre um antes e um depois, mas são fronteiras que não separam, antes pelo contrário. Estas brincadeiras ritualizadas têm o condão de confirmar laços afectivos que perdurarão mesmo para além das separações físicas inevitáveis entre os professores, que ficam, e os alunos, que partem, porque é da natureza do seu desenvolvimento partirem. Com estas brincadeiras, um cantinho novo se aconchega e consolida nos corações de todos.
Este ano foi, sem dúvida, um dos meus anos escolares mais conseguidos. Estou muito contente do trabalho que fiz com todos vós e, como sou um emotivo secundário, haverá um dia, dentro de pouco tempo, em que, liberto da pressão das avaliações, dos exames e dos relatórios, pensarei em vós. E nessa altura deixarei, tranquilamente, que os meus olhos se humedeçam e os meus lábios desenhem o sorriso que a memória das coisas que fiz convosco vai seguramente e deliciosamente produzir.
As coisas são o que são, os professores não são indiferentes às apreciações e comentários dos seus alunos.
Ser baptizado “Sr. Ecológico”, é claro que fico imensamente contente. Quer dizer, entre outras coisas, que fui capaz de deixar uma mensagem sobre a terrível doença de que a velha Gaia, a Deusa da Terra, padece nos tempos que vivemos; o que, nos dias de hoje, é vitalmente importante para todos nós.
Ser baptizado “Charlot”, é outro motivo de grande contentamento. Será que deixei a mensagem de que não sou indiferente à condição seja de quem seja e que a força da solidariedade está, não nas roupas que se vestem, não da riqueza material que se possui, mas simplesmente no olhar atento e no coração que se enternece?
Ser, no mesmo ano, baptizado Sr. Ecológico e Charlot, é, porventura, o dois em um que eu alguma vez poderia ambicionar!
Obrigado a todos! Com alguns de vós, eu tive momentos difíceis. Mas nunca o confronto tolheu a nossa capacidade de aprender, nunca abafou o diálogo; pelo contrário, com o confronto crescemos e desenvolvemo-nos. Também eu cresci e me desenvolvi, podem crer.
Desejo-vos as maiores felicidades. O Charlot do baptizado de hoje é o Charlot do quadro que os meus colegas de trabalho numa escola de ensino especial me ofereceram há cerca de 30 anos, dizendo “Contigo, nunca alguém continuará sozinho ou sem esperança…” Como vêem, o Charlot continua vivo!
Contem sempre comigo ao vosso lado!
Beijos e abraços para todos!

sábado, 29 de abril de 2006

Amoras em roupa lavada

Ontem ao fim da tarde sentia-me cansadíssimo. Tão cansado que, assim que acabei a última aula, antecipei com redobrada satisfação a ocasião de um jantar de conversa com um bom amigo. Optámos por ir comer grelhados e ele insistiu, já à mesa, que fosse eu a escolher o vinho. A lista era enorme e os preços de alguns eram elevadíssimos. Optei por um que me despertou curiosidade porque provinha de uma região que me trazia recordações agradáveis, a região de Armamar. Não conhecia o vinho, íamos ver o que valia. Além disso, o preço era razoável.
A minha escolha deixou o empregado que recolheu o nosso pedido visivelmente satisfeito, fez um largo sorriso, e fez questão de nos dizer porque ficara tão satisfeito: aquele vinho era da região dele, ele era de Armamar.
Nessa altura dei mais atenção ao rapaz e reparei que ele era muito jovem. Na breve conversa que um restaurante cheio de clientes à hora do jantar permite, trocámos reconhecimentos de sítios que nos eram familiares: Goujoim, Gojim, Travanca…
Talvez tenha sido o sorriso do rapaz que me trouxe à lembrança o Fernando, meu homónimo, rapazinho de família bem modesta que eu conheci em Goujoim há muitos anos. O Fernando não precisa que nada nem ninguém mo traga à memória, recorrentemente ele vem por ele próprio. Na casa da aldeia, a fazerem parte da ambiência familiar que sempre muito acolhedoramente me recebia, eram muitas crianças juntas, todas pequenas, entre irmãos, primos e sobrinhos; com alguns destes mais velhos que os próprios tios. O Fernando, criança e tio, sem o saber, acabou por tornar-se o autor de uma das mais deliciosas memórias de vida que tenho.
Foi assim: nós tínhamos chegado a Goujoim na noite do dia anterior, um dia do Verão de 77, talvez 78. Tão tarde que foi praticamente chegar, cumprimentar a tia Adosinda (outra curiosidade do restaurante de ontem, o vinho que pedimos "puxava" à semelhança no nome, chamava-se Ardosino), que se mantivera de pé para nos receber, e irmos para a cama.
Nessa noite, dormi tão consoladoramente que, ao contrário do que é habitual, não dei conta de nada que se estivesse a passar à minha volta. Entretanto, se normalmente acordo com o Sol, aquele dia não foi excepção. Contudo, também ao contrário do que é habitual, na aparência do meu comportamento físico só os olhos acordaram, o resto do corpo não, não se contorceu nos vulgares movimentos de espreguiçamento matinal e parecia que se mantinha a dormir. E mesmo os olhos acordaram tão devagar que o Fernando, que estava sentado ali à minha cabeceira, não deu conta que eu tinha acabado de acordar. Ele estava de corpo bem voltado para mim, a pouco menos de um metro de distância. Naquele momento, ele olhava pela janela fora, talvez a ver as movimentações de alguém da família, que morava logo ali a seguir, na Casa Preta. Não sei porquê, "instintivamente" cerrei os olhos, tão devagar quanto quando os tinha aberto pouco antes. No fundo, eu não queria que ele ouvisse o barulho dos olhos a fecharem-se outra vez. Cerrei-os o suficiente para que ele não se apercebesse de que eu tinha acordado, mas, ao mesmo tempo, me deixasse manter uma visão nítida do rapaz.
Todo este instintivo cuidado permitiu-me fruir inteiramente o encantamento do momento.
O Fernando, num notável desenho do meu
querido aluno, amigo e companheiro Vasco Lopes
Fixei bem a atenção no Fernando e, aos poucos, fui-me dando conta de todos os elementos sensoriais que faziam parte da sua presença discreta ali ao pé de mim. Era bem evidente que ele já tinha tomado banho nessa manhã e que tinha vestido roupa lavada, da cabeça aos pés. A t-shirt era de um verde-limão muito agradável à vista, e estava toda tingida de gotas de rosa forte, gotas iguais à do vinho que no restaurante de ontem escolhi para o jantar com o meu amigo Rodrigo. Nas mãos, o Fernando segurava um saco de plástico verde-azeitona. As mãos dele estavam também tingidas com a cor do vinho.
Deixei-me ficar ali, fingidamente adormecido, a apreciar aquele delicioso quadro vivo. Vi o Fernando suspirar profundamente... Profundamente, mas silenciosamente, não fosse ele acordar-me, como a cotovia poderia também ter feito ao João no poema de António Nobre. Eu sentia-me bem a vê-lo limpo e tingido, a cheirar a lavado. O tempo passava tão lentamente que pude juntar aos cheiros agradáveis do rapazinho os aromas frescos da manhã na aldeia que entravam pela janela por onde ele olhava quando deixava de olhar para mim. Havia ainda um outro aroma, pregnante, doce, que, pouco depois, me apercebi que vinha de dentro do saco que o Fernando segurava nas mãos.
Finalmente os nossos olhares cruzaram-se. O Fernando fez um sorriso tão grande que a pele da cara se engelhou toda, como sempre acontecia quando ele sorria com muita intensidade. Só a testa continuou lisa, acentuando mesmo o brilho natural, quase espelhando nela o sol que entrava pela janela. Era o sorriso do rapaz a quem pedi o vinho no restaurante, só que o do Fernando era mil vezes mais intenso! O pequeno vizinho da tia Adosinda não me tinha visto chegar na véspera, apenas soubera que eu tinha chegado. “Tome, são para si…” disse o Fernando estendendo-me o saco que tinha nas mãos. Assim mesmo, sem me dizer mais nada. Puxei-me para cima na cama, não tive dúvida nenhuma que tinha de reagir prontamente ao que ele tão decididamente me oferecia. Na posição de sentado, aconcheguei a almofada às costas e aceitei o saco.
O saco estava abundantemente fornecido de amoras prenhes de suco tinto. “Coma, insistiu o Fernando, fui apanhá-las agora.” Sim, eu olhava para ele, outra vez da cabeça aos pés, e não tinha quaisquer dúvidas de que ele tinha acabado de as apanhar! Até conseguia lembrar-me da amoreira em que ele tinha realizado a sua tão matinal - e maravilhosa! - ideia. É que tínhamos parado ali os dois, ficando a conversar ao pé dela, no Verão do ano anterior.
Será que eu poderia simbolicamente dizer que a conversa dos dois tinha dado frutos?... Ou que era o próprio Fernando, meu homónimo, que me estava a dizer isso?... Comi 2 ou 3 amoras e convidei-o a que comesse algumas comigo. “Não, essas são todas para si… Eu depois vou apanhar mais para mim…” Continuei a olhar para ele. O sorriso do Fernando mantinha toda a intensidade. A amoreira ficava ainda longe das casas, a meio do caminho bem declivoso para a ribeira. Realmente, que esforço o dele!... Olhei para dentro do saco e comi mais algumas amoras. Era evidente que naquele momento estávamos os dois muito felizes.
Contei esta história ontem à noite ao Rodrigo, ao jantar, a saborear o vinho, antes de a escrever hoje.

terça-feira, 25 de abril de 2006

O colega de escola... o Estaline

Foi no ano lectivo 1974/75. Foi na Escola Secundária Patrício Prazeres. Estava-se em pleno período de ebulição a seguir ao 25 de Abril. Num dia de aulas qualquer, se calhar, no dia em que fazia anos a morte de José Estaline, e à semelhança de tantos outros dias assim evocativos, lá fomos todos, quase de rebolão, para o ginásio da Escola, para mais uma RGA (reunião geral de alunos). A determinada altura, um dos estudantes líderes da reunião propôs que guardássemos um minuto de silêncio em memória da morte de Estaline. Estávamos ainda todos de braço no ar, de punho cerrado, o minuto ainda não tinha acabado. Baixinho, para não ser ouvida por mais ninguém, uma aluna da escola voltou-se para mim, quase encostou a boca ao meu ouvido e perguntou-me: "Conhecias o aluno que morreu?..." Afastei a minha cabeça de maneira a poder ver bem o rosto dessa colega desconhecida e respondi-lhe, sério por fora e divertido por dentro: "Não colega, nem sei em que ano andava..."