quinta-feira, 19 de março de 2009

O papel do pai, no Dia do Pai

No Ciência Hoje, hoje precisamente:

Papel do pai é fundamental para desenvolvimento sócio-emocional da criança: 2009-03-19

«Pai, conta-me uma história»
Estudos recentes, feitos por investigadores do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), concluem que "a presença do pai na vida da criança tem um papel fundamental para o seu desenvolvimento sócio-emocional a vários níveis".
Na sua tese de mestrado intitulada "Pai, conta-me uma história - A importância do Pai no Desenvolvimento da Auto-estima na Criança", apresentada em Março, a psicóloga Inês Rito concluiu que "as crianças que têm um pai presente, com o qual coabitam na mesma casa, têm um nível de auto-estima superior àquelas que têm um pai ausente, com o qual não vivem".
Para este estudo, a investigadora inquiriu 81 crianças, com idades entre os oito e os doze anos, das quais 51 têm um pai presente e 30 têm um pai ausente. Para medir o desenvolvimento da sua auto-estima, utilizou o método de Susan Harter, um instrumento científico utilizado para este fim nas crianças, através de perguntas que têm uma escala de auto-avaliação. O método diz respeito a vários domínios, nomeadamente a competência escolar, que mede o quão competente a criança se sente, a aceitação escolar, que mede o quão popular ou socialmente aceite a criança se auto-avalia, entre outros aspectos.
"Depois de analisar todas as respostas nos dois grupos de crianças, concluí que as crianças com pai presente têm os seus níveis de auto-estima bastante superiores àquelas não vivem com o pai", disse à Agência Lusa Inês Rito. A psicóloga defende que "o pai é um pilar muito importante no desenvolvimento de qualquer criança", mas assume que "nem sempre os pais presentes são uma mais-valia", referindo-se àqueles que, embora presentes, não convivem directamente com os filhos.
Melhora a qualidade da relaçãoEnvolvimento do pai é fundamental
Um outro estudo feito na Unidade de Psicologia Cognitiva do Desenvolvimento e da Educação do ISPA e também divulgado neste mês de Março concluiu, de forma semelhante, que "quanto maior é a participação e o envolvimento do pai no crescimento e educação da criança melhor é a qualidade da relação que se estabelece entre ambos".
Segundo a psicóloga Manuela Veríssimo, uma das responsáveis pela investigação e docente do ISPA, "a figura do pai tem uma grande importância na vinculação com o progenitor e a sua imagem na família, enquanto um ser um pouco esquecido, começa a ser encarada de outra forma".
A amostra deste estudo consistiu em entrevistas a 44 díades mãe/criança e pai/criança, tendo as crianças, em média, 31,91 meses, sendo 23 do sexo feminino e 21 do sexo masculino, com mães e pais a trabalhar a tempo inteiro. Foram feitas análises à participação do pai nas actividades e à qualidade da vinculação pai/filho, que permitiram chegar a estas conclusões.
"Apesar de, hoje em dia, ser quase sempre a mãe a realizar as tarefas domésticas, a ir às reuniões da escola ou a ficar em casa quando os filhos estão doentes, o pai participa de forma igualitária nas actividades lúdicas da criança", pode ler-se nas conclusões da investigação. Ainda na área das actividades lúdicas, estes investigadores concluíram que "quanto mais elevadas as habilitações literárias do pai maior a sua participação nas actividades de brincadeira/lazer".
O Dia do Pai assinala-se hoje, dia 19 de Março.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Saudação e agradecimento aos meus alunos finalistas

Saudação e agradecimento aos meus alunos finalistas

Hoje queimaram-se as cábulas lá na Escola. E os alunos fizeram a entrega dos óscares aos professores.
Depois do ritual, deixei a Escola e fui para casa. Almocei e pus-me à frente do computador. Quis mandar logo a seguinte mensagem aos meus alunos:
Caros alunos e queridas alunas,
A Queima das Cábulas e a Entrega dos Óscares são brincadeiras recorrentes nas escolas. Por isso tornam-se rituais que estabelecem fronteiras entre um antes e um depois, mas são fronteiras que não separam, antes pelo contrário. Estas brincadeiras ritualizadas têm o condão de confirmar laços afectivos que perdurarão mesmo para além das separações físicas inevitáveis entre os professores, que ficam, e os alunos, que partem, porque é da natureza do seu desenvolvimento partirem. Com estas brincadeiras, um cantinho novo se aconchega e consolida nos corações de todos.
Este ano foi, sem dúvida, um dos meus anos escolares mais conseguidos. Estou muito contente do trabalho que fiz com todos vós e, como sou um emotivo secundário, haverá um dia, dentro de pouco tempo, em que, liberto da pressão das avaliações, dos exames e dos relatórios, pensarei em vós. E nessa altura deixarei, tranquilamente, que os meus olhos se humedeçam e os meus lábios desenhem o sorriso que a memória das coisas que fiz convosco vai seguramente e deliciosamente produzir.
As coisas são o que são, os professores não são indiferentes às apreciações e comentários dos seus alunos.
Ser baptizado “Sr. Ecológico”, é claro que fico imensamente contente. Quer dizer, entre outras coisas, que fui capaz de deixar uma mensagem sobre a terrível doença de que a velha Gaia, a Deusa da Terra, padece nos tempos que vivemos; o que, nos dias de hoje, é vitalmente importante para todos nós.
Ser baptizado “Charlot”, é outro motivo de grande contentamento. Será que deixei a mensagem de que não sou indiferente à condição seja de quem seja e que a força da solidariedade está, não nas roupas que se vestem, não da riqueza material que se possui, mas simplesmente no olhar atento e no coração que se enternece?
Ser, no mesmo ano, baptizado Sr. Ecológico e Charlot, é, porventura, o dois em um que eu alguma vez poderia ambicionar!
Obrigado a todos! Com alguns de vós, eu tive momentos difíceis. Mas nunca o confronto tolheu a nossa capacidade de aprender, nunca abafou o diálogo; pelo contrário, com o confronto crescemos e desenvolvemo-nos. Também eu cresci e me desenvolvi, podem crer.
Desejo-vos as maiores felicidades. O Charlot do baptizado de hoje é o Charlot do quadro que os meus colegas de trabalho numa escola de ensino especial me ofereceram há cerca de 30 anos, dizendo “Contigo, nunca alguém continuará sozinho ou sem esperança…” Como vêem, o Charlot continua vivo!
Contem sempre comigo ao vosso lado!
Beijos e abraços para todos!

sábado, 29 de abril de 2006

Amoras em roupa lavada

Ontem ao fim da tarde sentia-me cansadíssimo. Tão cansado que, assim que acabei a última aula, antecipei com redobrada satisfação a ocasião de um jantar de conversa com um bom amigo. Optámos por ir comer grelhados e ele insistiu, já à mesa, que fosse eu a escolher o vinho. A lista era enorme e os preços de alguns eram elevadíssimos. Optei por um que me despertou curiosidade porque provinha de uma região que me trazia recordações agradáveis, a região de Armamar. Não conhecia o vinho, íamos ver o que valia. Além disso, o preço era razoável.
A minha escolha deixou o empregado que recolheu o nosso pedido visivelmente satisfeito, fez um largo sorriso, e fez questão de nos dizer porque ficara tão satisfeito: aquele vinho era da região dele, ele era de Armamar.
Nessa altura dei mais atenção ao rapaz e reparei que ele era muito jovem. Na breve conversa que um restaurante cheio de clientes à hora do jantar permite, trocámos reconhecimentos de sítios que nos eram familiares: Goujoim, Gojim, Travanca…
Talvez tenha sido o sorriso do rapaz que me trouxe à lembrança o Fernando, meu homónimo, rapazinho de família bem modesta que eu conheci em Goujoim há muitos anos. O Fernando não precisa que nada nem ninguém mo traga à memória, recorrentemente ele vem por ele próprio. Na casa da aldeia, a fazerem parte da ambiência familiar que sempre muito acolhedoramente me recebia, eram muitas crianças juntas, todas pequenas, entre irmãos, primos e sobrinhos; com alguns destes mais velhos que os próprios tios. O Fernando, criança e tio, sem o saber, acabou por tornar-se o autor de uma das mais deliciosas memórias de vida que tenho.
Foi assim: nós tínhamos chegado a Goujoim na noite do dia anterior, um dia do Verão de 77, talvez 78. Tão tarde que foi praticamente chegar, cumprimentar a tia Adosinda (outra curiosidade do restaurante de ontem, o vinho que pedimos "puxava" à semelhança no nome, chamava-se Ardosino), que se mantivera de pé para nos receber, e irmos para a cama.
Nessa noite, dormi tão consoladoramente que, ao contrário do que é habitual, não dei conta de nada que se estivesse a passar à minha volta. Entretanto, se normalmente acordo com o Sol, aquele dia não foi excepção. Contudo, também ao contrário do que é habitual, na aparência do meu comportamento físico só os olhos acordaram, o resto do corpo não, não se contorceu nos vulgares movimentos de espreguiçamento matinal e parecia que se mantinha a dormir. E mesmo os olhos acordaram tão devagar que o Fernando, que estava sentado ali à minha cabeceira, não deu conta que eu tinha acabado de acordar. Ele estava de corpo bem voltado para mim, a pouco menos de um metro de distância. Naquele momento, ele olhava pela janela fora, talvez a ver as movimentações de alguém da família, que morava logo ali a seguir, na Casa Preta. Não sei porquê, "instintivamente" cerrei os olhos, tão devagar quanto quando os tinha aberto pouco antes. No fundo, eu não queria que ele ouvisse o barulho dos olhos a fecharem-se outra vez. Cerrei-os o suficiente para que ele não se apercebesse de que eu tinha acordado, mas, ao mesmo tempo, me deixasse manter uma visão nítida do rapaz.
Todo este instintivo cuidado permitiu-me fruir inteiramente o encantamento do momento.
O Fernando, num notável desenho do meu
querido aluno, amigo e companheiro Vasco Lopes
Fixei bem a atenção no Fernando e, aos poucos, fui-me dando conta de todos os elementos sensoriais que faziam parte da sua presença discreta ali ao pé de mim. Era bem evidente que ele já tinha tomado banho nessa manhã e que tinha vestido roupa lavada, da cabeça aos pés. A t-shirt era de um verde-limão muito agradável à vista, e estava toda tingida de gotas de rosa forte, gotas iguais à do vinho que no restaurante de ontem escolhi para o jantar com o meu amigo Rodrigo. Nas mãos, o Fernando segurava um saco de plástico verde-azeitona. As mãos dele estavam também tingidas com a cor do vinho.
Deixei-me ficar ali, fingidamente adormecido, a apreciar aquele delicioso quadro vivo. Vi o Fernando suspirar profundamente... Profundamente, mas silenciosamente, não fosse ele acordar-me, como a cotovia poderia também ter feito ao João no poema de António Nobre. Eu sentia-me bem a vê-lo limpo e tingido, a cheirar a lavado. O tempo passava tão lentamente que pude juntar aos cheiros agradáveis do rapazinho os aromas frescos da manhã na aldeia que entravam pela janela por onde ele olhava quando deixava de olhar para mim. Havia ainda um outro aroma, pregnante, doce, que, pouco depois, me apercebi que vinha de dentro do saco que o Fernando segurava nas mãos.
Finalmente os nossos olhares cruzaram-se. O Fernando fez um sorriso tão grande que a pele da cara se engelhou toda, como sempre acontecia quando ele sorria com muita intensidade. Só a testa continuou lisa, acentuando mesmo o brilho natural, quase espelhando nela o sol que entrava pela janela. Era o sorriso do rapaz a quem pedi o vinho no restaurante, só que o do Fernando era mil vezes mais intenso! O pequeno vizinho da tia Adosinda não me tinha visto chegar na véspera, apenas soubera que eu tinha chegado. “Tome, são para si…” disse o Fernando estendendo-me o saco que tinha nas mãos. Assim mesmo, sem me dizer mais nada. Puxei-me para cima na cama, não tive dúvida nenhuma que tinha de reagir prontamente ao que ele tão decididamente me oferecia. Na posição de sentado, aconcheguei a almofada às costas e aceitei o saco.
O saco estava abundantemente fornecido de amoras prenhes de suco tinto. “Coma, insistiu o Fernando, fui apanhá-las agora.” Sim, eu olhava para ele, outra vez da cabeça aos pés, e não tinha quaisquer dúvidas de que ele tinha acabado de as apanhar! Até conseguia lembrar-me da amoreira em que ele tinha realizado a sua tão matinal - e maravilhosa! - ideia. É que tínhamos parado ali os dois, ficando a conversar ao pé dela, no Verão do ano anterior.
Será que eu poderia simbolicamente dizer que a conversa dos dois tinha dado frutos?... Ou que era o próprio Fernando, meu homónimo, que me estava a dizer isso?... Comi 2 ou 3 amoras e convidei-o a que comesse algumas comigo. “Não, essas são todas para si… Eu depois vou apanhar mais para mim…” Continuei a olhar para ele. O sorriso do Fernando mantinha toda a intensidade. A amoreira ficava ainda longe das casas, a meio do caminho bem declivoso para a ribeira. Realmente, que esforço o dele!... Olhei para dentro do saco e comi mais algumas amoras. Era evidente que naquele momento estávamos os dois muito felizes.
Contei esta história ontem à noite ao Rodrigo, ao jantar, a saborear o vinho, antes de a escrever hoje.

terça-feira, 25 de abril de 2006

O colega de escola... o Estaline

Foi no ano lectivo 1974/75. Foi na Escola Secundária Patrício Prazeres. Estava-se em pleno período de ebulição a seguir ao 25 de Abril. Num dia de aulas qualquer, se calhar, no dia em que fazia anos a morte de José Estaline, e à semelhança de tantos outros dias assim evocativos, lá fomos todos, quase de rebolão, para o ginásio da Escola, para mais uma RGA (reunião geral de alunos). A determinada altura, um dos estudantes líderes da reunião propôs que guardássemos um minuto de silêncio em memória da morte de Estaline. Estávamos ainda todos de braço no ar, de punho cerrado, o minuto ainda não tinha acabado. Baixinho, para não ser ouvida por mais ninguém, uma aluna da escola voltou-se para mim, quase encostou a boca ao meu ouvido e perguntou-me: "Conhecias o aluno que morreu?..." Afastei a minha cabeça de maneira a poder ver bem o rosto dessa colega desconhecida e respondi-lhe, sério por fora e divertido por dentro: "Não colega, nem sei em que ano andava..."

segunda-feira, 24 de abril de 2006

Madrugada de um novo dia. Do outro lado do Tejo, bem lá ao fundo, o disco vermelhão do Sol começou a subir.

Cada apontamento deste blogue constituir-se-á como um relato-testemunho, mais extenso e pormenorizado, ou mais resumido e simplificado, de uma ocorrência actual ou passada na vida de uma criança, ou um jovem, de um crescido ou de um idoso, cujo percurso de vida na escola, ou fora dela, algures, se cruzou com o meu e, um dia, ganhou a forma de um relato ou uma pequena história.

Será também um espaço de encontro ou reencontro com a minha própria família.

Todas as ocorrências de alguma forma me ajudaram a ser a pessoa que que fui e em que me vou transformando.

A outra intenção da publicação deste blogue é a publicação de um livro digital. A todos aqueles que acharem nos meus apontamentos afinidades com histórias suas, convido-os a juntarem essas histórias às minhas e, assim, tal livro tomará a forma de uma autoria colectiva.

terça-feira, 4 de abril de 2006

A primeira aula da Terceira Vaga

Já passaram uns anos valentes desde que li duas obras de Alvin Toffler, para além de ter visto alguns dos seus documentários na televisão. Logo nessa altura me impressionaram bastante, e ainda hoje as suas repercussões na minha maneira de pensar e de tomar perspectivas globais sobre as coisas se fazem sentir.
Quando, durante a semana que passou, procurava na Net sites e materiais sobre portefólios, encontrei, em vários sites que pesquisei, a citação que usei no meu slide da aula de ontem, Os analfabetos do século XXI não serão os que não conseguirem ler e escrever, mas sim aqueles que não conseguirem aprender, desaprender e reaprender. É, na verdade, uma frase à Alvin Toffler.
Também é verdade que, hoje em dia, já se fala abundantemente em "aprender a aprender", mesmo em círculos de pensamento e discussão que, se calhar, nunca tiveram contacto ou conhecimento com as obras de Alvin Toffler, que seguiram outros caminhos.
A aula de ontem - e os comentários finais de todos os alunos participantes na aula deixaram apreciações nesse sentido - foi uma experiência "de terceira vaga" que nos colocou a todos - licenciados da "segunda vaga" - perante a nudez recíproca de todos, em que fomos confrontados com a relatividade da nossa sabedoria tradicional, consagrada nos títulos académicos que ostentamos, e ali estivemos, ignorantes, "desaprendidos", a ter de aprender de novo. E, ironia das ironias, enquanto enfrentávamos, titubiantes, os caminhos novos em que nos tinham colocado, foi do lado do apoio seguro com que contávamos que as coisas revelaram um dos lados frágeis desta modalidade de ensino-aprendizagem de terceira vaga. O professor "caiu" várias vezes. Curiosamente, talvez por isto mesmo, o à-vontade dos alunos foi crescendo aos poucos: é que o professor "caía", mas levantava-se pouco depois; desaparecia e voltava, sem se deixar perturbar pelos impedimentos das maquinarias e dos fluxos de informação que serpenteavam na rede e chegavam ao destino certo ou se tresviavam no caminho. E nós, os alunos ignorantes que ali continuávamos, aos poucos, fomos tomando conta da tecnologia. É que, sem que o planeasse, sem que o previsse, o professor acabou por nos dar uma ajuda preciosíssimo: isto não mata, isto não dá choque, isto não queima as mãos! Por isso, a aula acabou, penso eu, com todos nós a termos a certeza de que a tecnologia é uma coisa que existe para ser posta ao nosso serviço. No fundo, penso que é aquela sensação do condutor automóvel quando finalmente deixa de ter medo do poder de velocidade do carro e sente espalhar-se no corpo a percepção de que a velocidade do veículo será sempre aquela que ele quiser imprimir à máquina.
Ora o que esteve verdadeiramente em questão nas "quedas" do professor foi que os alunos tiveram tempo!... Deixem-me explicar: Penso que o maior problema das tecnologias modernas e das novas aprendizagens tem quase sempre a ver com o tempo... de digestão. É assim: só nos saberá bem o peixinho cozido do jantar depois de termos feito a digestão do lombozinho assado do almoço. As coisas novas, os novos "apports" têm de ser digeridos depois da digestão anterior ter tido o tempo necessário para que se completasse satisfatoriamente. Hoje em dia, as coisas vêm quase sempre em catadupa.
Mas nós ontem tivemos tempo de ir digerindo as coisas aos poucos, uma dentadinha de cada vez. Assim soube muito bem.
É assim que deveria ser sempre com os nossos alunos. E não é, pois não?

sexta-feira, 24 de março de 2006

O Fernando fala do Fernando com a ajuda do Fernando

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
Fernando Pessoa
Provavelmente, o entusiasmo dos alunos (alunos que, de dia, são professores intensamente empenhados no seu fazer profissional e, ao fim da tarde, se sentam nas cadeiras dos alunos), o entusiasmo de alunos sequiosos [Hoje - pelo menos por agora - não falo em avidez] de conhecer mais, de desbravar outros caminhos, constitui-se como uma das dinâmicas de sala de aula de mais difícil manejo. Sobretudo se as aulas são às sextas-feiras, ao fim da tarde, depois do professor ter tido outros alunos, e dos alunos terem tido outros trabalhos ao longo do dia, que é também o último da semana de trabalho.
Aulas assim são de uma tremenda exigência para o professor. É que, se para os alunos os níveis de concentração na tarefa, a capacidade de focalizar e manter a atenção nos temas que estão a ser tratados já não são o que seria desejável serem (e os alunos pouco se importam com isso), no caso do professor, a exigência no seu papel, na sua função docente, é a mesma da primeira hora de aula do dia, ou mesmo da semana.
Terrível condição a do professor que tem de ser capaz de gerir vontades que querem chegar a tudo, às vezes quase sem deixar que as mãos se harmonizem às formas, à textura, ou à temperatura de cada uma das coisas que tocam. É preciso não desapontar. É preciso - como que pegando na terminologia de Eric Erikson, autor de que ando neste momento a falar aos meus alunos - não deixar que os mais ténues sentimentos de culpa, vergonha, inferioridade ou decepção afectiva ensombrem o entusiasmo pulsante, por mais ingénuo que possa parecer.
Quais crianças maravilhadas no mundo mágico dos brinquedos, os alunos são levados, por professores que gostam de o ser , a pedir isto, a querer aquilo, a não querer deixar para trás ainda mais esta ou aquela coisa.
Pois foi assim que eu hoje vi um professor a dar uma aula ao fim da tarde de uma sexta-feira:
Um professor tão fingidor, que porfiou para fingir tão completamente, que chegou a fazer parecer que era coisa, o que na verdade era o modo de a fazer.
Quer dizer, noutra metáfora já vulgarizada, mais uma vez a aula de hoje deu-se naquelas águas agitadas em que se joga a escolha entre dar o peixe ou a cana para o pescar.
Parabéns, Professor Fernando! Hoje ganhou, num terreno e em condições muito difíceis. Mas, cuide-se! Iremos voltar à carga!